Luz para Todos os Povos: A Festa da Apresentação do Senhor (2 de fevereiro)
A Festa da Apresentação do Senhor, celebrada a 2 de fevereiro, coloca no centro a figura de Cristo apresentado no Templo como luz para todos os povos, enquanto Maria aparece como Mãe que leva essa luz ao encontro da humanidade. Em Portugal, esta dimensão cristológica da festa entrelaça‑se profundamente com a religiosidade popular, onde o povo fala de Nossa Senhora das Candeias, da Luz ou da Purificação, traduzindo em linguagem afetiva e simbólica o mistério celebrado na liturgia. No centro do país, em particular, o título “Nossa Senhora das Candeias” tornou‑se expressão familiar e identitária, ligando a fé ao quotidiano, ao ano agrícola, às memórias de infância e às tradições locais.
Enquadramento bíblico
O ponto de partida desta festa é o relato de Lucas sobre a apresentação de Jesus no Templo e a purificação de Maria, quarenta dias após o nascimento, em cumprimento da Lei de Moisés. Maria e José sobem ao templo com a humildade dos pobres de Israel, oferecendo “um par de rolas ou duas pombinhas”, enquanto Simeão e Ana, figuras da esperança fiel, reconhecem naquele Menino o Messias esperado e proclamam a sua missão.
Neste episódio, Deus cumpre as promessas antigas: Simeão bendiz o Senhor e proclama Jesus como “luz para iluminar as nações e glória de Israel”, dando à cena uma dimensão universal que ultrapassa as fronteiras do povo eleito. A profecia sobre Maria – “uma espada trespassará a tua alma” – antecipa já o mistério pascal, indicando que a missão luminosa de Cristo passa pelo caminho da cruz.
Apresentação de Jesus no Templo, Francisco Rizzi, 1663
Significado teológico da Apresentação
A Festa da Apresentação do Senhor é, antes de mais, uma celebração cristológica: tudo converge para Cristo, dom do Pai à humanidade, oferecido e consagrado no Templo como primogénito. A presença de Maria e José, obedientes à Lei, mostra que o Filho de Deus entra plenamente na história de um povo concreto e assume a condição humana em todas as suas dimensões, inclusive a religiosa e cultural.
Teologicamente, a proclamação de Jesus como “luz para todos os povos” revela a universalidade da salvação e liga esta festa ao dinamismo missionário da Epifania e ao horizonte pascal. A profecia de Simeão, ao falar de queda e ressurgimento e ao anunciar a espada que ferirá o coração de Maria, faz desta celebração uma ponte entre o Natal e a Páscoa, entre a ternura do Menino e a seriedade da cruz.
Nossa Senhora das Candeias
Nossa Senhora das Candeias, chamada também Nossa Senhora da Luz, da Purificação ou da Candelária, designa a mesma Mãe de Jesus contemplada neste mistério da apresentação e da purificação. O título “Candeias” remete diretamente para as velas, as luzes que se acendem neste dia, sinal de que Maria traz ao Templo Aquele que é a verdadeira “Luz do mundo” e o oferece à adoração do povo fiel.
A tradição recorda que esta devoção se difundiu com particular vigor a partir de narrativas ligadas às Ilhas Canárias, onde teria sido venerada uma imagem de Nossa Senhora associada à luz e à proteção dos navegantes, mas em Portugal o culto a Nossa Senhora da Luz ou da Purificação é atestado desde a Idade Média. No país, o nome “Nossa Senhora das Candeias” enraizou‑se na linguagem popular, aparecendo em capelas, festas locais e romarias que mantêm viva a memória da Apresentação do Senhor na forma de uma devoção mariana próxima e familiar.
Simbolismo da luz e das velas
A bênção das velas e a procissão luminosa constituem o gesto mais característico desta festa, a ponto de a tradição popular a designar “Festa das Candeias”. As velas acesas, levadas nas mãos dos fiéis, simbolizam Cristo, luz que vence as trevas, e significam também a fé de cada batizado chamado a deixar‑se iluminar e a tornar‑se, por sua vez, sinal luminoso no meio do mundo.
Do ponto de vista catequético, a vela é um pequeno “evangelho visível”: o fogo que consome a cera lembra o amor que se gasta, a claridade aponta para a verdade que ilumina, a chama frágil remete para a vulnerabilidade do testemunho cristão no meio das contradições da história. Não por acaso, a devoção a Nossa Senhora das Candeias tornou‑se tradicionalmente próxima de cegos e pessoas que pedem luz para o caminho, reforçando a ideia de Maria como portadora e guardiã da luz de Cristo.
Lugar no tempo litúrgico
Celebrada quarenta dias após o Natal, a Apresentação do Senhor encerra, de certo modo, o ciclo natalício, devolvendo o Menino Jesus ao horizonte mais vasto do mistério pascal. A liturgia recorda que a encarnação não é um episódio isolado, mas o início de um caminho que conduzirá à entrega total de Cristo na cruz e à sua gloriosa ressurreição.
Depois desta festa, o ano litúrgico entra plenamente no Tempo Comum, embora o olhar já se comece a orientar para a Quaresma e para o Tríduo Pascal. A luz que brilha nas candeias de fevereiro prepara espiritualmente a comunidade para o combate pascal, lembrando que a missão da Igreja é manter acesa, no tempo, a claridade de Cristo ressuscitado.
Dimensão cristológica e missionária
Na Apresentação do Senhor, Cristo é oferecido ao Pai e apresentado ao mundo como luz destinada a todas as nações, sem exclusões. A cena de Jerusalém, aparentemente modesta e discreta, contém uma vocação universal: aquele Menino, recebido nos braços de Simeão, é enviado a iluminar povos, culturas e épocas diversas, incluindo a história concreta de Portugal.
Esta dimensão missionária ressoa na própria prática devocional: ao invocar Nossa Senhora das Candeias como Mãe da Luz, os fiéis são convidados a assumir a responsabilidade de levar essa luz aos ambientes familiares, profissionais e sociais. A bênção das velas, quando bem preparada e explicada, torna‑se um momento pedagógico, que lembra a cada cristão a vocação de ser “candeia” acesa pela fé e pela caridade no meio das sombras do nosso tempo.
Expressões populares em Portugal
Em Portugal, a festa de 2 de fevereiro é acompanhada por diversas tradições populares, que variam de região para região, mas revelam uma percepção muito concreta da luz de Cristo na vida quotidiana. Em muitas localidades, mantêm‑se procissões de velas, bênção de grávidas e de crianças de colo, promessas cumpridas junto a imagens de Nossa Senhora das Candeias e momentos de convívio comunitário marcados pela partilha de fritos, filhoses e outros alimentos associados ao azeite, sinal de luz.
Uma crença muito divulgada liga a Senhora das Candeias ao estado do tempo: “se a Senhora das Candeias chora, está o inverno fora; se a Senhora das Candeias rir, está o inverno para vir”, provérbio que interpreta a chuva ou o sol deste dia como prenúncio da continuação ou do fim do mau tempo. Em Portugal, esta leitura do céu, feita à luz da fé, mostra como a festa se inscreve no ritmo do ano agrícola, na preocupação com as colheitas e na esperança de um tempo favorável.
Religiosidade em Portugal
Títulos como Nossa Senhora das Candeias ou da Luz aparecem em capelas, nichos à beira da estrada e festas locais que conjugam missa, procissão e momentos fortes de sociabilidade. Em algumas povoações, a imagem de Nossa Senhora das Candeias é levada em andor pelas ruas enfeitadas com colchas e velas, e permanece depois do lado de fora da igreja ou junto à estrada, como sinal de proteção e intercessão ao longo do ano.
A tradição de comer fritos e filhoses neste dia, associando o azeite à luz, mostra como a religiosidade popular integra elementos simples do quotidiano numa leitura de fé. Em contextos rurais, a festa marca também o ritmo das fainas agrícolas, com memórias de ranchos de trabalhadores que regressavam do olival precisamente por estes dias, agradecendo a Nossa Senhora das Candeias a boa colheita.
Actualidade pastoral da festa
Num contexto cultural marcado por muitas formas de obscuridade – desorientação espiritual, solidão, crise de sentido – a Festa da Apresentação do Senhor oferece uma oportunidade privilegiada para redescobrir Cristo como luz que orienta a vida. A figura de Simeão e Ana interpela as comunidades a cultivar a escuta da Palavra, a perseverança na oração e a capacidade de reconhecer os sinais de Deus no meio da história.
Pastoralmente, a devoção a Nossa Senhora das Candeias pode ser apresentada como escola de discipulado: Maria não retém a luz para si, mas leva‑a ao Templo e ao povo, ensinando a Igreja a viver numa atitude de oferta e de serviço. A bênção das velas, a valorização das tradições locais e a ligação ao Dia da Vida Consagrada (também celebrado a 2 de fevereiro) podem ser ocasião para convidar os fiéis a uma fé mais lúcida, responsável e comprometida na construção de comunidades que sejam, concretamente, sinais luminosos no coração de Portugal.