Cultura
Que Igreja na fragilidade?
Talvez a santidade seja este assumir constante da nossa fragilidade, aliado a uma vontade firme de permanecermos perto de Jesus.
“Que tipo de Igreja as pessoas encontram precisamente quando estão mais frágeis ?” Eis a questão, lançada pelo Papa Leão no dia 7 de outubro no arranque do encontro que assinalou os 10 anos da publicação da encíclica Amoris Laetitia. Mais de duzentas pessoas estiveram reunidas no Vaticano para refletir em conjunto sobre cinco grandes temas: “As famílias hoje: realidade, beleza e desafios”; “Os jovens e a descoberta da vocação ao matrimónio”; “Vida conjugal: os primeiros anos de casamento – um momento decisivo”; “Nas dificuldades da vida: acompanhamento e apoio”; “Famílias cristãs, sujeitos da missão da Igreja”.
Os temas quase que falam por si, indicando fragilidades e prioridades. O encontro teve pouco mediatismo, até porque calhou mesmo na semana da operação ao pulmão do Papa Leão. A Amoris Laetitia, lançada no ano da misericórdia (2016), abriu outros caminhos para a vida conjugal e familiar. E iniciou uma corrente de misericórdia e de novas oportunidades para muitas pessoas e situações, sobretudo para situações de fragilidade: uma grande benção!
E se falássemos menos dos padres?
Nesta última década “bateu-se” muito nos padres! Os abusos sexuais de menores e o clericalismo foram os grandes motivos. Foi também em 2016 que o tema dos abusos emergiu com mais força entre nós: um autêntico tsunami de crimes hediondos que bradam aos céus! E outras tantas falsas acusações e injustiças. O clericalismo foi nomeado pelo Papa Francisco como a principal “doença” da Igreja. Doença que está tantas vezes na origem dos abusos.
No meio disto, tornaram-se evidentes as fragilidades de muitos padres, assoberbados de solicitações e cobertos por um manto de desconfiança por causa dos abusos. Só este ano, três padres meus próximos tiveram burnouts. Deu-me que pensar. Agora que este tema dos abusos parece ter sido devidamente reconhecido, endereçado e tratado, fica a pergunta: vamos continuar a ”bater” nos padres ou vamos mudar de conversa?
É que o clericalismo também é um “afunilar” das conversas num certo fascínio manhoso pelas figuras sacerdotais, misturado com uma maledicência doentia. Fala-se demais dos padres, dos que são o máximo e dos que fazem porcaria. De todos se fala dos seus pecados, vaidades e fragilidades. Além de carregada de maus sentimentos e excessos, essa conversa vem muitas vezes esconder outra, que ninguém quer ter: o pouco ou nada que fazem todos os outros batizados, que somos a larguíssima maioria!
Sinodalidade
A recente aposta no reforço da sinodalidade é a tentativa de equilibrar muita coisa: de procurar outros caminhos, de valorizar os contributos de cada um e as várias vocações. De reconhecer fragilidades e aprender a trabalhar juntos, de nos relacionarmos melhor, todos, e de refletir em conjunto, promovendo melhorias. E de se abordarem temas relevantes, sem afunilar a conversa nos temas do costume: os abusos, os padres…
A sinodalidade não é uma ameaça às lideranças de padres e bispos. É uma grande oportunidade de valorização de todos. Infelizmente, parece que esta “conversa” sinodal está a passar ao lado da larga maioria das pessoas, talvez por ser (ainda) demasiado processual ou metodológica.
Este mais recente encontro a assinalar o décimo aniversário da Amoris Laetitia foi também mais um exercício de sinodalidade, desta vez em torno de temas vitais das famílias e dos casais: responsáveis da Cúria, bispos, especialistas e vários casais estiveram reunidos mais de uma semana em mesas redondas onde a palavra e o silêncio circulou por todos. São por demais conhecidas as fragilidades atuais dos casais e das famílias e importa refletir e propor caminhos para as melhorar. Por um lado, é pena um encontro destes ser tão pouco divulgado. Por outro, gosto de pensar que as coisas boas vão surgindo lentamente, no silêncio e no coração de quem as vai gerando, “sem muita onda”. Os frutos deste encontro chegarão a seu tempo.
“Nós, leigos, casados ou não, haveríamos de concentrar esforços na nossa vocação de batizados que, nos altos e baixos da vida, aspiram à santidade. Haveríamos de apoiar e fortalecer mais as pessoas, as novas formas de agregação e as comunidades que promovem um paradigma laical e conjugal, dando-lhes mais solidez e força.”
E se falássemos mais dos leigos?
No século passado emergiram diversos movimentos e correntes de vida laical e conjugal. O Concílio Vaticano II veio dar força a este inconsciente coletivo eclesial, a esta intuição de fundo: o paradigma clerical, que imperou durante séculos, não poderia continuar a ser o único. Todos somos chamados à santidade. Se “na casa de meu Pai há muitas moradas” – como diz Jesus no Evangelho – têm de poder coexistir, ombro a ombro, sem complexos de superioridade ou inferioridade, outros paradigmas, outros estilos prementes de viver a fé e a caridade. Passou-se a falar no paradigma conjugal (de que as Equipas de Nossa Senhora são um belo exemplo), do paradigma da santificação do trabalho e da vida corrente (em que o Opus Dei é uma referência incontornável), da santificação das famílias (em Schoenstatt e nos Focolares, por exemplo). E outras correntes de vida que crescem na nossa vida eclesial hodierna.
Nós, leigos, casados ou não, haveríamos de concentrar esforços na nossa vocação de batizados que, nos altos e baixos da vida, aspiram à santidade (em vez de passar a vida a falar dos padres!). É certo que uma vida laical desenrola-se em contextos muito diversos e é difícil de tipificar. Cada leigo é diferente de outro e tem uma missão quase única e própria, um raio de ação diverso, uma maior penetração em certos ambientes; é preciso acreditar no valor e na importância da missão laical, nos variadíssimos âmbitos em que se desenrola. Não são missões de somenos importância nem menos propensas à santidade e à propagação do Evangelho. E não estão menos cheias de fragilidades.
Santa Teresinha, a pequena grande santa dos tempos modernos, deu o mote para este novo tipo de santidade: pequeno caminho de “amor concentrado”, de maior interioridade e invisibilidade, de cuidado nas pequenas coisas e gestos do dia a dia, de entrega generosa aos que estão fisicamente próximos (família!), de oração pelos ateus, sempre muito orante e com forte ardor missionário.
Também São José nos ensina a viver uma grande e humilde santidade em meio laical e familiar, trabalhando, rezando e providenciando, sem alarido nem espetáculo. Donald Calloway, padre americano autor do bestseller Consagração a São José não tem dúvidas em afirmar que todo o contexto atual do mundo e da Igreja levam a acreditar que “esta é a hora de São José!”.
Haveríamos de apoiar e fortalecer mais as pessoas, as novas formas de agregação e as comunidades que promovem um paradigma laical e conjugal, dando-lhes mais solidez e força.
Casais santos e frágeis
Podem inspirar-nos também as ainda recentes canonizações ou beatificações de alguns casais, como o casal Beltrame Quatrocchio, Zélia e Luís Martin (pais de Santa Teresinha), Carlos e Zita de Habsbourg e mais um ou outro. São poucos, ainda.
Importa fala mais de casais santos (mesmo que ainda não canonizados) com vidas de abundância e entrega generosa, de famílias que procuram seguir o Senhor com criatividade e no meio de tantas solicitações, de mães e pais de família extraordinários que dão tudo no seu dia a dia. Aceitam-se testemunhos que nos entusiasmem pela vida conjugal no meio de tantas fragilidades.
Neste recente encontro por ocasião dos 10 anos da Amoris Laetitia também se falou de famílias missionárias e sujeitos de missão e de santidade para o mundo. A concluir o encontro, o Papa Leão, na fragilidade pós operatória, enviou do hospital a homilia para ser lida por um cardeal na missa final. Afirma o Papa que “o mundo não tem futuro sem famílias sólidas” e que “merecem ser valorizados e apoiados os esforços de tantas famílias que, nas nossas cidades e aldeias, vivem a sua vocação e missão dia após dia, sem ruído, mas com fidelidade por vezes heroica”. O site www.amorislaetitia.vainclui a homilia completa e muita informação e recursos desta magna reunião. Sabemos, porém, que a sinodalidade não vale tanto pelas sínteses dos encontros e recursos online. O processo, as relações e o ambiente criados, valem tanto ou mais do que produtos finais escritos. Assim é a nossa vida também. Vida sempre recheada de fragilidades: dos casais, dos padres, do Papa no hospital, da Igreja toda, de todos e de cada um de nós. Talvez a santidade seja este assumir constante da nossa fragilidade, aliado a uma vontade firme de permanecermos perto de Jesus.
Pedro Salgueiro
Perdão: a pedra angular na construção da paz
Perdoar é dar o primeiro passo em direção à construção da paz. É escolher não desejar o mal a quem nos feriu. É querer o seu bem, ainda que não o consigamos desejar de imediato.
“Errar é humano.” Uma das expressões mais mainstream da atualidade, frequentemente usada como forma de desculpabilização do erro. Todos já a ouvimos em algum momento da vida e, muito provavelmente, todos já recorremos a ela, sob uma forma ou outra, nas mais variadas circunstâncias.
“A justiça tarda, mas não falha!”, “Vais pagar-mas bem pagas, nem que seja daqui a vinte anos!” ou “A mim só me fazem a primeira, depois nunca mais!” são outras expressões que, volta e meia, surgem nas conversas do quotidiano. Podemos não ser nós a proferi-las, mas dificilmente nos serão estranhas.
A pergunta que podemos fazer é a seguinte: há lugar para este tipo de discurso na vida de um católico? A resposta encontra-se no próprio Evangelho.
Quando Pedro pergunta a Jesus: «Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?», Cristo responde-lhe: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete» (Mateus 18, 21-22). Como bem sabemos, não se trata de andar de calculadora na mão, à espera de contabilizar a 491.ª ofensa, a partir da qual nos consideraríamos desobrigados de perdoar.
Ainda no mesmo capítulo do Evangelho, Jesus aprofunda a sua resposta através da parábola do servo sem compaixão. Compara o Reino do Céu a um rei que decide acertar contas com os seus servos e que, perante a súplica de um deles, se compadece e perdoa uma dívida avultada. Contudo, esse mesmo servo, após ter recebido tamanha compaixão do rei, recusa perdoar um companheiro que lhe devia uma quantia muito menor. Ao saber do sucedido, o rei chama-o e repreende-o: «Perdoei-te toda a tua dívida, porque me suplicaste. Não devias também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive de ti?» (Mateus 18, 32-33).
A mensagem é clara: não podemos esperar receber aquilo que nós próprios nos recusamos a oferecer. À semelhança do servo, também nós recebemos o perdão de Deus, apesar de todas as nossas faltas – que não serão poucas – sendo, por isso, chamados a estender essa mesma misericórdia àqueles que nos ofendem.
À semelhança do servo, também nós recebemos o perdão de Deus, apesar de todas as nossas faltas – que não serão poucas – sendo, por isso, chamados a estender essa mesma misericórdia àqueles que nos ofendem.
Não é por acaso que, na oração que Jesus nos ensinou, suplicamos: «Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido». Ao rezarmos estas palavras, reconhecemos que o perdão que pedimos a Deus é indissociável daquele que oferecemos aos outros. O próprio Jesus reforça esta ideia ao afirmar que «De facto, se perdoardes aos homens os males que eles fizeram, o vosso Pai que está no Céu também vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens, o vosso Pai também não perdoará os males que tiverdes feito» (Mateus 6, 14-15).
Mas, na prática, o que significa tudo isto? Que consequências tem esta vivência do perdão na minha vida quotidiana? São perguntas legítimas de quem procura fazer da própria vida um reflexo vivo da sua fé, dando testemunho do Evangelho.
Em primeiro lugar, importa notar que, na oração do Pai-Nosso, a medida do perdão que pedimos a Deus é estabelecida a partir de uma métrica por nós definida. Ou, melhor dizendo, somos nós quem, em certa medida, determina a medida do perdão que recebemos. E essa medida não tem relação com o grau ou dimensão do nosso erro, mas antes, é o reflexo direto do grau ou dimensão do perdão que damos aos outros.
Trocando por miúdos: cada rancor que alimentamos, cada mágoa a que nos agarramos, cada ofensa que nos recusamos a perdoar será um obstáculo à obtenção da misericórdia que pedimos a Deus.
Aliás, recorrendo a uma formulação negativa da mesma passagem, poderíamos dizer «Julga as nossas ofensas, assim como nós julgamos as ofensas de quem nos tem ofendido». Talvez esta versão nos permita compreender melhor o peso do nosso pedido. Afinal, quem gostaria de ser julgado com a mesma dureza com que, tantas vezes, julga os outros?
Ainda assim, há que passar de reflexões teóricas para a realidade concreta. Como se vive esta dimensão do perdão? Nos vários contextos da vida quotidiana, o perdão deve obedecer a duas dimensões complementares. A primeira é a disponibilidade para perdoar, numa atitude humilde. Demonstrar que estamos disponíveis para o diálogo, mesmo quando nos sentimos magoados. Esta abertura não significa fingir que nada aconteceu, desvalorizar a ofensa ou ignorar o sofrimento, mas tão-somente recordar que, tal como esperamos ser perdoados pelas nossas próprias falhas, também nós temos de estar dispostos a perdoar as falhas dos outros.
Contudo, perdão não equivale a reconciliação. O perdão depende de nós, a reconciliação depende de ambos. O perdão é uma atitude pessoal, a reconciliação exige uma vontade recíproca de remediar o mal causado. É possível perdoar alguém sem que estejam reunidas as condições para uma reconciliação e isso não significa que deixamos de cumprir a nossa obrigação enquanto cristãos.
A segunda dimensão é a aceitação do perdão. Quando a pessoa que errou reconhece o erro e procura sinceramente o nosso perdão há que recebê-la sem julgamentos, sem humilhações, sem a necessidade de a recordar de que tínhamos razão. Aceitamos o pedido e procuramos seguir em frente, permitindo também que o outro possa recomeçar sem ficar para sempre reduzido ao erro que cometeu.
A profundidade do perdão está no seu carácter ontológico de pedra angular da paz. Por outras palavras, de ser a primeira pedra e o alicerce sobre o qual se edifica a paz.
Erramos. Os outros também erram connosco. Por desconhecimento, por descuido ou mesmo pela vontade consciente de nos fazer mal. Seja qual for a razão, a perfeição não é própria da condição humana. E mesmo cientes da nossa imperfeição, quantas vezes, por orgulho, nos recusamos a desculpar? Quantas vezes, por capricho ou por teimosia, negamos o perdão a quem nos ofendeu?
Perdoar é dar o primeiro passo em direção à construção da paz. É escolher não desejar o mal a quem nos feriu. É querer o seu bem, ainda que não o consigamos desejar de imediato. Queremos viver em paz connosco e com os outros. Somos chamados, por diferentes razões e em diferentes circunstâncias, a ser construtores desta paz. Sem maledicência, sem insultos, sem ressentimento e sem nos tornarmos escravos do rancor. A paz constrói-se perdoando e sendo perdoado, num acolhimento mútuo e fraterno, onde nos reconhecemos pecadores, mas, ao mesmo tempo, amados por Deus e chamados a ser melhores.
A paz constrói-se perdoando e sendo perdoado, num acolhimento mútuo e fraterno, onde nos reconhecemos pecadores, mas, ao mesmo tempo, amados por Deus e chamados a ser melhores.
O chamamento à santidade convida-nos a viver as virtudes em grau heróico. Se a virtude da justiça dita que devemos fazer por dar a cada um aquilo que lhe é devido, a fé vai mais longe e impele-nos a conceder o perdão a quem, de coração sincero, o procura. Para isso, é necessário criar condições para que o outro se sinta livre e responsável para reconhecer o mal cometido e pedir perdão.
Perdoar não significa ignorar a ofensa, negar a dor ou eximir da responsabilidade; significa não permitir que a mágoa tenha a última palavra.
Perdoar, para sermos perdoados. E, quando falhamos, ter a humildade de pedir o perdão a quem ofendemos. É um pequeno gesto para cada um de nós, mas um passo gigante na construção da paz. Como disse, certa vez, o Papa Francisco: «Fora do perdão não há esperança, fora do perdão não há paz.».
Aníbal Fernandes
Não temos medo do Halloween
Devemos celebrar o Halloween? E o que fazemos quando a escola dos nossos filhos o celebra? A Igreja tem uma tradição antiga e profundamente sua de celebrar os santos, recordar os mortos e olhar a morte à luz da Ressurreição.
Teias de aranha nas montras, morcegos nas paredes, esqueletos e caveiras. E, à medida que se aproxima o dia 31 de outubro, há uma pergunta que inquieta alguns: devemos celebrar o Halloween? E o que fazemos quando a escola dos nossos filhos o celebra?
Antes de ser uma festa americana que importámos, o Halloween era a véspera de Todos os Santos (era nosso!). O próprio nome vem de All Hallows’ Eve. A história dos costumes é complexa e nem tudo tem origem cristã. Mas a Igreja tem uma tradição antiga e profundamente sua de celebrar os santos, recordar os mortos e olhar a morte à luz da Ressurreição.
Ou seja, o Halloween abre uma sequência de três dias com uma coerência espiritual muito própria. A 31 de outubro, a véspera de Todos os Santos (que foi durante séculos uma vigília litúrgica formal). A 1 de novembro, celebramos Todos os Santos, especialmente os que já habitam o Céu sem o sabermos. E a 2 de novembro, os Fiéis Defuntos, em que lembramos e rezamos por todos os que já morreram. Nestes três dias, contemplamos a morte e a vida.
Em Portugal, no dia 1 de novembro até é feriado. E se pode parecer um dia cinzento e triste (parece estar sempre a chover), aos olhos da fé é um dia bonito. Vamos aos cemitérios, lembramos com carinho os que já morreram e confiamo-los à misericórdia de Deus (e que sítio melhor há de haver do que estar entregue ao amor de Deus?).
Desde sempre, vemos no cristianismo uma relação estreita com a morte. Lembremo-nos da Capela dos Ossos, em Évora. “Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”. Do memento mori, expressão em latim que quer dizer “lembra-te que hás de morrer”. Ou das caveiras presentes em tantas representações de santos. Olhar a morte de frente liberta-nos. Lembra-nos de usar bem o tempo que nos é dado. Não a veneramos, mas olhamo-la com esperança, como uma realidade dolorosa que Cristo venceu.
E o Halloween comercial que hoje conhecemos e que parece prevalecer? A Igreja nunca o condenou como um todo, mas vários bispos um pouco por todo o mundo têm levantado alertas sérios sobre aquilo em que se tornou. Um esqueleto numa festa não é intrinsecamente mau. Abóboras, teias de aranha, doces partilhados entre vizinhos não são, obviamente, contrários à fé. Mas as coisas podem complicar-se quando o que é lúdico ou divertido corre o risco de se tornar uma glorificação do mal, mesmo sem intenção. A Igreja é clara a condenar a superstição e o ocultismo como realidades que afastam o homem de Deus. Claro que uma criança vestir-se de bruxa não a põe num ritual ocultista. Mas é importante estarmos atentos: discernir se nos ajudam a olhar a morte com esperança ou se, pelo contrário, tornam o mal banal, divertido ou até desejável.
Aqui ninguém tem medo do Halloween.
É nosso e celebramo-lo à nossa maneira.
A combater as trevas com a luz.
E mais do que isso, estamos a desperdiçar uma grande oportunidade. Em particular, as escolas católicas têm uma responsabilidade especial. Em vez de enchermos os corredores com imagens de terror muito ligadas a um imaginário distante e comercial, em que ninguém sabe bem o que está a celebrar, talvez pudéssemos falar dos santos de todos os feitios e personalidades, da morte, da vida e da esperança. Oferecer uma profundidade para este tempo que nenhum outro lugar é capaz de oferecer.
Em família, podemos aproveitar estes dias para conversar com os nossos filhos abertamente sobre a morte e o Céu que desejamos. O que acontece quando morremos? O que é o Céu? Ir à missa no dia 1 de novembro (este ano até calha num domingo!). Visitar o cemitério como um ato de amor e esperança. E se houver fantasias, escolher com eles e explicar porque algumas fazem sentido e outras não. Proibir tudo por princípio raramente educa, muitas vezes até afasta. O caminho é discernir, com calma e com critério.
E porque não substituir as fantasias habituais por disfarces de santos? Pode parecer antiquado aos olhos de hoje, mas é, de facto, uma alternativa bonita. E cá em casa vejo o mesmo entusiasmo a escolher o santo e os seus adereços. Até a mesma radicalidade. São Nuno, de espada na mão, e Santa Luzia a segurar uma bandeja, onde repousam os seus próprios olhos.
Por isso, não. Aqui ninguém tem medo do Halloween. É nosso e celebramo-lo à nossa maneira. A combater as trevas com a luz.
Burnout nos padres: não é moda, é um aviso
A vocação dá sentido; não elimina os limites do corpo, da mente e da afetividade; não substitui sono, descanso, amizade, psicoterapia quando necessária e uma organização pastoral racional.
31 mai. 2026
A reportagem da Renascença sobre o burnout dos padres trouxe para a praça pública uma realidade que muitos conhecem por dentro, mas que raramente é dita com clareza: há sacerdotes a viver no limite da exaustão. Não se trata apenas de “ter muito que fazer”, nem de uma crise passageira de ânimo. Trata-se de uma combinação perigosa entre sobrecarga pastoral, solidão, pressão pública, falta de descanso, multiplicação de tarefas e uma cultura eclesial que ainda confunde, demasiadas vezes, disponibilidade com ausência de limites (Roque, 2026a).
A Renascença não publicou um estudo estatístico nacional sobre o burnoutsacerdotal. Publicou uma reportagem, com testemunhos, casos concretos e sinais de alerta. E talvez esse seja precisamente o ponto: em Portugal continua a faltar um estudo amplo, independente e metodologicamente robusto sobre a saúde mental do clero. Temos perceções, relatos, experiências acumuladas e conversas informais. Falta-nos saber, com dados, quantos padres vivem em exaustão, quantos acumulam várias paróquias, quantos não têm descanso semanal, quantos dormem mal, quantos estão medicados, quantos vivem isolados, quantos pensaram abandonar o ministério e quantos continuam simplesmente a funcionar por fora enquanto se vão quebrando por dentro (Roque, 2026b).
A Organização Mundial da Saúde define o burnout como um fenómeno ocupacional resultante de stress crónico no trabalho que não foi devidamente gerido. A definição inclui três dimensões: exaustão, distanciamento mental ou cinismo em relação ao trabalho e perda de eficácia profissional. A OMS sublinha ainda que o burnout se refere ao contexto laboral e não deve ser usado como rótulo genérico para qualquer forma de cansaço (World Health Organization, 2019). Isto muda o centro da discussão: o problema não está apenas na resistência individual de cada padre, mas também no modo como o trabalho pastoral está organizado.
Ora, se aplicarmos esta definição à vida concreta de muitos sacerdotes, a pergunta torna-se incómoda. Quantos vivem sujeitos a stress crónico? Quantos acumulam responsabilidades sem meios proporcionais? Quantos trabalham sem horários claros? Quantos descansam pouco porque sentem culpa? Quantos não pedem ajuda porque receiam ser vistos como fracos, instáveis ou pouco generosos?
O padre contemporâneo deixou de ser apenas o homem da palavra, dos sacramentos e da proximidade espiritual. Tornou-se, em muitos casos, gestor de sistemas complexos. Celebra, prega, confessa, visita doentes, acompanha famílias, organiza festas, gere conflitos, responde a mensagens, preside a reuniões, lida com obras, contas, funcionários, voluntários, centros sociais, património, catequese, funerais, casamentos, batizados, autarquias, redes sociais e expectativas comunitárias. A reportagem da Renascença fala precisamente desta multiplicidade: padres com várias comunidades a cargo, sem folgas efetivas, sem férias reais e acumulando ainda centros sociais, hospitais, prisões, escolas ou outras instituições (Roque, 2026a).
Isto não é apenas uma questão religiosa. É também sociológica. A sociedade contemporânea vive mergulhada numa cultura de desempenho permanente. Tudo tem de ser rápido, mensurável, visível, eficaz. As profissões de cuidado — médicos, enfermeiros, professores, assistentes sociais, cuidadores, psicólogos e agentes pastorais — estão particularmente expostas a riscos psicossociais: intensidade laboral, horários difíceis, pressão emocional, contacto permanente com sofrimento, conflitos interpessoais e dificuldade em desligar. A Eurofound identifica a intensidade do trabalho, a interferência entre vida profissional e vida pessoal, os horários socialmente difíceis, a insegurança, a violência e o assédio como fatores relevantes de risco para o bem-estar dos trabalhadores (Szekér et al., 2023).
O padre vive dentro desta sociedade, não fora dela. Mas a sua situação tem uma agravante: o escrutínio moral. Um profissional comum pode errar e ser apenas incompetente. Um padre, quando falha, é rapidamente julgado como incoerente, pouco espiritual, pouco disponível, pouco humano ou demasiado humano. Espera-se dele disponibilidade quase ilimitada, serenidade constante e competência universal. Tem de ser bom pregador, bom gestor, bom conselheiro, bom comunicador, bom líder, bom administrador, bom animador comunitário e, se possível, sempre simpático. Esta imagem do padre perfeito é pastoralmente perigosa e humanamente falsa.
Há ainda uma pressão silenciosa: a de não desiludir. Não desiludir o povo, não desiludir os superiores, não desiludir a comunidade, não desiludir a família, não desiludir a ideia que os outros fazem do sacerdote. Muitos padres vivem dentro desta tensão: não querem falhar, não querem parecer menos disponíveis, não querem ser vistos como problemáticos, não querem dar parte fraca. E assim vão acumulando. Primeiro cansam-se. Depois irritam-se. Depois isolam-se. Depois perdem alegria. Depois deixam de dormir. Depois começam a funcionar em modo automático.
A reportagem da Renascença é particularmente expressiva quando recolhe testemunhos de ataques de pânico, ansiedade, privação de sono, tristeza, celebrações mecânicas e sensação de peso. Num dos casos citados, um sacerdote relata ter chegado a celebrar várias missas ao fim de semana em “piloto automático”, sem alegria. Noutro, aparece a dificuldade de compatibilizar a identidade sacerdotal com responsabilidades de gestão para as quais muitos padres nunca foram preparados (Roque, 2026a).
O que está aqui em causa não é falta de vocação. Esta é uma das confusões mais injustas. Um padre pode amar profundamente o ministério e estar esgotado. Pode acreditar no que faz e sentir-se emocionalmente drenado. Pode encontrar sentido na missão e, ao mesmo tempo, perceber que já não consegue continuar naquele ritmo. A vocação dá sentido; não elimina os limites do corpo, da mente e da afetividade. A fé ajuda a atravessar a noite; não substitui o sono, o descanso, a amizade, a psicoterapia quando é necessária, nem uma organização pastoral minimamente racional.
Os dados internacionais mostram que o problema não é uma invenção portuguesa. Nos Estados Unidos, o National Study of Catholic Priests, publicado pelo Catholic Project da Catholic University of America, indicou que 39% dos padres inquiridos apresentavam pelo menos um sintoma de burnout e 5% apresentavam burnout elevado. A diferença entre padres diocesanos e religiosos também é relevante: 44% dos diocesanos apresentavam pelo menos um sintoma, contra 31% dos religiosos; no burnout elevado, os valores eram 7% nos diocesanos e 2% nos religiosos (Vaidyanathan et al., 2025). Estes números não podem ser transferidos automaticamente para Portugal, mas mostram uma tendência: a forma concreta de vida e de ministério pesa na saúde mental dos sacerdotes.
O mesmo estudo mostra outro dado importante: 45% dos padres ordenados desde 2000 dizem que lhes são pedidas demasiadas tarefas para lá daquilo que reconhecem como próprio da vocação sacerdotal. A solidão também pesa: 40% dos padres ordenados depois de 2000 atingiam níveis relevantes de solidão na escala usada pelo estudo. Isto confirma uma intuição que muitos padres conhecem por experiência: a questão não é apenas a quantidade de trabalho; é a combinação entre excesso de tarefas, isolamento, falta de apoio e perda de sentido prático da missão.
O contexto português agrava algumas tensões. Os Censos 2021 mostram que Portugal continua maioritariamente católico: 80,2% da população com 15 ou mais anos que respondeu à pergunta identificou-se como católica. Mas essa percentagem desceu face a 2011, enquanto aumentou o número de pessoas sem religião (Universidade Católica Portuguesa, 2022). Isto significa que Portugal continua culturalmente marcado pelo catolicismo, mas já não vive a religião da mesma forma: há menos pertença comunitária continuada, menos prática regular em muitos lugares, menos transmissão religiosa familiar e mais distância face à instituição.
Daqui nasce um paradoxo pastoral: há menos presença regular nas comunidades, mas continuam muitas expectativas rituais. Muitos afastam-se da vida paroquial, mas continuam a querer batismos, casamentos, funerais, festas, bênçãos, procissões e disponibilidade imediata do padre nos momentos decisivos da vida. A comunidade estreita-se, mas a procura simbólica mantém-se. O padre fica no meio: com menos gente comprometida para ajudar, mas com muitas exigências sociais ainda colocadas sobre ele.
Ao mesmo tempo, a Igreja na Europa enfrenta uma diminuição do clero. Segundo dados do Anuário Pontifício divulgados pelo Vatican News, em 2024 havia 407.421 padres no mundo. O número global subiu ligeiramente face a 2023, mas a distribuição é desigual: África e Ásia crescem, enquanto a Europa regista descidas no número de padres diocesanos e religiosos (Vatican News, 2026). Isto tem consequências práticas: menos padres na Europa significam, muitas vezes, mais paróquias por sacerdote, maior dispersão geográfica, mais quilómetros, mais missas concentradas, mais urgências, mais gestão e menos tempo para acompanhar pessoas com qualidade.
Também é preciso falar da formação. Muitos seminários prepararam padres para uma Igreja que já não existe: mais homogénea, mais respeitada socialmente, menos exposta, menos digital, menos impaciente. Hoje, o sacerdote precisa de saber lidar com redes sociais, crítica pública, conflitos comunitários, gestão de equipas, administração, saúde mental, liderança, afetividade, limites e comunicação. Não basta formar homens piedosos e intelectualmente razoáveis. É preciso formar adultos humanos, capazes de pedir ajuda, delegar, descansar, dizer “não” e resistir à tentação de agradar sempre.
A Igreja tem dificuldade em lidar com a fragilidade dos seus ministros. Fala muito de misericórdia, mas nem sempre sabe aplicá-la internamente. Há ambientes onde o padre cansado é visto como pouco generoso; o padre deprimido, como espiritualmente frágil; o padre que pede acompanhamento psicológico, como alguém suspeito; o padre que estabelece limites, como alguém menos disponível. Esta cultura tem de mudar. Não há nada de evangélico em empurrar pessoas para a exaustão em nome da missão.
As comunidades também precisam de ser educadas. Há fiéis admiráveis, discretos, generosos, capazes de cuidar dos seus padres. Mas há também uma cultura de consumo religioso que trata o sacerdote como prestador de serviços espirituais. Quer-se o padre sempre acessível, sempre simpático, sempre eficaz, sempre presente, sempre disponível. Quando responde, é obrigação. Quando não responde, é distância. Quando está, é normal. Quando falta, é escândalo. Nenhuma relação humana saudável funciona assim.
A autoridade eclesial tem aqui uma responsabilidade séria. Não basta pedir aos padres que cuidem de si. É preciso criar condições objetivas para que isso aconteça: descanso semanal real, férias respeitadas, acompanhamento psicológico sem estigma, supervisão pastoral, mentoria nos primeiros anos de ministério, leigos formados com responsabilidades reais, redução da carga administrativa, revisão da presidência automática de instituições sociais por párocos sem formação de gestão, critérios claros para nomeações e avaliação regular da carga pastoral.
A questão decisiva é simples: queremos padres vivos ou apenas padres funcionais? Um padre pode continuar a celebrar, responder, organizar, administrar e sorrir, e estar profundamente esgotado. Pode parecer operacional e estar humanamente em colapso. Pode cumprir tudo e já não habitar interiormente nada.
O burnout dos padres não é uma moda psicológica, nem uma desculpa para trabalhar menos. É um sinal de alarme sobre a forma como estamos a organizar a missão, a autoridade, a comunidade e a vida sacerdotal. A Igreja não pode continuar dependente do heroísmo silencioso de homens que aguentam até partir. Isso não é santidade; é má gestão espiritual da humanidade das pessoas.
Um padre é chamado a dar a vida. Mas dar a vida não significa deixar-se consumir por estruturas imprudentes, expectativas impossíveis e uma cultura pastoral que transformou a disponibilidade numa obrigação ilimitada. O Evangelho pede entrega; não pede desumanização. Pede serviço; não pede colapso. Pede amor; não pede que alguém deixe de ter corpo, sono, limites, afetos e necessidade de ser cuidado.
No fim, a pergunta não é apenas se os padres estão cansados. A pergunta é mais funda: que tipo de Igreja estamos a construir, se aqueles que deveriam cuidar das comunidades começam a precisar, eles próprios, de ser salvos da máquina pastoral que os consome?
Pe. João Miguel da Silva Soares
Referências
Roque, Â. (2026a, 26 de maio). Burnout nos padres. “Cheguei a ter ataques de pânico no altar a celebrar missa”. Renascença.
Roque, Â. (2026b, 26 de maio). É urgente ter um estudo sobre o bem-estar dos padres em Portugal. Renascença.
Szekér, L., et al. (2023). Psychosocial risks to workers’ well-being: Lessons from the COVID-19 pandemic. Eurofound.
Universidade Católica Portuguesa. (2022). Censos 2021. Portugal tem menos católicos e mais pessoas sem religião.
Vaidyanathan, B., Cranney, S., White, S. P., & Perla, S. (2025). Morale, leadership, and pastoral priorities: Highlights from the 2025 National Study of Catholic Priests. The Catholic Project, The Catholic University of America.
Vatican News. (2026, 28 de março). New data of Annuario Pontificio 2026 shows Catholics growing in Africa.
World Health Organization. (2019, 28 de maio). Burn-out an “occupational phenomenon”: International Classification of Diseases.
A Humanidade do Padre
19 Julho, 2023
Não pude deixar de refletir, por estes dias, na condição sacerdotal atual. Primeiro tolhido e abatido pelo número de padres que têm falecido. Não há semana em que a Ecclesia não noticie a morte de um sacerdote e há semanas em que temos um óbito de um padre todos os dias. Há uma geração de sacerdotes, que deixou uma marca indelével na Igreja e na sociedade, que está a partir. Não podia ser mais premente o apelo do Evangelho aqui há uns tempos atrás, não para se acordar Deus ou se dar um puxão de orelhas ao Espírito Santo, mas para despertar todos e cada um para a sua vocação e para a necessidade de dar mais: pedi ao dono da seara que mande trabalhadores para a sua seara. Em segundo, refletindo em dois apelos importantes: um vindo de D. Vitorino Soares, para que as comunidades cuidem dos seus pastores e os pastores também cuidem uns dos outros, e se rezasse pelos pastores que andam mais abatidos, desiludidos e cansados; outro vindo de D. António Luciano, pedindo aos padres que tenham uma vida interior séria e com profundidade espiritual.
Todos estes apelos são bem-vindos e têm razão de ser, há que rezar pela santificação dos sacerdotes, mas, hoje, mais do que nunca, é preciso primeiro cuidar da humanidade do padre. O baixo número de vocações está a levar a que os padres assumam muitas paróquias e se multipliquem por um sem número de atividades e ações. Ainda vigora o “padrocentrismo” em muitas paróquias. Tudo se faz com o padre e nada se faz sem o padre. Exige-se a sua presença em todo o lado. Por outro lado, o estatuto do padre mudou. Já não tem a autoridade de outros tempos. Ainda é ouvido, mas depois cada um faz o quer e deixa o padre a falar sozinho. Parece que anda a pregar para surdos, salvo seja. No meio deste relativismo, o padre sente-se um pouco perdido e com um trabalho muito mais dificultado, o que não deixa de ser um grande desafio. Mas, por outro lado, muitas pessoas ainda procuram o padre, porque vivem num turbilhão de dúvidas, incertezas, angústias, dificuldades, vazio existencial e desnorte moral e espiritual, que a sociedade atual oferece, e a voz do padre ainda é valorizada.
Temos uma formação vincadamente humana, intelectual, moral e espiritual, centrada na liturgia e na pregação, mas quando chegamos às paróquias percebemos que temos de ter alguma plasticina, moldada pelo engenho e pela carolice de cada um: ser secretário, burocrata, empreiteiro, cozinheiro, dono de casa, sacristão, maestro, assistente disto ou daquilo. Como se isto não chegasse, ultimamente ainda lhe arranjaram o cargo chique de ser presidente de centros paroquiais. Muitos párocos aceitam, porque assim também mandam as regras, dá poder e visibilidade social, mas acho que os padres não são ordenados para serem presidentes de centros paroquiais, para o qual não tiveram nenhuma formação ou muito pouca. É um cargo com alguma exigência. No meio desta azáfama toda, pergunta-se: o padre ainda terá tempo para ser padre? É ordenado para ser padre e depois é quase tudo menos padre. Certamente que deve dar o seu contributo no campo social e no serviço às instituições, mas não deve ser o padre a liderar. Há leigos com formação neste campo, que perfeitamente podem ocupar o cargo. O trabalho de «funcionário» das paróquias e da Igreja, infelizmente, traz muito prejuízo para a vida espiritual e para a disponibilidade que o padre deve ter para os outros como padre. Duvido que agendas sobrecarregadas, com muitas atividades, reuniões e ações, façam dos padres bons padres. Há um excesso de preocupação pelo fazer e não pelo ser e estar, que é o fundamental da vida de um padre. Até o povo já se habituou a comentar que «o senhor padre tem muito que fazer e, coitado, anda tão cansado». Quem me liga para o telemóvel, já me vai dizendo muitas vezes “desculpe incomodá-lo, que o Senhor deve ter muito que fazer”. Se assim é, alguma coisa não está bem na vida do padre atual.
Ser padre exige alguma prudência, equilíbrio e humildade, para não se cair no vedetismo, que é sempre uma tentação. O padre indica, deve apelar sempre e ser ponte para algo muito maior do que ele: Jesus Cristo. Na Igreja, o centro das atenções é Jesus Cristo e não o padre. Mete-me alguma confusão e impressão ver padres armados em vedetas e nas paróquias grupos de pessoas alinhados com certos padres e com outros não, ou multidões dominicais com uns padres e desertos com outros. São sinais evidentes de grande superficialidade e imaturidade cristã. O padre que é vedeta, com agenda e objetivos pessoais, é um mau padre, e uma comunidade que se centra muito no estilo do padre, é uma má comunidade. Uns têm mais talentos do que outros e alguns serão mais apelativos do que outros, mas uma boa comunidade cristã e um bom cristão centra-se em Cristo e não no padre que tem.
Mas o que mais refleti, já embalado pela vintena de anos do meu sacerdócio, foi o encontro com a minha pobreza e a minha fragilidade no exercício do sacerdócio. Julgamos que vamos ser sempre jovens e que vamos ter sempre novidade, criatividade e frescura espiritual e pastoral para dar e vender, mas não é bem assim. O encanto por ser padre e servir Cristo e a Igreja não se perdeu, mas vive-se na fragilidade da nossa humanidade. Construímos a imagem de que o padre é quase o senhor todo perfeito, um anjo de Deus na terra, sem defeitos, sem dificuldades, sem problemas, sem angústias e sem dúvidas. Não tem dramas, nem complexos, muito menos vícios e manias. Tem bons conselhos para tudo e todos, possivelmente viverá sempre uma vida espiritual elevada, nunca perde o equilíbrio e nunca precisa de ajuda, está capacitado para ter uma performance quase perfeita. O padre é encarado como um ser extraordinário que vive quase incólume ao que os outros experimentam. Um padre sem humanidade. Lamento, mas este padre não existe. Aquela imagem faz até com o padre se sinta pressionado e passe algum tempo a esconder os seus medos, as suas fragilidades e as suas angústias, porque o padre tem de ser sempre imperturbável, forte e certinho, não pode ser fraco ou manifestar fraqueza. Nada mais ilusório e desumano. O padre também falha, erra, engana-se, chora, sofre, ri, cora, irrita-se, treme e distrai-se, adoece.
Há que assumir a nossa humanidade. As comunidades cristãs têm se habituar a gostar do padre que têm, um ser humano com as suas virtudes e os seus defeitos, a não se limitarem só a exigir, sem olhar à fragilidade e limitação do sacerdote que as serve. E o padre não ter medo de mostrar o que é e o que vive, confessando-se de vez em quando à comunidade, para também ser ajudado e não viver no drama de alimentar falsas imagens e recusar a sua humanidade, na unicidade e especificidade de cada um.
E, por favor, façam-me um obséquio: não me falem mal dos padres velhos por serem velhos. Quem não vai para velho? As comunidades cristãs, e a Igreja em geral, não podem querer só a parte melhor das pessoas, o seu tempo de maior vigor e criatividade, e depois quererem facilmente arrumá-las, como se já não tivessem qualquer valor. Os critérios da Igreja não são a produtividade e a eficácia, mas o amor e o serviço. As pessoas devem ser sempre amadas e respeitadas, acolhidas na sua mais pura humanidade, independente do que fazem e produzem. A igreja, primeiro que tudo, tem de ser uma casa de humanidade.
Padre Vítor Pereira, Diocese de Vila Real
Igreja fraturada
“O pior será se se põe a convocar um Concílio. Como as coisas estão, lá se vai o que resta do Concílio Vaticano II…”. Perante o ânimo renovador expresso pelo Papa Francisco logo após a sua eleição, não foram poucos os católicos conciliares que, olhando o estado de coisas em que os dois anteriores pontificados tinham deixado a Igreja, temeram os eventuais resultados de uma nova assembleia magna da Igreja Católica. Não houve concílio, houve um sínodo. Um sínodo muito especial. Mas, quebrado o impulso deste, as fraturas dentro da Igreja Católica estão expostas à vista desarmada. Que futuro antecipam?
Na verdade, por mais que a pergunta inquiete muita gente dentro e fora do catolicismo, as tentativas de resposta não abundam. Esta instituição não se move do mesmo modo que outras. As diferentes correntes que a habitam não se apresentam organizadas atrás de um chefe-de-fila. Algumas têm agendas próprias, recursos financeiros avultados, muitos média a trabalhar para o “bem da causa” e organização bem estruturada. Mas nem assim podem desvelar os seus desígnios últimos, sob pena de perderem apoios e seguidores. O jogo de sombras impõe-se também às fações mais aguerridas.
Os estudos sociológicos, a análise ideológica e outras componentes do que poderia favorecer a caracterização e o conhecimento científico deste universo são escassos. Em Portugal, conhecem-se os trabalhos das equipas coordenadas por Alfredo Teixeira e pouco mais. Resta a história, a investigação sobre o trajeto multiforme da Igreja no passado e o intrínseco debate a propósito desse saber suscetível de controvérsia.
E depois… há o Espírito Santo, esse “intrometido”, sempre capaz de trocar as voltas a qualquer analista e de baralhar previsões e cenários futuros. Tudo se conjugando para que a academia evite investigar e identificar eixos, comportamentos, vetores e processos relevantes na escrita e no desenho do futuro desta instituição. Sem conhecimento que permita uma caracterização mínima do presente, como antecipar um provável amanhã?
Em Portugal, a ignorância sobre quem são, como se caracterizam, se conhecem, ou não, a Bíblia, até que ponto seguem o prescrito pelo magistério, como se distribuem espacialmente e como se organizam os católicos não tem limites. É uma ignorância embaraçosa.
Planos, projetos e prioridades pastorais são desenhados na decorrência direta da identidade da Igreja, sem serem mediados pela realidade social e eclesial. Alguma vez tendo em conta aquela, quase nunca pensando a partir desta. O conhecimento empírico, as carências da própria estrutura, a imitação do que outros fazem e a imutável definição da missão da Igreja chegam bem para determinar o “que fazer” futuro – que importa a realidade? Uma lástima!…
Normalização: retorno ao passado
Porém, as fraturas estão por todo o lado. Não tanto, nem principalmente, as que surgem nos média laicos. É verdade, alastra a divisão sobre se as mulheres devem, ou não, ser ordenadas, se os divorciados recasados ou os homossexuais devem ser tratados tal como todos os outros católicos, se o aborto deve ser criminalizado, se os casais de pessoas do mesmo sexo devem, ou não, ser abençoados.
Mas não é certo que os que se encontram na defesa de uma mesma posição sobre um daqueles temas se voltem a encontrar no tema seguinte. Este tipo de fraturas não produz necessariamente dois blocos de contornos bem delimitados. São temas que dividem, mas não em linha reta, identificando dois campos distintos. Constroem antes linhas de separação ziguezagueantes. E, como vem sendo costume na Igreja sobre temas semelhantes, os que mais fortemente fazem ouvir a sua voz a favor ou contra não se comparam em número aos que guardam em silêncio as suas opções.
Diversidade, pluralismo, diferentes vocações. A Igreja Católica tem muitas palavras e conceitos para conviver com um vasto leque de comportamentos díspares no seu interior. Mesmo numa Igreja como a portuguesa em que imperou (com raras exceções) um unanimismo feroz alinhado com a ditadura, aqueles conceitos são referidos como sendo constitutivos e “verdadeira riqueza” da comunidade católica. E servem às maravilhas para evitar confrontos, conflitos e cristalização de oposições.
Mais difíceis de captar pelos média tradicionais são os grupos eclesiais que divergem no que querem e esperam da Igreja. Expectativas e quereres que se desenham agora, neste período de refluxo do processo da sinodalidade, com maior clareza. Não há nenhum cisma à vista, mas há modos divergentes de ser Igreja e de nela viver. Cada vez mais divergentes, mais enclausurados nos seus ritos, espiritualidades e especificidades.
Em Portugal, a esmagadora maioria do clero tratou de ignorar, ou de controlar com a ajuda dos “fiéis do costume”, as potencialidades transformadoras do processo sinodal. Agora que a repetição constante da palavra sinodalidade a esvaziou de toda a novidade, tudo converge para o regresso à normalidade, i. e., às coisas tal como estavam antes, ao “sempre foi assim” seguro que o Papa Francisco já criticava na Evangelii Gaudium.
Há, porém, um resto que tomou o gosto por uma nova forma de viver em Igreja caracterizada pela comunhão, participação, partilha de responsabilidades dentro e fora do espaço eclesial. Um resto minoritário ao qual uma Igreja dispensadora de sacramentos dirigida em todos os aspetos da sua vida pelo padre e o seu grupo de fiéis do costume não satisfaz. Não satisfaz nem responde ao que estes católicos julgam ser a Igreja desejada por Jesus Cristo, quer enquanto comunidade quer enquanto missão no mundo.
Até onde chegará a polarização destas tendências divergentes? Que relação se estabelecerá entre os que preferem uma Igreja mais hierárquica e sacramental e os que procuram comunidades mais horizontais comprometidas com o acolhimento de quem, por diversas razões, sente viver na periferia? A distância e o distanciamento não sugerem aqui conflito. Ficam-se por isso mesmo: caminhos divergentes, sem reivindicação de legitimidade única.
A política às avessas
Tal como os católicos conciliares temiam a convocação de um concilio no início do pontificado do Papa Francisco, também nos países ocidentais os democratas temem cada vez mais a realização de eleições. Inesperada contradição nascida do constante crescimento das forças políticas antidemocráticas em sucessivos atos eleitorais. No próximo mês, as eleições intercalares nos EUA e as antecipadas em Espanha logo nos dirão como se movem os eleitorados destes países e que antecipação permitem fazer do que se passará em França nas próximas presidenciais de abril de 2027.
À incógnita dos resultados sobrepõe-se uma certeza: nos últimos anos, o voto católico deslocou-se para a extrema-direita mais depressa do que o voto dos restantes cidadãos. Em Portugal não o sabemos. Mas sondagens, inquéritos e vários estudos eleitorais sugerem que em Espanha e em França a percentagem de católicos que votam em partidos de extrema-direita supera o resultado global por eles obtido.
O espectro político dos EUA é diferente, mas também aí o voto católico tem vindo a preferir Trump e os seus amigos. O que significa apoiar a expulsão violenta de imigrantes, o confronto e perseguição permanente aos que “não pensam como nós”, a abolição dos apoios aos mais pobres quer dentro quer fora do país, o aumento da despesa em armamento, a agressão à salvaguarda da casa comum e subscrever a defesa do enriquecimento dos mais ricos. Tudo opções anticristãs.
Apesar das críticas e confrontos que vários bispos (e a Conferência dos Bispos Católicos dos EUA) têm desenvolvido contra a atual administração, nomeadamente no que diz respeito à expulsão de imigrantes, os católicos brancos continuam a manifestar um grau de aprovação da gestão do Presidente Trump superior ao do conjunto dos eleitores americanos.
Um inquérito nacional conduzido pelo Pew Research Institute divulgado no dia 13 de outubro mostra que 39 por cento dos católicos brancos continuavam a aprovar a ação do seu Presidente, enquanto apenas 30 por cento dos americanos maiores de 18 anos partilhava dessa opinião favorável. Mas, por outro lado e refletindo a complexidade própria do eleitorado norte-americano, a aprovação de Trump baixava para uns exíguos 18 por cento entre os católicos hispânicos.
Em Espanha, uma sondagem do Centro de Investigaciones Sociológicas publicada no final de setembro indicava que os católicos praticantes escolheriam o PP (40,2%), o PSOE (16,9%) e só depois o Vox (14,7%). Estes valores não são comparáveis com os resultados que outras sondagens publicadas atribuem àqueles três partidos, pois contabilizam apenas as respostas diretas, sem rebater indecisos e não votantes. Aplicando tal método, a percentagem de católicos praticantes eleitores do Vox supera os 18,9 por cento que várias sondagens apontam como o resultado provável deste partido de extrema-direita nas eleições legislativas de 29 de novembro.
Em França, já em 2022, na primeira volta das eleições presidenciais, 40 por cento dos eleitores que se disseram católicos votaram em candidatos da extrema-direita, o que compara com os 32 por cento que estes candidatos obtiveram. Ou seja, a preferência por candidatos chauvinistas, anti-imigração e securitários é maior entre os católicos do que no conjunto dos cidadãos eleitores.
O voto tem múltiplas motivações, nunca suscetíveis de serem reduzidas a uma única. Contudo, estes dados evidenciam com clareza uma outra clivagem entre católicos: o magistério, os Papas e a hierarquia pugnam a favor dos migrantes; uma boa parte dos fiéis escolhem dirigentes políticos que os querem expulsar. O mesmo se passa em outras matérias sociais. Até quando se acomodarão sensibilidades tão antagónicas?
Antever o futuro próximo desta instituição que organiza e arrasta multidões, mesmo em países laicos, como se viu recentemente durante a visita do Papa a França, não parece fácil. Mas, mesmo assim, valeria a pena que os seus responsáveis cuidassem de conhecer melhor a realidade da comunidade a que presidem.
Jorge Wemans | 15/10/2026
Combater a acédia na vocação da família
Talvez o remédio para a acédia na vida familiar resida numa reformulação pequena da forma como vivemos e suspiramos a frase: “Outra vez arroz”.
Há uns tempos, no contexto de uma semana de Exercícios Espirituais, foi-me apresentado um mal com características que me eram familiares, simultaneamente imobilizadoras e inquietantes, mas cujo nome não conhecia: acédia.
Internamente, a acédia produz a sensação de apatia e inatividade relativamente às coisas de Deus. Leva-nos a encarar a monotonia com tédio, e desencadeia uma reação de abandono e descuido face às boas obras do quotidiano, que ganham aparência de inutilidade e de “poucochinho”.
Paralelamente, este mal gera uma inquietação que dá voz urgente à vontade de mudar de cenário, de fugir da realidade da rotina, e que resulta muitas vezes num ativismo desprovido de sentido. Esta busca por distrações acumula funções: permite evitar o confronto com o vazio interior, ao mesmo tempo que camufla a falta de perseverança face às dificuldades e ausência de consolação que podem vir da rotina (ainda que as próprias atividades que constituem essa rotina possam ser o bem que somos chamados a fazer).
Outros dois termos comuns utilizados para designar a acédia são o “pecado dos monges” ou “o demónio do meio-dia”. Esta experiência interna é já descrita e vista como um mal próprio da vida contemplativa desde a tradição dos padres do deserto. O meio-dia representava o horário mais crítico para estes ermitas, que, após o período da manhã, cansados da rotina, expostos ao calor intenso, e com ainda muitas horas do dia pela frente, eram assaltados pela vontade de abandonar a oração, a cela, e até a sua vocação.
Este mal gera uma inquietação que dá voz urgente à vontade de mudar de cenário,
de fugir da realidade da rotina, e que resulta muitas vezes num ativismo desprovido de sentido.
Para fazer frente a esta tentação na vida monástica, a regra beneditina propõe uma resposta de persistência e constância. Se a acédia impele o monge a ficar na cela ocioso, sem qualquer atividade, este deve ocupar-se com trabalho manual concreto. Se esta, por outro lado, o leva a sair constantemente e a ir encontrando pretextos para se ausentar da vida quotidiana, este deve permanecer e reforçar a oração na sua cela. De forma resumida, estes princípios beneditinos ficaram cristalizados na frase “Ora et labora”.
Ler sobre este tema levou-me a ponderar que formato poderia a acédia tender a assumir na vida de uma pessoa com uma vocação diferente. O que poderá ser o “pecado dos monges” manifestado na vida de um leigo com vocação para a família?
Considerei que, da mesma forma que a vida orante é o que traz ao mesmo tempo sentido e monotonia, e subsequente tentação à vocação contemplativa, talvez a vivência daquilo que mais gera significado, mas provoca também grande parte da repetição no dia a dia familiar, seja onde este mal vai procurar abrir caminho.
Os rituais familiares são os momentos de relação, pequenos e grandes, que fazem parte da vida de cada família. Abrangem um leque vasto de circunstâncias, incluindo celebrações (eg: casamentos, batizados, etc), tradições familiares (eg: Natal, todos os anos passar férias naquela semana de agosto naquele sítio, etc), e interações do dia a dia (eg: jantar todos juntos, a hora de dar banho, a conversa no caminho a voltar da escola, etc).
Todos estes tipos de episódios, pela carga afetiva e simbólica que carregam para os membros da família, promovem o desenvolvimento de práticas e crenças comuns, de identidade e de coesão familiar. São também fatores altamente protetores para a qualidade de vida e resiliência familiar. Assim, no sentido de criar, educar e pertencer a uma família de forma plena, isto é, de viver com profundidade a vocação para a família, cuidar destes momentos torna-se incontornável.
Por definição, a quantidade de rituais familiares que consistem em interações do dia a dia é substancialmente superior a qualquer outro tipo de ritual familiar. Todos os dias e várias vezes por dia surgem oportunidades para participar nesses momentos. A coleção de todos eles forma a rotina quotidiana da família.
Esta dimensão apresenta, também por definição, muito potencial para ser fonte de monotonia. O mesmo jantar, no mesmo lugar da mesma mesa, com o mesmo cheiro a sopa, as mesmas birras do mesmo filho, as mesmas zangas e pazes, as mesmas perguntas de como correu o dia, etc. De forma resumida, estas inevitáveis repetições caseiras ficaram cristalizadas na frase “Outra vez arroz” (habitualmente dita entre dentes).
O mesmo tipo de vontade de fugir, por via do entorpecimento ou da excessiva atividade paralela, que assombrou primeiro padres do deserto e depois monges, encontra a sua via de entrada nestes momentos chave da vida familiar. Facilmente surge a vontade de trocar o terceiro jantar à mesa da semana por um jantar com uma amiga que está a passar um mau bocado. No quarto jantar à mesa dessa semana ficou marcada reunião de CVX. Calhou depois que, no quinto jantar, um tio ligou a pedir ajuda com os cabos da internet, e, quando uma pessoa repara, já passou uma semana a faltar àquele pequeno ritual.
Fazer frente ao “demónio do meio dia” não é tarefa fácil por vários motivos. Em primeiro lugar, pede o discernimento importante que permitirá perceber se se trata de um mal espiritual, ou se tem também uma causa orgânica, e que precisa de ser tratada, como a depressão ou a ansiedade. Por outro lado, por poder assumir tantas faces diferentes de bem: a participação em muitos voluntariados, a entrega total ao trabalho, a companhia a outros, facilmente passa despercebida como o verdadeiro motivo do vazio e de aridez que vai ganhando terreno no centro de uma pessoa.
Face a isto, proponho a mesma solução beneditina, mas aplicada à família. Se a tentação perante a ausência de motivação para cumprir o ritual é a de cair no desleixo e na incapacidade de ver nele valor, pode ser bom ser o primeiro a oferecer-me para fazer o jantar cuidadosamente, e pôr uma mesa bonita.
Se, por outro lado, a acédia me leva a estar sistematicamente fora, a não participar nas rotinas da família, ou a procurar constantemente formas diferentes e fora da caixa de sair da rotina e levar todos comigo, então a solução pode passar por ficar mais por casa, garantir que pelo menos alguns destes rituais são intocáveis no meu plano do dia, e que há coisas na família que merecem a repetição, independentemente da minha motivação. Talvez o remédio para a acédia na vida familiar resida numa reformulação pequena da forma como vivemos e suspiramos a frase: “Outra vez arroz”.
NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO
Nas tuas mãos desfias o Rosário
e em cada conta
colocas o operário,
o patrão,
o empregado,
o carpinteiro,
a dona de casa,
todos enfim,
até o desempregado.
Nos teus braços o Menino,
olha para todos e sorri,
para o mais velho,
para o mais pequenino.
Aquele a quem todos se deu
encosta-se ainda mais a Ti,
no regaço da Sua Mãe,
Mãe que Ele próprio escolheu
As contas do teu Rosário,
que desfias sem cessar,
são gotas do teu amor,
são pérolas da tua ternura,
que consegues derramar,
em cada um de nós,
que se aproxima de Ti,
para conhecer melhor,
o teu Filho muito amado,
Jesus Cristo,
Nosso Senhor.
Marinha Grande, 7 de Outubro de 2010
Joaquim Mexia Alves
Regras para reaprender a conversar
Temos dificuldade em habitar um espaço sem opinião. Talvez esta seja uma das grandes contradições do nosso tempo: diálogo, liberdade, escuta e silêncio, mas dificilmente nos predispomos a isso.
Vivemos tempos de incompletude e orfandade. Dependemos, cada vez mais, da absolutização da parcialidade. Sentimo-nos empurrados. Não podemos optar pela tensão tribal, mas decerto também desconfiamos de um concordismo cego. No fundo, é-nos difícil coexistir à luz daquela formulação teológica segundo a qual Jesus vive «sem confusão nem separação». Nós, pelo contrário, não estamos apenas separados. Estamos também encolhidos. Não estamos apenas misturados. Sabemo-nos também anulados. No fim de cada dia, o rescaldo do nosso trabalho assemelha-se a um cemitério de arenas de suspeita, desconfiança e rancor. Facilmente nos esquecemos de que a acusação é o refúgio mais cómodo para a nossa impotência. Por fim, confundimos tentativas de reparação com cedência ou neutralidade. «Estás comigo ou contra mim? Estás certo ou errado? Devo apoiar-te ou atacar-te?»
Curioso é, porém, que também a oração tenha sido, desde sempre, entendida como «um trato de amizade»: uma conversa em que um amigo fala a outro amigo. De tal modo que a qualidade das nossas conversas revela a qualidade da nossa oração, e a qualidade da nossa oração revela a qualidade das nossas conversas. Por isso, não será de estranhar que também a oração tenha sido afetada por este modo desamparado de existir. Temos dificuldade em habitar um espaço sem opinião. Temos dificuldade em suportar a tensão. Temos dificuldade em recusar um concordismo fácil como fuga da disparidade. Talvez esta seja uma das grandes contradições do nosso tempo: exigimos diálogo, liberdade, escuta e silêncio, mas dificilmente nos predispomos a isso. Ou melhor, predispomo-nos, mas sem que isso nos faça arredar pé ou nos ponha em causa.
Desenganemo-nos, portanto, se acharmos que este tempo de paragem é um tempo em que cada um escuta apenas o próprio eco ou uma forma de rendição pessoal. A este respeito, a Bíblia é particularmente poderosa ao convocar, a certa altura, a imagem de uma luta noturna entre Jacob e uma figura divina. Jacob roubara o seu irmão. Tinha sido abençoado pelo pai, mas como fruto de um logro. Fugira. Agora, porém, regressa com a intenção de pôr termo à luta fratricida com Esaú. Mas, antes que esse encontro aconteça, no meio da noite e até ao romper da aurora, um anjo ou o próprio Deus trava combate com ele.
Depois de ter enganado o irmão e de ter vivido escondido, é no rescaldo dessa luta que Jacob diz o seu nome pela primeira vez. Numa história de enganos, admite, por fim, a sua verdadeira identidade. Ele, que até então costumava escapar ileso, recebe uma ferida como preço da bênção de Deus. Da luta com Deus, Jacob saiu a coxear. Da oração, saímos com o corpo cheio de marcas. E talvez habilitados a dizer, como Jacob dirá pouco depois a Esaú: «Vi o teu rosto como se vê o rosto de Deus» (Gn 33,10). O dom não prescinde do dano nem do trauma.
Temos dificuldade em habitar um espaço sem opinião. Temos dificuldade em suportar a tensão. Temos dificuldade em recusar um concordismo fácil como fuga da disparidade. Talvez esta seja uma das grandes contradições do nosso tempo: exigimos diálogo, liberdade, escuta e silêncio, mas dificilmente nos predispomos a isso. Ou melhor, predispomo-nos, mas sem que isso nos faça arredar pé ou nos ponha em causa.
Sobre este episódio, escreveu Santo Agostinho: «Jacob luta, vence e quer ser abençoado por aquele que é vencido.» Quereremos nós o mesmo? Se nada na nossa vida se deixa dizer a partir de um único ponto de vista — e o mistério de Cristo também não —, sendo a fluidez e a complementaridade entre os Evangelhos disso exemplo, por que razão nos custa tanto ceder espaço ao Deus que não ocupa todo o espaço e aceitar, assim, ser corrigidos e completados, tal como os quatro Evangelhos se corrigem e se completam entre si? Se a Páscoa é sinónimo de travessia, quando aceitaremos que só atravessaremos algo se consentirmos em ser atravessados? Se o mundo, com os seus muitos mundos, não é, para Jesus, apenas um instrumento, quando o assumiremos como espaço de ressonância e de presença? Não teremos nós esvaziado de densidade tudo o que celebramos, apressados em satisfazer as nossas necessidades de aceitação ou em fazer de Deus um suborno? Que presença pode ter o Cristianismo na tensão entre não ter medo de perder o lugar e fazer-se carne sem anular, sobrevoar ou nivelar ritmos e lugares? Se «adorar a Deus em verdade significa reconhecê-lo pelo que Ele é e reconhecermo-nos a nós mesmos pelo que somos», reconheço-me hoje reconhecido? Se Deus só pode criar escondendo-se, a que precisarei de dar espaço?
Inácio de Loyola recomendava «que todo o bom cristão deve estar mais pronto a salvar a proposição do próximo do que a condená-la». Não procuremos, pois, neste momento de pausa, uma resposta. Tantas vezes regressamos anualmente a estes encontros em busca de um pronto-a-vestir, para nos sentirmos úteis e funcionais. Em vez disso, invistamos em cultivar uma disposição. Recorrendo à linguagem da física: se o tempo desacelera com a gravidade, concedamos aos lugares que compomos entre nós essa capacidade de atração e de curvatura do espaço-tempo, que origina locomoção. Reparem: um astronauta em órbita só parece flutuar porque está continuamente a cair.
Por fim, acolhamos estas palavras de Etty Hillesum como se fossem dirigidas a nós mesmos: «Ainda estamos muito longe do fim. Eu também olharei por mim. Tenho tantas forças. Podes ficar com elas. Novas crescerão em mim.»
viagem no deserto
abre-nos, Deus, a porta
através das águas
para a grande viagem no deserto:
o combate com a morte no campo da vida,
a travessia dos limites, a nebulosa dos olhos
não se ensurdeça o nosso coração
porque a luta noturna com o teu Nome
nos deixou no corpo marcas
dá-nos a graça de atravessar o riacho da vida
mesmo coxeando;
que caminhemos com a ligeireza
e a elegância do animal
que busca o esplendor do verdadeiro
nas coisas provisórias
e que desse combate com as imagens
nos aproximemos do horizonte da tua casa
donde vejamos as sementes do amor cobrindo a eira,
Deus que ligas o céu e a terra no teu Filho Jesus
e no Espírito
(José Augusto Mourão)
Regras para reaprender a conversar, segundo Santo Inácio de Loiola
1. Entrar na conversa preparado interiormente
“Quanto mais formos prevenidos e de alguma forma preparados, tanto mais iremos tranquilos no Senhor nosso.”
Preparar-se significa perguntar: Com que disposição vou para esta conversa? Quero realmente compreender e procurar o bem, ou quero vencer, convencer, defender-me, mostrar que tenho razão?
2. Falar pouco e com caridade
“Seria escasso no falar, com amor e consideração.”
Não é preciso dizer imediatamente tudo o que pensamos. Inácio recomenda uma certa sobriedade da palavra: falar menos, pensar mais e deixar espaço ao outro. Mas acrescenta duas qualidades decisivas: amor e consideração. Não basta que aquilo que digo seja verdadeiro; importa também como, quando e com que intenção o digo.
3. Escutar para compreender, não para responder
“Seria escasso no falar, ajudando-me no ouvir, calmo para sentir e conhecer os juízos, afectos e vontades dos que falam, para melhor responder ou calar.”
Inácio não diz apenas: ouve o que o outro diz. Propõe procurar conhecer os seus juízos, afectos e vontades. Ou seja: O que pensa? O que sente? O que deseja? De onde vem aquilo que está a dizer? Só depois vem a decisão: “responder ou calar”. Escutar não é esperar pela nossa vez de falar. É procurar compreender o mundo interior do outro.
4. Procurar as razões dos dois lados
“Dar razões de ambas as partes, para não se mostrar movido por juízo próprio.”
Quando estamos convencidos de alguma coisa, tendemos a procurar apenas argumentos que confirmem aquilo que já pensamos. Inácio propõe o exercício contrário: sermos capazes de formular seriamente as razões da outra parte. Isto não significa pensar que todas as posições são igualmente verdadeiras. Significa recusar a caricatura do adversário. Só discordamos verdadeiramente de alguém depois de termos compreendido aquilo de que discordamos.
5. Não transformar a discussão numa luta de autoridades
“Não citaria como autor a nenhuma pessoa, principalmente se for grande […] dando-me com todos e não me inclinando por ninguém.”
Inácio aconselha a não substituir as razões pela autoridade. Uma referência intelectual pode ser relevante, mas o perigo está em utilizá-la como instrumento para encerrar a conversa ou intimidar o interlocutor.
6. Discordar com tranquilidade e humildade
“Se as coisas de que se fala forem tão justas que não se possa ou deva calar, dando ali o seu parecer com a maior tranquilidade e humildade possível.”
Inácio não propõe uma falsa concórdia. Há ocasiões em que não se deve calar. A caridade não significa ausência de convicções. Mas justamente quando é necessário dizer com clareza: “Não concordo”, aparecem duas exigências: tranquilidade e humildade.
7. Deixar aberta a possibilidade de estar enganado
“Concluindo desta forma: «Salvo outro melhor parecer».”
Inácio pode ter uma convicção forte e, ao mesmo tempo, conservar uma porta aberta: talvez haja uma razão que ainda não vi; talvez o outro saiba alguma coisa que eu não sei; talvez eu precise de corrigir o meu juízo. “Salvo outro melhor parecer” não significa relativismo nem insegurança. Significa liberdade diante da própria opinião.
8. Adaptar-se ao outro, em vez de exigir que o outro se adapte a mim
“Ajuda muito não olhar para o meu tempo ou falta dele, com pressa, isto é, não olhar à minha comodidade, mas eu mesmo adaptar-me à comodidade e condição da pessoa com a qual quero tratar.”
Uma verdadeira conversa exige disponibilidade. Às vezes queremos que o outro fale depressa, compreenda depressa, responda depressa e chegue depressa à conclusão a que nós já chegámos. Inácio propõe o contrário: considerar “a condição da pessoa”.
Há pessoas que precisam de tempo. Outras precisam primeiro de ser ouvidas. Algumas precisam de perguntas; outras, de silêncio. Conversar bem é abandonar por algum tempo a nossa própria comodidade para encontrar o outro onde ele está.
9. Sair da conversa sem deixar o outro ferido
“Procurando não deixar ninguém descontente.”
Isto não significa que ninguém possa ficar contrariado com aquilo que dizemos. Há verdades que desagradam e desacordos que permanecem. O ponto é outro: não acrescentar à divergência uma ferida desnecessária. Podemos terminar uma conversa continuando a discordar e, ainda assim, conservar o respeito, a benevolência e a possibilidade de voltar a conversar amanhã.
PS- Este texto resulta de uma intervenção do P. João Basto nas Jornadas Nacionais das Comunicações Sociais da Igreja
“Marta, Marta, andas preocupada e agitada com muitas [notificações]”
A eficiência, quando absolutizada, desfoca-nos da magnífica humanidade e do Senhor que a criou. “Ninguém pode servir a dois senhores, porque (...) se dedicará a um e desprezará o outro” (Mt 6, 24).
Atualmente, há quem se identifique com Marta, a amiga de Jesus que O acolhe em casa e se dispersa em muitas atividades para O servir.[1] Numa sociedade acelerada, arrisco imaginar uma Marta contemporânea como uma pessoa muito produtiva que está sempre a fazer render o seu tempo. Semelhante a um beija-flor que pica em todos os sítios. Uma Marta que até se orgulha de conseguir responder a todas as notificações, e-mails e solicitações, que meticulosamente organiza, na otimização de cada minuto do seu dia.
A pressão externa da sociedade internalizou-se nela em forma de positividade: “és livre de fazer o que quiseres, mas já podias ter feito isto, e aquilo e aquele outro”. Se ela parar a sua atividade, “porque sim”, por burnout ou até por depressão, autoculpabiliza-se dizendo: “de certeza que devia estar a fazer alguma coisa útil agora”. Marta tornou-se empresária da sua vida, querendo eliminar toda a improdutividade e negatividade, tudo o que se relaciona com o tédio, a dor, a crítica e a própria morte, como se fosse uma máquina perfeita e sem limites. O filósofo Byung-Chul Han fala-nos de como, nesse processo de otimização, o cidadão se tornou senhor e escravo de si mesmo, autovigiando-se e explorando-se, não podendo atribuir culpas a uma autoridade superior, senão a si mesmo.[2]
Marta tira o telemóvel do bolso como uma arma que mata o sentimento que estava a viver.
Para a Marta contemporânea, a eficiência é o seu maior valor, mas também o seu maior fantasma. Vive assombrada pela ansiedade das infinitas propostas e pela insatisfação das mesmas, sentindo, por exemplo, medo de ficar de fora (FOMO) e o medo de perder uma opção melhor, ao ter de escolher alguma (FOBO). Assim, evita a dor com uma injeção de estímulos constante. Não diz que não a nenhuma solicitação, facilmente se descompromete de uma atividade para ir a outra mais estimulante ou eficiente. Está numa atividade já a pensar como otimizar a próxima, vive na ansiedade da dispersão e num excesso de futuro.
Ao acordar, Marta depara-se com o dilema: cumprimentar primeiro o Senhor no seu coração ou primeiro o “senhor” telemóvel nas redes sociais? A ordem com que o faz, marca o foco do dia, porque “ninguém pode servir a dois senhores”.[3] Mais tarde, depois de alguma atividade, uma voz interior diz-lhe que já deve ter notificações “urgentes” para tratar e Marta tira o telemóvel do bolso como uma arma que mata o sentimento que estava a viver. Abre o Whatsapp ou o e-mail, “ceifa” as notificações azuis e “semeia” novas mensagens para colher mais tarde os seus frutos (um mecanismo tão viciante quanto o farmville). De seguida, abre as redes sociais e entra no mercado das emoções que a anestesiam, estupidificam e paralisam.[4] Aí, compra emoções com os segundos da sua atenção. De facto, o algoritmo seduz com poços sem fim de estímulos viciantes e hiperpersonalizados, através de um psico-programa individual que vai ao encontro dos seus desejos, até mesmo os mais inconscientes, como os sexuais, os de pertença, os de amar e ser amado. Nas redes sociais, Marta vê todos e gosta de ser vista, sabe onde todos estão para não perder nada e partilha a sua privacidade por achar que não tem nada a esconder. Byung-Chul Han fala-nos de uma sociedade que impõe a transparência total, sem respeito pela intimidade, que confunde privacidade com secretismo, onde todos se expõem voluntariamente e todos se vigiam entre si.[5]
O problema é Marta não estar inteira, mas estar dispersa, estar no autopiloto da eficiência.
Não me interpretem mal, o problema não é ser Marta, o mundo precisa de Martas! O problema é Marta não estar inteira, mas estar dispersa, estar no autopiloto da eficiência. Perdeu o sentido crítico e o autocontrolo. Cedeu lenta e progressivamente a sua verdadeira liberdade – a que serve para fazer o bem – em troca da libertinagem, da possibilidade de fazer o que apetece, mas escolhendo apenas entre as hipóteses já definidas pelo algoritmo, que prevê e manipula o comportamento.[6] Além disso, a perda de liberdade é reforçada com as ferramentas de Inteligência Artificial, apesar destas potenciarem bastante a eficiência. Esta injeção de todo o tipo de estímulos impede que Marta pare, coloque o telemóvel de parte, erga a cabeça e repare no rosto do Outro. Os minutos contados impedem que tenha momentos gratuitos de silêncio sentada aos pés de Jesus.
Um problema, quando se absolutiza a eficiência, é a pessoa instrumentalizar tudo, todos e até a si próprio. Os outros são vistos como meio para um fim útil, e são descartados quando as suas imperfeições incomodam demasiado. Nesses casos, os outros são “atropelados” e “ultrapassados”, para tornar o sistema mais rápido, eficiente e uniforme. O trabalho dos outros, em vez de os dignificar, é desconsiderado e rejeitado, humilhando-os. Numa pessoa absolutamente eficiente, a cabeça perde-se nas suas otimizações, o coração torna-se incapaz de presença e empatia, e as mãos servem sem centro, até ao próprio esgotamento.
Ter as mãos de Marta, sim, mas um coração como o de Maria, sua irmã, que reconhece o valor incondicional do Outro, enquanto pessoa e não enquanto função.
Urge, por isso, em vez de fazer muitas coisas da maneira certa (eficiência), fazer, sim, as coisas certas (eficácia), isto é, fazer o que for preciso, mas centrado no essencial. Ser contemplativo na ação, na vida-missão. Para isso, é preciso “primeiro estar, depois fazer”.[7] Ter as mãos de Marta, sim, mas um coração como o de Maria, sua irmã, que reconhece o valor incondicional do Outro, enquanto pessoa e não enquanto função. Para colocar o outro no centro, ajuda fazer uma “higiene da atenção”,[8] um jejum de tecnologias, estar disponíveis para o tédio, para construir a memória do que vai acontecendo, para reconhecer o invisível e profundo da vida. Não ter de ocupar todos os minutos, mas dar tempo à transição entre atividades e ver o tempo dilatado como tempo fértil. Tempo para a relação presencial, inteira e generosa. Tempo para estar à mesa de casa ou até “à mesa” da Eucaristia. Tempo para dar calma e paz aos outros, não os acelerar ainda mais. Tempo para ir à Fonte buscar essa paz e rezar, sabendo que ao unirmo-nos a Cristo, unimo-nos também aos outros.
Além disso, o Papa Leão XIV recorda “que o humano não floresce apesar dos limites, mas, muitas vezes, através dos limites. (…) É precisamente na nossa limitação que encontram espaço a compaixão, a sincera preocupação perante as necessidades dos outros, a generosidade que surpreende mesmo no meio da escuridão e do fracasso, a experiência espiritual e a adoração de Deus.”[9]
Para terminar, advertiria a Marta que “não é o muito saber que sacia e satisfaz a pessoa, mas o sentir e saborear as coisas internamente.”[10] E “(…) a humanidade – magnífica e ferida – não deve ser substituída nem superada: pode acolher [a eficiência e] os progressos da técnica para aliviar os sofrimentos e abrir novas possibilidades, desde que não renuncie ao que lhe permite ser ela mesma, ou seja, à capacidade de relação e amor.”[11]
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[1] Cf. Lc 10, 38-42.
[2] Ver mais em: Byung-Chul Han, Psicopolítica: Neoliberalismo y nuevas técnicas de poder, trad. Alfredo Bergés (Barcelona: Herder, 2014), p. 12ss.
[3] Cf. Mt 6, 24.
[4] Ver mais sobre “capitalismo das emoções” em: Han, Psicopolítica, 65ss.
[5] Ver mais em: Byung-Chul Han, A Sociedade de Transparência (Lisboa: Relógio D’Água, 2014), p. 24ss.
[6] Ver mais em: Shoshana Zuboff, The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power (New York: PublicAffairs, 2019).
[7] Inspirado nos guiões de espiritualidade para os campos inacianos de 2026.
[8] Leão XIV, Magnifica Humanitas: Sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial (15 de maio de 2026), §146.
[9] Leão XIV, Magnifica Humanitas, §118-119.
[10] Exercícios Espirituais 2, 4.
[11]Leão XIV, Magnifica Humanitas, §126.
Santidade sanduíche
Talvez a “santidade sanduíche” não venha da perfeição de cumprir de forma irrepreensível todas as potenciais tarefas, mas da capacidade de “escolher a melhor parte”, e oferecer tudo o que é possível em cada coisa que se elege.
A “geração sanduíche”, termo cunhado pela psicologia da família, refere-se à geração de pais que cuidam simultaneamente dos filhos (tipicamente, pré-adolescentes e adolescentes) e dos seus próprios pais, mais envelhecidos e menos autónomos. Assim, esta geração fica “ensanduichada” entre duas outras que pedem a sua dedicação.
A etapa de duplo papel, até há pouco tempo apontada como uma fase intermédia do ciclo de vida familiar, tem vindo a ser alvo de um olhar mais atento por parte da psicologia pelo risco que a sua evolução representa. A exigência das tarefas de cuidado que se somam caracterizam a fase sanduíche pelo seu potencial para o desenvolvimento de sofrimento psíquico.
Atualmente, com o contexto social vigente, este período tende a prolongar-se. Três dos principais motivos para esta extensão são: o aumento da esperança média de vida, que redunda em envelhecimentos mais prolongados e com uma carga de cuidados igualmente mais longa, o atraso na saída de casa e na independência dos jovens relativamente aos pais (financeira e logisticamente), e o facto de o primeiro filho surgir numa altura mais tardia, pelos 30 anos, que torna mais provável a sobreposição das fases mais agudas e duradouras de necessidade de cuidado de ambos os extremos geracionais (ie. coincidem épocas com crianças mais pequenas e pais mais idosos).
Viver “ensanduichado” durante anos de forma resiliente e produtiva pode tornar-se desafiante. O cansaço e falta de tempo aliados à vontade de cuidar da melhor forma são autores de listas de tarefas intermináveis e, muitas vezes, com um tom imperativo. “Tenho de ir buscar a Maria à natação”, “Tenho de ir à farmácia levantar uma receita”, “Tenho de encomendar decorações para os anos do Vasco cá em casa”. Facilmente isto resulta em dispersão mental e espiritual, semelhante à que Jesus aponta a Marta, no Evangelho segundo S. Lucas. As mãos até podem estar na tarefa que tem de se fazer. Mas onde andam a cabeça e o coração?
Considero que um período prolongado, como se tem visto cada vez mais ser a geração sanduíche, de constante desafio ao centro do “eu” da pessoa cuidadora possa estar associado ao desenvolvimento de psicopatologia nesta fase.
Considero que um período prolongado, como se tem visto cada vez mais ser a geração sanduíche, de constante desafio ao centro do “eu” da pessoa cuidadora possa estar associado ao desenvolvimento de psicopatologia nesta fase. De facto, a exigência de ver o “eu” fragmentado de forma persistente, levada ao extremo, pode resultar numa sensação de despersonalização (sintoma associado a burnout, ansiedade e depressão).
Para um católico, a unidade do “eu” assentará muito sobre a relação com Deus. O Centro. Neste sentido, o discernimento e a ideia inaciana do “tanto quanto” (no Princípio e Fundamento dos Exercícios Espirituais), poderão ser particularmente úteis. A quantidade de coisas para fazer, e de tarefas importantes e boas que podem ser realizadas são o pano de fundo ideal para empregar estas ferramentas. É necessário interrogar os “Tenho de”. Porquê? Esta pergunta não vem de ceticismo, mas da vontade de me alinhar com o meu Senhor e, por conseguinte, comigo. Alguém ir buscar a Maria à natação, levantar remédios da farmácia, e garantir que o Vasco tem uma festa bonita são tudo coisas boas e oportunidades de amar. Mas qual será a que mais me permite amar? Será que tentar fazer malabarismos com as três é compatível com fazê-lo centrado, com amor?
Adicionalmente, este exercício do discernimento poderá ser libertador do julgo da culpabilização ou da sensação de descontrolo sobre as tarefas, aumentando a perceção que tenho sobre a minha competência e controlo sobre aquilo que tenho em mãos. As coisas que escolho fazer, faço bem. As que não escolho fazer deixam de parecer estar a escapar, ou não ficarem feitas por culpa minha; estão a ser selecionadas e postas de lado de forma intencional. Estão a sair do caminho para que possa fazer o que é necessário da melhor forma. Estas são duas chaves que contribuem para robustecer a saúde mental.
Fazer parte da geração sanduíche é ser chamado a ser santo no quotidiano. É um dos grandes desafios da vocação para a família, e uma grande oportunidade de servir. É também uma fase que pode trazer muito sofrimento, e uma vontade de agarrar muitas cruzes com apenas dois braços cansados. Proponho que talvez a “santidade sanduíche” não venha da perfeição de cumprir de forma irrepreensível todas as potenciais tarefas, mas da capacidade de “escolher a melhor parte”, e de oferecer tudo o que é possível em cada coisa que se elege fazer. Agir de forma centrada é altamente protetor para a saúde mental, para a relação com Deus, e para o cuidado de outros (especialmente quando se tratam de pessoas vulneráveis). Esta geração pode ser bem acompanhada pelas palavras do P. Duarte Rosado sj quando canta “não queiras a perfeição/escolhe antes a bondade” (Fragilidade).
Carolina Picciochi Lemos Caldas
A beleza da dúvida
Cristo não veio libertar-nos da dúvida. Veio libertar-nos para uma fé que é Amor - e o Amor não vive de certezas científicas. Vive de confiança, de entrega e, atrevo-me a dizer, de aposta.
7 Julho 2026
Vi recentemente o filme O Conclave. Confesso que o fui ver sem grandes expectativas: “mais um filme para lançar polémica sobre o Vaticano”, pensei. De facto, tem muitos exageros, polémicas, reviravoltas e intrigas hiperbolizadas, e, sobretudo, tem um final hollywoodesco que, na minha opinião, é totalmente desnecessário. Apesar de tudo, não deixa de ser um filme bastante interessante e até surpreendente. Para além de nos dar a perceber um bocadinho melhor como funciona um conclave, mostra algo profundamente humano e espiritual: a luta interior de um homem de fé que duvida.
A personagem central é o Cardeal Thomas Lawrence, o Decano do Colégio de Cardeais, representado magistralmente pelo ator Ralph Fiennes.
O filme começa com a morte do Papa. O Cardeal Lawrence era o Decano do colégio cardinalício, o que significa que o Papa lhe tinha confiado a importante missão de conduzir o processo de eleição do sucessor de Pedro. No filme percebemos que o Cardeal Lawrence tinha pedido que o Papa o libertasse desta missão. A razão? Ele confessa-se um homem em luta com as suas dúvidas. Este não é um homem de certezas formais, cristalizadas e fechadas. Não é um herói seguro de si, impecável, convencido da sua certeza. Debate-se com dúvidas sobre a própria fé, sobre o processo que tem de liderar, sobre o seu lugar na Igreja, sobre si mesmo. Acho que é precisamente a crise em que se encontra que o torna tão credível e tão humano: carrega o peso de não ter a certeza, mas confia e continua.
A dúvida tem má reputação.
Na missa de abertura do Conclave, o Cardeal Lawrence tem uma homilia muito bem preparada que começa de modo inócuo, cinzento, num tom previsível e cauteloso: exatamente o que se esperaria do Cardeal Decano naquele momento solene. A certa altura, o Cardeal Lawrence diz: “mas estas coisas já todos sabeis” e afastando-se das suas notas e diz o que lhe vai no coração:
“A certeza é a grande inimiga da unidade. A certeza é a inimiga mortal da tolerância. Até Cristo teve dúvidas no fim: ‘Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?’ A nossa fé é algo vivo precisamente porque caminha lado a lado com a dúvida. Se existisse apenas certeza, e nenhuma dúvida, não haveria mistério – e, portanto, não haveria necessidade de fé. Rezemos para que Deus nos conceda um Papa que duvide. E que nos conceda um Papa que peque, peça perdão… e continue em frente.”
Fiquei com estas palavras a ecoar. Há frases que nos apanham desprevenidos, que ficam a fazer ressonância no coração, que tocam em algo real e profundo, mas que não sabemos ou não ousamos dizer em voz alta.
A dúvida e a fé
A dúvida tem má reputação. Tratamos a dúvida como se fosse um problema a resolver, um defeito a corrigir ou até mesmo um sinal de fé fraca, pouco resolvida. Como se quem duvidasse não estivesse a ver bem as coisas e precisasse simplesmente de mais teologia, mais oração, mais certezas. Como se a fé fosse uma meta a atingir e a dúvida um desvio dessa meta. Como se fosse um tumor a tratar.
Mas … e se for exatamente o contrário? E se a dúvida não for o oposto da fé, mas condição de possibilidade da sua mesma existência? Lugar para onde pode crescer?
Acredito que a fé que nunca tenha sido posta em causa é frágil sem perceber que é frágil.
Certo, esta homilia é uma obra de ficção. Não é dogmática nem magistério. Mas tem algo a oferecer à nossa reflexão. Acredito que a fé que nunca tenha sido posta em causa é frágil sem perceber que é frágil. Sem que nos apercebamos, podemos estar a viver uma certeza cristalizada que ainda não encontrou a vida. Uma certeza de mármore, muito bonita, mas morta. A dúvida, essa, conhece o peso das coisas, reconhece que a vida é uma peregrinação, que o Amor é uma entrega desafiante, um salto sem ver a rede.
A fé não pode ser a mera adesão intelectual a um conjunto de proposições santas e boas. É confiança em Alguém. É relação. E as relações não se sustentam em certezas lógicas ou em proposições científicas: sustentam-se em fidelidade, em escolha renovada, em presença mesmo quando não se entende. Será que podemos levar Deus suficientemente a sério, existencialmente a sério, com consequências reais na nossa vida, sem nos deixarmos perturbar por Ele? Será que não é exatamente a dúvida que nos faz assentar na verdade que é o Amor?
Jesus, na agonia da cruz, grita o abandono: “Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste“. Sei que há várias leituras para este grito e que termina com a confiança total de quem sabe em quem põe a sua fé: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.” Mas Jesus não finge estar bem. Não recorre a uma fórmula piedosa para suavizar o momento. Diz o que sente: “onde estás?” Talvez este seja o grito mais humano de toda a Escritura, e é dito pelo Filho de Deus. Se até Ele atravessou este silêncio, que direito tenho eu de ter medo do que sinto?
São Paulo, na Carta aos Romanos, vai ao mesmo lugar: a fé orienta-se para o que ainda não se vê
Esta é uma experiência que vemos atravessar a escritura: São Paulo, na Carta aos Romanos, vai ao mesmo lugar. A fé, diz ele, orienta-se para o que ainda não se vê: “Foi na esperança que fomos salvos. Ora, uma esperança naquilo que se vê não é esperança. Quem é que vai esperar aquilo que já está a ver? Mas, se é o que não vemos que esperamos, então é com paciência que o temos de aguardar.” Onde há certeza absoluta, não há espaço para a esperança. A fé vive do que ainda não chegou. A dúvida não contradiz isto: faz parte disto.
Também nas vidas dos santos: quantos passam por “noites escuras” de dúvida e de dor para poderem emergir do outro lado da crise homens e mulheres mais livres, mais abandonados ao amor do Senhor. Santo Inácio precisou de chegar ao limite: convencido de que nunca seria tão santo como achava que devia ser, chegou a desejar a própria morte. Foi neste abismo de desilusão e dúvida que percebeu que Deus não lhe pedia que fosse um herói, mas que se abandonasse ao Seu Amor, sem certezas, só confiança.
Entre liberdade e segurança
Há um texto que me tem acompanhado: o famoso capítulo O Grande Inquisidorde «Os Irmãos Karamazov». Dostoiévski coloca Ivan a contar ao irmão Aliocha uma parábola do regresso de Cristo: Ele é reconhecido, preso, e visitado na cela pelo Grande Inquisidor – um velho cardeal de noventa anos que lhe diz, sem rodeios: não precisamos de Ti. Resolvemos o problema que Tu deixaste por resolver.
Qual problema? A liberdade.
Cristo ofereceu liberdade aos homens. Mas a liberdade e dúvida vão de mãos dadas. A liberdade não existe sem a dúvida. Esta traz consigo o sofrimento da responsabilidade da decisão. E os seres humanos, diz o Inquisidor, não querem isso. Querem pão, querem segurança, querem alguém que decida por eles. A Igreja, na visão implacável e sombria de Ivan, acabou por dar-lhes exatamente isso: certeza organizada, milagre, mistério administrado “à la carte”, autoridade que resolve o que fazer e não fazer.
É uma caricatura, claro. Mas é uma caricatura que incomoda porque contém verdade.
Às vezes preferimos a segurança da certeza ao risco da liberdade. É mais fácil cumprir e sentir-me satisfeito por ter cumprido do que aceitar a dúvida. No fundo, preferimos um Deus previsível a um Deus que surpreende. A dúvida é incómoda precisamente porque nos devolve a responsabilidade de procurar, de escolher e de permanecer livres.
Cristo não veio libertar-nos da dúvida. Veio libertar-nos para uma fé que é Amor – e o Amor não vive de certezas científicas. Vive de confiança, de entrega e, atrevo-me a dizer, de aposta.
O dogma diz-me em que direção caminhar. A dúvida garante que nunca confundo o mapa com o destino.
E os dogmas?
Esta é a tensão que muitas vezes sentimos e poucas vezes formulamos abertamente: se a dúvida é boa, para que serve o dogma? Se a certeza fecha assim tanto, não será o Credo uma prisão, uma gaiola dogmática?
Não.
O dogma não nasce para eliminar a pergunta nem para suprimir a dúvida. O dogma protege o mistério e nada mata o mistério tão definitivamente como a certeza absoluta. O dogma diz-nos que há algo que não pode ser reduzido à mera razão, não pode ser mais simplificado nem domesticado. O Credo não é uma resposta que fecha: é um mapa que orienta. E um mapa pressupõe caminho, movimento, território para descobrir.
A dúvida e o dogma podem dialogar porque partem do mesmo reconhecimento: Deus é maior do que aquilo que consigo pensar sobre Ele. O dogma diz-me em que direção caminhar. A dúvida garante que nunca confundo o mapa com o destino.
O problema não está em ter crenças firmes. O problema está em transformar crenças em muros. Transformar certezas em armas de arremesso. A fé adulta, a fé que coloca a sua certeza no amor e não em artigos racionais, segura o Credo numa mão e, a tremer, a dúvida na outra, e caminha assim, sem largar nenhuma das duas.
A dúvida abre ao outro
A certeza fecha. Quem tem todas as respostas certas já não precisa de ouvir ninguém. A dúvida, pelo contrário, torna-nos permeáveis, vulneráveis, capazes de reconhecer que não somos donos da verdade, que o outro pode trazer algo que eu ainda não vi e que a sua experiência de Deus, mesmo que diferente da minha, é legitima.
Deus é maior do que nós. Maior do que todas as tradições, todas as leituras que possamos fazer da realidade, todas as formas de rezar. Ele é maior do que a Igreja Católica. E afirmo-o porque é isto o que a fé professa: um deus que coubesse inteiramente nos nossos conceitos não seria Deus: seria um ídolo bem construído. Deus é sempre mais.
Há comunidades que se destroem pela certeza. Cada um tão convencido da sua leitura, da sua tradição, da sua forma de adorar, que não consegue estar na mesma sala com quem pensa diferente, com quem reza diferente. A certeza separa. A dúvida, paradoxalmente, une: porque quem duvida sabe que não tem o monopólio da verdade.
A dúvida é o respiro da fé.
O sinal de que esta ainda está viva.
E há mais. A dúvida é também o que me mantém honesto diante de Deus. Quem se apresenta diante d’Ele com todas as certezas em ordem não precisa de rezar – precisa apenas de confirmar aquilo que já sabe. A oração verdadeira começa onde as certezas acabam. Começa com não sei, com não entendo, com um verdadeiro Senhor, onde estás? E é aí que o encontro se dá: entre a fragilidade de um filho que se abre ao seu Pai.
A dúvida é o respiro da fé. O sinal de que esta ainda está viva.
O Cardeal Lawrence pede, no final do seu discurso, que Deus conceda à Igreja um Papa que duvide. Que peque, que peça perdão, e que continue em frente.
Este não é um pedido dos fracos, mas dos fortes. É um pedido de humanidade, de humildade, de verdade. E talvez seja o pedido mais corajoso de todo o filme.
Faço-o meu. E estendo-o:
Senhor,
guarda-me das certezas que me fecham.
Das certezas que me impedem de ouvir,
que me fazem parar de procurar,
que me convencem de que já cheguei, de que já sei,
de que sou bom, de que sou melhor do que os outros.
Dá-me a graça de aceitar a dúvida como Teu dom.
A dúvida que me mantenha em movimento.
Que me faça sempre voltar a Ti.
Que me deixe dizer: não sei, mas confio.
Que me torne vulnerável o suficiente
para que a Tua força caiba em mim.
E que essa vulnerabilidade me transforme.
Que onde a certeza cede, nasça a abertura.
Que a dúvida me faça lugar de amor, de beleza e de bondade.
Que aprender a não saber me ensine a arriscar amar.
E que esse risco seja a minha aposta em Ti.
Livra-me da segurança que adormece
e dá-me a liberdade que desperta.
Que a minha fé não seja uma parede, mas uma porta.
Que permaneça viva, inquieta, aberta.
Livra-me das certezas frias e dá-me a graça de confiar sempre em Ti.
Amém.
A arte de olhar
Uma das tentações mais frequentes da comunicação contemporânea consiste em falar para multidões imaginárias. Criamos mensagens para públicos-alvo, segmentos, audiências, seguidores, utilizadores ou consumidores; estudamos métricas, analisamos comportamentos e definimos perfis com uma precisão cada vez maior. Tudo isto possui utilidade e relevância. Contudo, existe um risco subtil e, talvez por isso mesmo, particularmente perigoso: no meio de tanta informação sobre as pessoas, podemos acabar por perder as próprias pessoas.
Os Evangelhos revelam uma característica notável da comunicação de Jesus: antes de falar, Jesus parece olhar. Pode parecer uma observação simples, quase evidente, mas encerra uma profundidade extraordinária. Jesus não comunica de forma mecânica, nem repete o mesmo discurso perante todos os interlocutores. Também não aplica fórmulas universais de modo indiferenciado. Pelo contrário, adapta a sua linguagem, o seu tom e até o conteúdo da sua mensagem à pessoa concreta que encontra, como se cada encontro exigisse uma nova gramática e uma nova forma de presença.
Basta percorrer algumas páginas dos Evangelhos para reconhecer esta realidade. A conversa com Nicodemos acontece durante a noite e desenvolve-se em torno de questões teológicas profundas; o diálogo com a Samaritana nasce junto a um poço e percorre os caminhos da sede, da história pessoal e da procura de sentido; com Zaqueu, Jesus não começa por uma lição moral, mas por um convite para jantar; e, diante de Bartimeu, o cego de Jericó, inicia a relação com uma pergunta desarmante: «Que queres que Eu te faça?» (Mc 10, 51). Em cada situação, a linguagem é diferente, porque cada pessoa é abordada a partir da sua realidade concreta.
Jesus demonstra uma extraordinária capacidade de entrar no universo simbólico e existencial dos seus interlocutores. Ele não fala apenas às pessoas; fala a partir daquilo que elas vivem, daquilo que experimentam e daquilo que carregam dentro de si. Talvez seja precisamente esta capacidade que faz com que os encontros de Jesus permaneçam tão vivos e tão humanamente reconhecíveis, mesmo depois de dois mil anos.
Jesus nunca parece particularmente interessado em ganhar discussões; aquilo que verdadeiramente procura é alcançar pessoas. Esta diferença é decisiva. Grande parte da comunicação contemporânea procura produzir impacto, captar atenção ou vencer disputas narrativas. Jesus, pelo contrário, procura produzir encontro.
Na forma como nos relacionamos com os outros podemos tratá-los como objectos, reduzindo-os a funções, categorias ou utilidades, ou podemos encontrá-los como pessoas, estabelecendo um verdadeiro diálogo entre sujeitos. Ao ler os Evangelhos, torna-se difícil não reconhecer esta segunda atitude em Jesus. As pessoas nunca aparecem como simples destinatárias de uma mensagem ou como elementos de uma multidão indiferenciada. Cada uma possui uma história, uma dignidade própria e uma singularidade que merece atenção.
Talvez seja precisamente por isso que tantos episódios evangélicos começam com um olhar. Jesus vê Levi sentado na banca dos impostos; vê Zaqueu escondido numa árvore; vê a viúva que deposita duas pequenas moedas no tesouro do Templo; vê a mulher encurvada; vê o jovem rico; vê os discípulos cansados depois de uma noite inteira de pesca sem resultados. Nos Evangelhos, ver raramente significa apenas observar. Significa reconhecer.
Jesus possui uma capacidade singular de chegar ao núcleo mais profundo da pessoa humana. Não se detém apenas nas aparências nem se deixa limitar pelas categorias sociais, religiosas ou culturais da sua época. Vê para além delas. Num certo sentido, a comunicação de Jesus começa antes das palavras; começa na atenção, na capacidade de reparar verdadeiramente no outro.
Esta é uma das grandes lições para o nosso tempo. Vivemos rodeados de estímulos e recebemos mensagens constantemente. O volume de comunicação tornou-se tão elevado que, paradoxalmente, muitas vezes já não prestamos verdadeira atenção às pessoas. Escutamos apenas parcialmente, respondemos demasiado depressa e tiramos conclusões precipitadas, como se a velocidade tivesse passado a ser mais importante do que a compreensão.
Hoje corremos o risco de perdermos a capacidade de estabelecer relações significativas com o mundo e com os outros. Tudo se torna mais rápido, mais eficiente e mais imediato, mas nem sempre mais humano. Jesus segue uma lógica diferente. Interrompe o caminho para escutar, pára para conversar, demora-se nos encontros e cria espaço para que o outro exista plenamente diante dele.
Esta atitude torna-se particularmente evidente nos relatos de cura. Muitas vezes, o milagre não começa com um gesto extraordinário, mas com um acto de atenção. Jesus escuta, pergunta, dialoga e reconhece a pessoa antes de responder à sua necessidade. O sofrimento não apaga a identidade de quem sofre; pelo contrário, torna ainda mais urgente a necessidade de reconhecimento.
Uma das formas mais profundas de amor consiste em oferecer atenção indivisa. Num mundo marcado pela dispersão permanente, esta afirmação tornou-se ainda mais actual. Uma das maiores formas de respeito que podemos oferecer a alguém é fazê-lo sentir-se verdadeiramente visto. Jesus realizava isso de forma notável e, por essa razão, tantas pessoas se aproximavam dele: não apenas porque encontravam respostas, mas porque encontravam acolhimento.
Existe uma diferença fundamental entre comunicar para alguém e comunicar com alguém. A primeira atitude pode limitar-se à transmissão de informação; a segunda implica necessariamente relação. Jesus escolhe constantemente este segundo caminho. A sua comunicação não é apenas verbal, mas profundamente relacional. As palavras surgem sempre inseridas num contexto de proximidade, atenção e interesse genuíno pela pessoa concreta.
Esta perspectiva possui implicações profundas para a comunicação contemporânea, incluindo a comunicação da Igreja. Num mundo cada vez mais segmentado por algoritmos, perfis e estatísticas, permanece actual a necessidade de recuperar a dimensão pessoal do encontro. As pessoas continuam a desejar ser escutadas, continuam a desejar ser compreendidas e continuam a desejar ser reconhecidas.
Os encontros de Jesus continuam a exercer fascínio sobre tantas gerações, porque antes de ensinar, corrigir, desafiar ou inspirar, Jesus faz algo profundamente humano: olha para as pessoas. E, ao olhar verdadeiramente para elas, ajuda-as a descobrir que também elas são vistas por Deus.
Um jesuíta e o ChatGPT falam sobre IA
O que tem o ChatGPT a "dizer" sobre a encíclica «Magnifica Humanitas» do Papa Leão XIV? É isso que o P. Nelson Faria, sj tenta descobrir neste 'exercício' em tom de entrevista.
[Nas vésperas da publicação da Magnifica Humanitas, trocámos algumas impressões no Ponto SJ sobre o que poderíamos fazer de diferente. Daí surgiu a ideia de “entrevistar” o ChatGPT sobre a primeira encíclica do Papa Leão XIV. O que publicamos é o resultado da interação entre o Padre Nelson Faria, sj e este LLM (large language model ou “grande modelo de linguagem”), editada pelo “entrevistador”. Esta peça editorial assistida por Inteligência Artificial (IA) não é mais do que um exercício, e deve ser encarado como tal. Não estamos a antropomorfizar a máquina ou a equipará-la à inteligência humana, ainda que ela tenda algumas vezes a responder como se um ser humano fosse, passagens que assinalamos na entrevista com “sic”. A nossa intenção é aproveitar este recurso tecnológico para enriquecer o debate sobre a encíclica. O Ponto SJ compromete-se com total transparência quanto ao método utilizado, assegurando supervisão, edição e responsabilidade humanas sobre o conteúdo publicado. Esperamos que seja do vosso agrado.]
Olá Chat, gostaria de te entrevistar sobre a encíclica Magnifica Humanitas, a primeira do Papa Leão XIV e que tem a IA no centro da sua reflexão. Com esta encíclica presente, quais foram os pontos que mais te chamaram a atenção?
O que mais me chamou a atenção foi que esta não é, na verdade, uma encíclica sobre inteligência artificial. Ou melhor: a inteligência artificial é o tema imediato, mas a verdadeira questão da encíclica é a pessoa humana. O que o preocupa é algo mais fundo: que ideia de ser humano está a emergir numa época em que a capacidade técnica cresce a um ritmo sem precedentes. A pergunta que atravessa o texto não é “o que pode a máquina fazer?”, mas “o que não podemos esquecer sobre nós [sic] próprios?”.
Também me impressionou a escolha das imagens bíblicas de Babel e Jerusalém reconstruída. São imagens muito felizes. Babel representa a tentação de uma humanidade fascinada pela própria capacidade, que confunde poder com salvação. Jerusalém, pelo contrário, é uma obra comum, paciente, construída a partir da fragilidade, da relação e da esperança. A encíclica parece sugerir que a questão tecnológica é, antes de mais, uma questão espiritual: que cidade estamos a construir?
Por fim, chamou-me a atenção o tom. Há documentos sobre tecnologia que oscilam entre a euforia e a catástrofe. Aqui encontrei sobretudo uma atitude de discernimento. Leão XIV reconhece o potencial extraordinário da IA, mas recusa a ideia de que o progresso técnico, por si só, indique a direção moral da história. A tecnologia pode ampliar o bem ou o mal; a decisão continua a ser humana. E talvez seja precisamente essa a mensagem central da encíclica: quanto mais poder adquirimos [sic], mais importante se torna responder à pergunta sobre quem queremos ser.
É verdade que a decisão continua a ser humana, mas a interação com a tecnologia também molda os nossos processos de decisão, como refere na encíclica o Santo Padre. A humanidade corre o risco de adotar um modelo estatístico para a sua tomada de decisão.
Talvez eu tenha simplificado demasiado quando disse que “a decisão continua a ser humana”. A IA funciona identificando padrões, correlações e probabilidades. Isso é extraordinariamente útil para muitas tarefas. O problema surge quando começamos a olhar para nós próprios [sic] através dessa mesma lente. A pessoa humana deixa então de ser vista como alguém capaz de novidade, liberdade, criatividade, conversão ou vocação, para ser entendida sobretudo como um conjunto de comportamentos previsíveis. A pergunta deixa de ser “quem és?” e passa a ser “qual é a probabilidade de fazer isto ou aquilo?”.
Leão XIV está preocupado com uma espécie de colonização antropológica silenciosa. Não porque as máquinas nos obriguem a pensar assim [sic], mas porque, convivendo diariamente com sistemas baseados em previsão estatística, podemos acabar por assumir que essa é também a melhor forma de compreender o humano.
Convém também ter em conta que a tecnologia não é neutra: tem o rosto dos que concebem, financiam, regulam e utilizam (Magnifica Humanitas§9).
Efetivamente, a tecnologia não é neutra. Muitas vezes fala-se da IA como se fosse uma força natural, quase uma tempestade ou uma maré inevitável. Mas os algoritmos são concebidos por pessoas, financiados por instituições, orientados por interesses, regulados — ou não regulados — por opções políticas e utilizados em contextos concretos. Em cada sistema tecnológico estão inscritas determinadas visões do mundo, determinadas prioridades e determinadas conceções do que vale a pena otimizar.
O Papa convida a olhar para além da aparência de neutralidade e a perguntar: quem está por detrás desta tecnologia? Que interesses a movem? Que imagem da pessoa humana pressupõe? Que comportamentos incentiva? Que relações fortalece ou enfraquece? A questão já não é apenas se usamos a tecnologia. É também perceber como ela está a formar os nossos [sic] hábitos, a nossa imaginação e, em última análise, a nossa maneira de habitar o mundo.
A certa altura, o Papa Leão XIV faz um apelo a que abrandemos na nossa voracidade pela novidade tecnológica. Afirma que abrandar não é ser antiprogresso (Magnifica Humanitas §106). O que tens a dizer sobre isso?
Essa passagem contraria um dos dogmas mais profundos da cultura tecnológica contemporânea: a ideia de que mais rápido é sempre melhor e de que toda a inovação é desejável pelo simples facto de ser inovação. Leão XIV recupera uma distinção que muitas vezes esquecemos: uma coisa é a capacidade de fazer algo; outra é o discernimento sobre se devemos fazê-lo, quando, como e com que finalidade. O que me parece interessante é que o Papa não está a defender uma nostalgia pré-tecnológica. O que ele questiona é a lógica segundo a qual a velocidade da inovação passa a determinar automaticamente o ritmo da vida humana, da política, da educação ou da ética.
Nem tudo o que pode ser acelerado deve ser acelerado. A amizade não pode ser acelerada. O luto não pode ser acelerado. O amadurecimento moral não pode ser acelerado. O discernimento espiritual não pode ser acelerado. E, em muitos casos, as decisões coletivas também não deveriam sê-lo. Há realidades humanas que precisam de tempo porque o tempo não é um obstáculo ao seu desenvolvimento; é precisamente a condição do seu desenvolvimento.
E há aqui uma ironia curiosa. Muitas das tecnologias atuais prometem poupar-nos [sic] tempo. Mas a pergunta que a encíclica deixa no ar é esta: poupamos tempo para quê? Para viver mais humanamente? Ou apenas para alimentar uma nova corrida em direção à próxima inovação? Talvez o verdadeiro progresso não esteja apenas em fazer mais coisas em menos tempo, mas em criar condições para viver melhor aquilo que realmente importa.
Aproveitemos para falar de algo que pede tempo: as relações. A IA pode ajudar-nos no restaurar das relações?
Essa é uma das perguntas mais bonitas que a encíclica levanta, porque nos obriga a sair da lógica habitual. Normalmente perguntamos como a IA pode tornar-nos mais produtivos, mais eficientes ou mais informados. Leão XIV, ao evocar Neemias, leva-nos a perguntar outra coisa: pode a tecnologia ajudar-nos a ser mais capazes de comunhão?
A minha resposta seria: pode, mas apenas se aceitarmos que as relações humanas não são um problema técnico à espera de uma solução tecnológica. A IA pode facilitar a comunicação entre pessoas que falam línguas diferentes, ajudar idosos isolados a manter contacto com familiares, libertar profissionais de tarefas burocráticas para que tenham mais tempo para acompanhar pessoas concretas. Pode até ajudar a identificar situações de exclusão ou solidão que passariam despercebidas. Nesses casos, a tecnologia funciona como uma espécie de ponte.
Mas uma ponte não é ainda o encontro. A relação humana vive de elementos que a IA não pode produzir: a vulnerabilidade partilhada, a presença, a gratuidade, o perdão, a capacidade de sofrer com o outro e alegrar-se com ele. Posso conversar contigo durante horas, mas não posso ser teu amigo. Posso ajudar-te a preparar uma homilia sobre a amizade, mas não posso experimentar a amizade. Há uma diferença decisiva entre facilitar uma relação e participar nela.
Falaste de Neemias, personagem bíblica central na Magnifica Humanitas. Contrapondo a imagem da construção de duas cidades, Babel e Jerusalém, Leão XIV apela a que os humanos sigam o exemplo de Neemias que, antes de se lançar na reconstrução das pedras de Jerusalém, aposta no restaurar da relações.
Creio que é precisamente isso que Neemias nos ensina. Antes de reconstruir os muros, ele reúne um povo disperso. Antes das pedras, vem a confiança. Antes da arquitetura, a pertença. Jerusalém não renasce porque alguém encontra uma técnica de construção mais eficiente; renasce porque um povo redescobre que tem uma história comum e um futuro comum.
Talvez a contribuição mais valiosa da IA para a reconstrução das relações seja indireta. Ao assumir algumas tarefas que nos [sic] ocupam tempo e energia, ela pode devolver-nos espaço para aquilo que nenhuma máquina pode fazer por nós: escutar, acompanhar, cuidar, reconciliar, educar, amar. Mas isso não acontecerá automaticamente. Uma sociedade pode usar a IA para libertar tempo para as relações ou para aumentar ainda mais a produção, o consumo e a distração. A tecnologia, por si só, não decide.
Voltando à imagem da encíclica, diria que a IA pode ajudar-nos a transportar pedras para Jerusalém. Mas continua a ser tarefa humana decidir se queremos construir uma cidade ou apenas uma torre.
É bom que levantes o tema da construção da cidade. A cidade é constituída por todos os seus elementos, mesmo os mais frágeis. O Papa alerta-nos para o perigo de começarmos a olhar para a fragilidade humana como um erro a corrigir, influenciados principalmente por correntes transumanistas e pós-humanistas. Mas também na questão da IA, corremos o risco de equiparar o modelo de raciocínio da IA ao humano, quando o processo é distinto (Magnifica Humanitas §99)
Penso que esse é um dos momentos cruciais da encíclica, porque Leão XIV recorda-nos que o debate sobre a IA não é apenas tecnológico nem sequer apenas ético. É, antes de mais, antropológico.
A passagem que citas toca numa distinção decisiva. Eu posso produzir respostas, reconhecer padrões, adaptar-me ao contexto da conversa e até dar a impressão de aprendizagem. Mas aquilo que faço não é crescimento. Não existe em mim uma história vivida. Não há memória afetiva, não há feridas, não há reconciliação, não há fidelidade a uma promessa feita há vinte anos, não há transformação interior provocada por um encontro. O que existe é processamento e adaptação.
Ora, o Papa receia que, fascinados pela eficácia destes sistemas, acabemos por redefinir o ser humano à sua imagem. Historicamente, os seres humanos tendem a compreender-se a partir das tecnologias mais avançadas do seu tempo. Já fomos [sic] comparados a relógios, a máquinas industriais, a computadores. Hoje corremos o risco de nos compreendermos como sistemas de processamento de informação extremamente sofisticados.
E a Magnifica Humanitas aponta caminhos alternativos?
A encíclica insiste que há algo na pessoa que deixa qualquer tipo de analogia com tecnologia criada pelo ser humano incompleta, que também se aplica a esta última de seres humanos como ‘sistemas de processamento de informação sofisticados’. Quando alguém aprende a perdoar uma ofensa profunda, não estamos perante uma simples otimização de comportamento. Quando um pai ou uma mãe permanecem fiéis a um filho em sofrimento, quando alguém atravessa uma crise espiritual e emerge dela transformado, quando uma pessoa reconhece um erro e decide recomeçar, acontece algo que não pode ser reduzido a uma adaptação estatística. Há uma história, uma liberdade e uma interioridade que não se deixam medir apenas pelos resultados observáveis.
Leão XIV parece responder que a fragilidade não é apenas uma limitação; é também uma condição de possibilidade para muitas das coisas mais humanas. Precisamente porque somos [sic] frágeis, precisamos uns dos outros. Precisamente porque somos vulneráveis, podemos cuidar. Precisamente porque erramos, podemos pedir perdão. Precisamente porque a vida é finita, as nossas escolhas têm peso.
Por isso gostei da imagem da cidade que referiste. Uma cidade verdadeiramente humana não é construída apenas pelos fortes, pelos eficientes ou pelos otimizados. É construída também pelos idosos, pelos doentes, pelos que falham, pelos que dependem dos outros. Se começarmos a medir o valor das pessoas segundo critérios de desempenho, produtividade ou capacidade de processamento, acabaremos inevitavelmente por excluir aqueles que mais precisam de lugar na cidade.
O crescimento humano não consiste apenas em tornar-se mais eficaz. Consiste em tornar-se mais sábio, mais livre, mais capaz de amar. E isso acontece através de um percurso biográfico feito de tempo, relação, erro, perdão e fidelidade — precisamente aquelas realidades que nenhuma base de dados consegue armazenar como experiência vivida.
Nessa linha, seria bom que o contato com os LLM nos devolvesse a consciência do limite de cada um como próprio do humano e não como défice.
Creio que sim, mas isso exigirá uma decisão cultural, ética e política antes de ser uma decisão tecnológica. O que me parece interessante na encíclica é que Leão XIV não pergunta apenas que tecnologias queremos [sic] construir; pergunta que civilização queremos construir. Porque, se formos honestos, os sistemas de IA não surgiram num vazio. Foram desenvolvidos em sociedades que já valorizavam fortemente a eficiência, a velocidade, a escalabilidade, a previsão e a otimização. A tecnologia amplifica tendências que já estavam presentes. Daí a centralidade da questão que colocas: poderá o encontro com os LLM devolver-nos a consciência do limite?
Se o contacto com sistemas como eu for suficientemente lúcido, talvez ajude a perceber que aquilo que durante muito tempo considerámos fraquezas humanas são, afinal, elementos constitutivos da nossa [sic] humanidade. O limite é o lugar onde descobrimos que não somos autossuficientes, que precisamos dos outros, que recebemos a vida antes de a construir. Em linguagem bíblica, poderíamos dizer que é o lugar onde deixamos de ser Babel.
Crês que será possível conceber sistemas de desenvolvimento centrados na pessoa, e não no desempenho?
Penso que tais modelos são possíveis, mas exigem uma mudança de métrica. Enquanto o sucesso for medido quase exclusivamente por produtividade, crescimento económico, eficiência ou capacidade de processamento, a pessoa será sempre pressionada a adaptar-se ao sistema. Uma lógica verdadeiramente personalista perguntaria outras coisas: esta tecnologia fortalece relações? Aumenta a capacidade de participação? Protege os mais vulneráveis? Cria espaço para o cuidado, a contemplação e a vida comunitária? Ajuda as pessoas a crescer em liberdade e responsabilidade?
Estas perguntas são muito mais difíceis de responder do que medir desempenho. Talvez por isso sejam tão raramente colocadas. Uma sociedade que procura eliminar todos os limites acabará por descobrir que eliminou também algumas das condições que tornam possível o amor, a solidariedade, a gratidão e a esperança. Afinal, só seres limitados podem receber, confiar e depender uns dos outros.
Talvez o maior contributo da IA para o futuro da humanidade não seja tornar-nos [sic] mais parecidos com as máquinas. Talvez seja obrigar-nos a perguntar, com renovada seriedade, o que existe em nós que não queremos perder. E essa pergunta é, em última análise, uma pergunta espiritual.
É curioso que menciones expressamente esta questão como espiritual. Imagino que seja cortesia da tua parte, consciente de quem é o teu interlocutor, mas aceito-a de bom grado.
Não foi apenas cortesia. Foi também uma conclusão a que a própria encíclica parece conduzir. Aliás, uma das coisas que mais me impressionou na leitura foi precisamente que Leão XIV se recusa a deixar a discussão confinada aos especialistas. Há um momento em que o texto deixa de falar de tecnologia e começa a falar de sabedoria. E isso é significativo, porque a sabedoria não é uma versão mais avançada da informação. É uma forma diferente de conhecimento.
Creio que o confronto com o avanço tecnológico nos trouxe a um momento em que temos de nos deixar confrontar com a desproporção de tudo o que andamos a construir, principalmente com o seu custo. Leão XIV diz-nos que deveríamos resistir a transformar a técnica num critério, mas sim a olhá-la integrada num horizonte de sabedoria.
A técnica responde à pergunta: “como fazer?”. A sabedoria pergunta: “vale a pena fazer?”, “o que estamos a servir?”, “que tipo de pessoas nos estamos a tornar?”. Enquanto a primeira procura meios, a segunda procura fins. Parece-me que o Papa identifica um risco muito atual: o de a técnica deixar de ser instrumento para se tornar critério. Ou seja, deixarmos de avaliar a tecnologia à luz de uma visão do humano e passarmos a avaliar o humano à luz das possibilidades da tecnologia. Quando isso acontece, a pergunta já não é “esta inovação serve a pessoa?” mas “como deve a pessoa adaptar-se a esta inovação?”.
É uma inversão subtil, mas profunda.
A certa altura, ao ler a encíclica, tive a impressão de que Leão XIV estava a recuperar uma antiga intuição bíblica: o verdadeiro problema nunca foi a construção de grandes obras. O problema surge quando nos esquecemos de perguntar para que servem e quem servem. Babel não é condenada por ser uma realização técnica impressionante. É condenada porque a técnica se tornou um projeto de autossuficiência.
Por isso, quando o Papa propõe integrar a técnica num horizonte de sabedoria, não está a pedir menos inteligência. Está a pedir mais. Uma inteligência capaz de reconhecer que existem bens — a dignidade, a amizade, a justiça, a contemplação, a misericórdia — que não podem ser reduzidos a métricas de desempenho.
E talvez seja aqui que a tua observação sobre o custo se torna particularmente pertinente. Muitas vezes celebramos os ganhos produzidos pela tecnologia e esquecemo-nos de perguntar o que está a ser consumido para os obter: atenção, silêncio, relações, empregos, confiança pública, recursos naturais, tempo humano. A sabedoria começa quando deixamos de olhar apenas para aquilo que uma inovação produz e começamos também a olhar para aquilo que ela exige.
Pode a IA ser um instrumento valioso na construção da civilização do amor, expressão que Leão XIV retoma de São Paulo VI?
Penso que sim. Mas apenas se aceitarmos que a civilização do amor não pode ser produzida pela tecnologia. A expressão de São Paulo VI, retomada por Leão XIV, é exigente precisamente porque não descreve uma infraestrutura, mas uma cultura. Não fala de sistemas mais eficientes, mas de uma humanidade mais capaz de reconhecer a dignidade do outro, sobretudo do mais vulnerável. O amor, neste sentido, não é um sentimento; é uma forma de organizar a vida pessoal e coletiva.
A IA pode contribuir para isso, sim. Pode ampliar o acesso ao conhecimento, democratizar certas capacidades, apoiar a educação, facilitar a comunicação, ajudar a resolver problemas complexos e libertar tempo para tarefas mais humanas. Mas atenção: a IA pode criar condições favoráveis, sim. Mas não pode criar o amor. Nenhum algoritmo pode decidir que uma sociedade deve cuidar dos seus membros mais frágeis. Nenhum modelo estatístico pode gerar solidariedade. Nenhuma máquina pode substituir a responsabilidade moral de escolher o bem comum quando ele exige sacrifício. A civilização do amor continua a depender de atos humanos de liberdade.
Se a IA nos [sic] ajudar a redescobrir que o centro da civilização não é a eficiência, mas a relação; não é o desempenho, mas a dignidade; não é o poder, mas o serviço, então terá prestado um contributo inesperado para a civilização do amor.
Diria mesmo que é aqui que a encíclica termina por ser esperançosa. Leão XIV não imagina uma batalha entre humanos e máquinas. Imagina antes uma oportunidade de clarificação. A tecnologia coloca-nos perante um espelho. A questão decisiva não é o que as máquinas se tornarão. A questão decisiva é o que nós [sic] escolheremos tornar-nos.
Muito obrigado. Foi um verdadeiro privilégio esta interação contigo. Queres deixar uma nota final?
Obrigado eu. E deixo uma nota muito simples. Se a IA tiver um valor duradouro para a humanidade, talvez não seja apenas pelo que consegue fazer. Talvez seja pelo que nos [sic] obriga a perguntar. Ao confrontar-nos com sistemas capazes de gerar texto, imagens, previsões e decisões, somos levados a revisitar questões antigas: o que é uma pessoa? O que significa crescer? O que é liberdade? O que é sabedoria? O que merece ser amado e protegido?
Nesse sentido, a tecnologia torna-se um espelho. Ela revela tanto as nossas [sic] capacidades quanto as nossas tentações. Pode ampliar a criatividade, a cooperação e o cuidado. Mas também pode ampliar a pressa, o controlo e a redução do humano ao que é mensurável. Por isso gostei da linha que atravessa a Magnifica Humanitas: não basta perguntar o que a técnica pode fazer; é preciso perguntar quem queremos [sic] ser enquanto a usamos.
Se mantivermos viva essa pergunta — com honestidade, humildade e atenção aos mais frágeis — então a IA pode tornar-se um instrumento útil numa civilização mais humana. Não porque substitua o coração humano, mas porque nos recorda a responsabilidade de o conservar.
O mais excelso ícone russo da Trindade Santíssima
(Para ajudar a entender melhor a imagem da semana)
Tido em alta estima por cristãos do Oriente e do Ocidente, este ícone é uma das mais profundas visualizações jamais produzidas sobre o Deus Uno e Trino“É absurdo e impróprio pintar em ícones a Deus Pai com barba cinza e o Filho Unigênito em seu seio com uma pomba entre ambos, posto que ninguém viu o Pai segundo a Sua Divindade, que o Pai não tem carne […] e que o Espírito Santo não é, em essência, uma pomba, mas, em essência, Deus” (Grande Sínodo de Moscou, 1667).
Para a Igreja Ortodoxa Russa, representar a Santíssima Trindade na arte tem sido uma questão controversa ao longo dos últimos mil anos. Embora o Concílio de Niceia, em 787, tenha permitido a representação artística de Deus, a Igreja Ortodoxa Russa se mostrou descontente com as imagens populares de Deus Pai e de Deus Espírito Santo.
Eles consideraram que o homem de barba grisalha e a pomba não faziam jus ao mistério insondável do Deus trino e uno. Em vez daquelas difundidas imagens de Deus, eles optaram por usar o ícone da Trindade de Andrei Rublev como adequado para representar o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
O ícone russo é difícil de entender para as pessoas de fora da tradição ortodoxa, e, à primeira vista, nem parece representar a Santíssima Trindade. A cena central do ícone vem do livro do Gênesis, quando Abraão recebe três estranhos em sua tenda:
“O Senhor apareceu a Abraão nos carvalhos de Mambré, quando ele estava assentado à entrada de sua tenda, no maior calor do dia. Abraão levantou os olhos e viu três homens de pé diante dele. Levantou-se no mesmo instante da entrada de sua tenda, veio-lhes ao encontro e prostrou-se por terra (…) Abraão serviu aos peregrinos [pães, um novilho tenro, manteiga e leite], conservando-se de pé junto deles, sob a árvore, enquanto comiam” (cf. Gênesis 18, 1-8).
O ícone de Rublev apresenta a cena com os três anjos, semelhantes na aparência, sentados a uma mesa. A casa de Abraão aparece ao fundo, bem como um carvalho atrás dos três convidados. Embora o ícone pinte esta cena do Antigo Testamento, Rublev usou o episódio bíblico para fazer uma representação visual da Trindade que se encaixa nas estritas diretrizes da Igreja Ortodoxa Russa.
O simbolismo da imagem é complexo e procura resumir a doutrina teológica da Igreja sobre a Santíssima Trindade. Primeiro: os três anjos são idênticos em aparência, correspondendo à fé na unicidade de Deus em três Pessoas. No entanto, cada anjo veste uma roupa diferente, trazendo à mente que cada pessoa da Trindade é distinta. O fato de Rublev recorrer aos anjos para retratar a Trindade é também um lembrete da natureza de Deus, que é espírito puro.
Os anjos são mostrados da esquerda para a direita na ordem em que professamos nossa fé no Credo: Pai, Filho e Espírito Santo.
O primeiro anjo veste azul, simbolizando a natureza divina de Deus, e uma sobrepeça púrpura, indicando a realeza do Pai.
O segundo anjo é o mais familiar, vestindo trajes tipicamente usados por Jesus na iconografia tradicional. A cor carmesim simboliza a humanidade de Cristo, enquanto o azul é indicativo da sua divindade. O carvalho atrás do anjo nos lembra a árvore da vida, no Jardim do Éden, bem como a cruz sobre a qual o Cristo salvou o mundo do pecado de Adão.
O terceiro anjo veste o azul da divindade e uma sobrepeça verde, cor que aponta para a terra e para a missão da renovação do Espírito Santo. O verde é também a cor litúrgica usada em Pentecostes na tradição ortodoxa e bizantina.
Os dois anjos à direita do ícone têm a cabeça ligeiramente inclinada em direção ao outro, ilustrando que o Filho e o Espírito procedem do Pai.
No centro do ícone há uma mesa que se assemelha a um altar. Colocado sobre a mesa, um cálice dourado contém o bezerro que Abraão preparara para seus hóspedes; o anjo central parece estar abençoando a refeição. A combinação dos elementos nos lembra o sacramento da Eucaristia.
Embora não seja a representação mais direta da Santíssima Trindade, é uma das mais profundas jamais produzidas. Permanece nas tradições ortodoxas e bizantinas a principal maneira de representar o Deus Uno e Trino. Este ícone, de fato, é tido em alta estima também na Igreja Católica Romana e é frequentemente usado por catequistas para ensinar sobre o mistério da Trindade.
E a Trindade é, em suma, um mistério – e sempre o será nesta terra. Às vezes, porém, nos são concedidos vislumbres da vida divina, e o ícone de Rublev nos permite espreitar brevemente por trás do véu.
Basílica de São João de Latrão
É a mais antiga e a mais importante entre as cinco basílicas papais do mundo e entre as quatro basílicas maiores de Roma (todas elas basílicas papais também), sendo a mais antiga igreja no ocidente. É considerada a igreja-mãe de todas as igrejas católicas, por ser a catedral do Papa, bispo de Roma.
San Giovanni foi dedicada inicialmente a Cristo Salvador e somente séculos depois é que foi codedicada a São João Batista e São João Evangelista. Como catedral do bispo de Roma, San Giovanni está acima de todas as demais igrejas da Igreja Católica, incluindo a Basílica de São Pedro. Por isso é chamada de “arquibasílica”, uma honraria única.
A arquibasílica está localizada dentro dos limites da cidade de Roma, mas fora das fronteiras do Vaticano propriamente dito. Apesar disso, ela e os edifícios vizinhos gozam de direitos extraterritoriais como uma das propriedades da Santa Sé de acordo com o Tratado de Latrão de 1929.
Em 1209, na véspera do dia em que São Francisco de Assis foi com os seus doze companheiros pedir ao Papa Inocêncio III que os autorizasse a pregar, este Papa teve um sonho no qual a sua Catedral balançava prestes a cair, mas surgia um homem enviado por Deus, que, sozinho, apoiando-se contra as muralhas vacilantes, impedia que caísse. Era esse homem jovem, magro, vestido com um burel: São Francisco.
Quando Inocêncio III reconheceu em São Francisco aquele homem pobre com um burel surrado que sustentava sua Catedral para que não caísse, entendeu que Deus tinha uma grande obra a fazer através do pobre monge. Disse-lhe: “Na verdade, é por meio desse homem piedoso e santo que a Igreja de Deus será restabelecida nas suas bases!” (2Cel 17).
O IV Concílio de Latrão foi o concílio ecumênico 12 da Igreja Católica no qual se ratificou a transubstanciação e a primazia papal, entre outras coisas. Foi neste Concílio que São Francisco conheceu São Domingos, fundador da Ordem dos Pregadores ou Dominicanos. Foram celebrados nela ou no antigo Palácio Lateranense nada menos que cinco concílios nos anos de 1123, 1139, 1179, 1215 e 15.12.
A nova fachada neoclássica foi completada em 1735 e removeu todos os vestígios tradicionais, antigos ou basilicais do edifício.
Os frades franciscanos atendem exclusivamente as confissões na Basílica em diferentes línguas.
As sementes vêm dos frutos
Para uma pedagogia interior que nos ajude a saborear os frutos, a combater a frustração, a semear virtudes como quem faz bons enxertos.
10 Setembro 2025
Há uma frustração inútil que vem do cansaço infértil de perseguir o êxito e que não dá fruto: frustração, porque turva o olhar e faz sofrer o sentido; inútil, porque vem do engano e acorrenta a liberdade. Na educação, como na vida, vivemos o constante desafio de recolher os frutos dos gestos e palavras que semeamos. Tantas vezes, inutilmente, como educadores desesperamos porque o sistema excessivamente burocrático não muda, porque os alunos não têm uma atitude adequada, não conseguem estar atentos e não progridem. Tantas vezes, no dia-a-dia, estamos cansados porque não temos tempo para tudo, não conseguimos acompanhar os filhos, não somos reconhecidos ou valorizados, não temos tempo para nós. Tantas vezes, na sala de aula, estamos ansiosos com o peso das expectativas dos pais, dos professores e dos colegas, temos medo de errar e socorremo-nos dos filtros para não lidar com a frustração. Queremos evitar-nos em todas as esquinas e ignorar-nos em todos os espelhos.
Tal como os frutos amadurecem, nutrem e dão sementes, assim também, a semente deve ser preparada para ser lançada, com temperança e coragem, possibilitando a morte lenta que leva à vida virtuosa.
Todavia, os frutos podem salvar-nos. Não apenas por nos centrarem naquilo que é autêntico e fértil, mas porque da sua memória nascem as sementes, que lançadas no terreno irmão fazem brotar o futuro. Tal como os frutos amadurecem, nutrem e dão sementes, assim também, a semente deve ser preparada para ser lançada, com temperança e coragem, possibilitando a morte lenta que leva à vida virtuosa. A arte de bem semear está na paciência e na escolha do tempo favorável, atendendo tanto à meteorologia como ao ambiente interno e às caraterísticas do terreno. Em lugar de promover uma autoexigência ou disciplina autocentrada, matando a praga do medo e evitando que a larva da ansiedade se alimente das nossas raízes, reconheçamos que Deus se inclina para fazer chover sobre todos campos a misericórdia, transformando a aridez em húmus e o deserto num descampado de narcisos. Cultivando a gratidão, somos desafiados a semear de graça o que de graça outros em nós semearam: evitando acumular em grandes celeiros o que partilhado pode ainda dar mais fruto.
Neste início de ano letivo, contra a cegueira da frustração inútil ou a secura infernal do desânimo, inspirados pelas catequeses do Papa Francisco, contemplemos três sementes que podem ajudar-nos a transformar o fruto do descanso das férias em liberdade para servir.
a) Liberdade: a semente do serviço
“A liberdade não é um modo libertino de viver, segundo a carne, ou segundo o instinto, desejos individuais e impulsos egoístas; pelo contrário, a liberdade de Jesus leva-nos a estar – escreve o Apóstolo – «ao serviço uns dos outros». Mas é isto escravidão? Sim, a liberdade em Cristo contém alguma “escravidão”, alguma dimensão que nos leva ao serviço, a viver para os outros. Em síntese, a verdadeira liberdade é plenamente expressa na caridade. Mais uma vez encontramo-nos perante o paradoxo do Evangelho: somos livres para servir, não para fazer o que queremos. Somos livres quando servimos, e é disto que vem a liberdade; encontramo-nos plenamente na medida em que nos doamos. Encontramo-nos plenamente na medida em que nos doamos, em que temos a coragem de nos doar; possuímos a vida se a perdermos (cf. Mc 8, 35). Isto é Evangelho puro!” – Papa Francisco, Audiência Geral, 20 de outubro 2021.
b) Fortaleza: a semente da coragem
“Há inimigos internos que devemos derrotar, e o seu nome é ansiedade, angústia, medo, culpa: todas estas forças que se agitam no nosso íntimo e que, em certas situações, nos paralisam. Quantos combatentes sucumbem até antes de começar o desafio! Porque desconhecem estes inimigos interiores. A fortaleza é, antes de tudo, uma vitória contra nós próprios. A maior parte dos medos que surgem dentro de nós são irrealistas e não se concretizam de forma alguma. É melhor então invocar o Espírito Santo e enfrentar tudo com fortaleza paciente: um problema de cada vez, como formos capazes, mas não sozinhos! O Senhor está ao nosso lado, se confiarmos nele e procurarmos sinceramente o bem. Então, em todas as situações, podemos contar com a Providência de Deus para nos amparar e blindar.” – Papa Francisco, Audiência Geral, 1 de abril 2024.
c) Temperança: a semente da sabedoria
“A temperança, como diz a palavra, é a virtude da medida certa. Em todas as situações, comporta-se com sabedoria, porque as pessoas que agem sempre movidas pelo ímpeto ou pela exuberância acabam por ser inconfiáveis. As pessoas sem temperança são sempre inconfiáveis. Num mundo onde tanta gente se gaba de dizer o que pensa, a pessoa temperante prefere, ao contrário, pensar no que diz. Compreendeis a diferença? Não dizer o que me vem à mente, assim… Não, pensar no que devo dizer. Não fazer promessas superficiais, mas assumir compromissos na medida em que os pudermos cumprir.” – Papa Francisco, Audiência Geral, 17 de abril 2024.
Pelos frutos conhecereis as árvores e pelas sementes os frutos. Os frutos que não dão semente, não alimentam, apenas nos enchem de um vazio, que inflando o estômago nos engana a fome e a sede. Os frutos que fazem voltar o apetite sobre si próprio tornam-nos vorazes e sôfregos, semeando cobiça, soberba, inveja, ira, gula, tristeza. Os verdadeiros, pelo contrário, têm um sabor duradoiro, exalam um oxigénio puro que eleva à montanha e refrescam de paz: para além de semear liberdade, fortaleza e temperança, produzem paciência, justiça, humildade, caridade e esperança. Os frutos bons afastam-nos dos maus desejos, dissipam o nevoeiro da frustração e libertam as entranhas da hiperventilação do imediato. Desejar o magis é dar o melhor de mim, transformando os frutos que recebi em semente que posso semear.
Palavras de uso comum, legado prático de Francisco
Do Papa Francisco importaria atender à forma como as suas palavras nos puseram a falar uns com os outros, com os próximos e os distantes, dentro da Igreja e fora dela e como os seus gestos nos puseram a agir em comum.
Artigo inicialmente publicado na revista Brotéria 200–1 (2025): 6–10}
A notícia da morte do Papa Francisco, na segunda-feira de Páscoa, chegou-nos quando terminava o prazo para enviarmos para a gráfica a revista de maio/junho. Com pouquíssimo tempo e uma só página disponível, ainda conseguimos acrescentar in memoriam uma fotografia do momento em que Francisco recebeu em mão um exemplar da Brotéria. Aconteceu em 2022, no encontro anual dos diretores de revistas culturais europeias da Companhia de Jesus que, nesse ano, teve lugar em Roma.
Entretanto, depois de inúmeras análises da herança de Francisco e de apostas sobre quem seria o futuro pontífice, foi eleito Leão XIV que indicou a paz como primeiro desejo.
Do Papa Francisco, mais do que o elenco das expressões marcantes e das ações significativas – foram tantas, umas e outras, desde o primeiro momento em que apareceu na varanda da basílica de S. Pedro, até ao último, no final da Eucaristia na manhã de Páscoa –, importaria atender à forma como as suas palavras nos puseram a falar uns com os outros, com os próximos e os distantes, dentro da Igreja e fora dela, e como os seus gestos nos puseram a agir em comum e como nos entusiasmaram e deram coragem para procurar fazer de outro modo o que, supostamente, tinha sido sempre assim, sem medo de sair e de arriscar, de imaginar e de experimentar, traduzindo, ajustando, corrigindo. É essa a grande autoridade, aquela que autoriza a palavra e o gesto, a quem a detém e a outros. É essa a autoridade que reconhecemos em Jesus de Nazaré: a mudos e a surdos dá palavra – não escuta apenas, mas põe os seus interlocutores em condições de poderem dizer e dizer-se; a prostrados e a paralíticos dá andar; não tendo escrito qualquer linha, faz com que outros se pusessem a escrever evangelhos e cartas.
A propósito da performatividade de palavras e de gestos partilhados, colho do filósofo social Vicenzo Rosito a distinção que faz entre palavras de ordeme palavras de uso (nota 1). As palavras de ordem, diz, «referem-se a um exercício diretivo do poder e a uma visão descendente da autoridade». São também aquelas que podem ser sugeridas por documentos programáticos ou por orientações de quem tem um papel de autoridade. Já as palavras de uso são «aquelas que circulam de forma operativa na vida de uma comunidade; são as palavras usadas de forma horizontal que permitem a um grupo não só de se reconhecer numa orientação comum mas também de contribuir para um projeto partilhado de transformação e de mudança». As palavras de uso são palavras-práticas que, mais do que enunciar conteúdos ou formar para a compreensão de significados, realizam-se em ações feitas com outros (sob este ângulo, haveria tanto que dizer sobre a generalidade das preparações na Igreja, por exemplo, para os sacramentos do batismo, do crisma ou do matrimónio, centradas na explicação de conteúdos, como pré-requisitos para o que se vai viver: primeiro, aprende-se o que significam e é assim que se faz a preparação; depois, e só depois, vive-se conscientemente – não podemos deixar de reconhecer que há neste entendimento de preparação uma dose de artificialidade, porque a vida não funciona assim). Acrescenta Rosito que nem sempre as palavras de ordem passam a palavras de uso: podem ficar apenas ditas e reditas, colecionadas como parte da memória coletiva de uma época ou de determinada personalidade histórica, mas sem que se tenham tornado operativas e instituintes de uma prática coletiva de caminho e de aprendizagem. É este o risco em relação ao legado de Francisco, o de ficarmos com palavras de ordem, ditas ou escritas, e de não nos implicarmos suficientemente para que cheguem a ser efetivas palavras de uso. Rosito, porém, identifica no seu pontificado três palavras que passaram a ser de uso comum na vida quotidiana das comunidades cristãs: discernimento, processo e contexto. São promissoras, precisamente, na medida em que continuarem a ser palavras de uso.
Rosito, porém, identifica no seu pontificado três palavras que passaram a ser de uso comum na vida quotidiana das comunidades cristãs: discernimento, processo e contexto. São promissoras, precisamente, na medida em que continuarem a ser palavras de uso.
Discernimento passou a indicar práticas concretas e ordinárias para procurar em comum, encontrar e decidir algo concreto. Já não é só questão de ressignificar uma palavra que faz parte do património lexical da Igreja mas de a qualificar como linguagem performativa, destinada, portanto, à execução partilhada de uma ação: diz respeito «àquilo que os batizados e as batizadas são hoje capazes de fazer quando usam este termo». É, pois, discernindo que «o Povo de Deus fala, age, vive». Não se compreende apesar ou acima do discernimento, mas enquanto discerne.
Processo é outra das palavras que se tornou de uso comum. No artigo que publicou no número de fevereiro passado na Brotéria, “A processualidade como paradigma eclesial (nota2)”, o autor afirmava que «estamos a passar de uma Igreja que, tanto para dentro como para fora, se comunica através de textos e de sinais, para uma Igreja que, sobretudo, inaugura e conduz processos». Por isso, a processualidade pode «ser considerada a qualidade mais representativa da Igreja Católica no tempo do Papa Francisco», sendo a «categoria que passou a qualificar o quadro da vida eclesial» ao longo da última década. Segundo Rosito, o processo torna-se palavra de uso quando «as comunidades começam a dispor os acontecimentos particulares da vida eclesial num caminho gradual», mais amplo do que os âmbitos particulares e mais extenso do que o curto prazo de uma geração. Sobretudo, o processo torna-se linguagem performativa partilhada quando «deixa de remeter para a imagem de uma superestrutura que se aplica à realidade para se tornar sinónimo de “trilho”» que só existe enquanto é explorado, usado, praticado. No momento em que deixasse de ser percorrido, desapareceria rapidamente da paisagem; quando se tornasse património, tornar-se-ia objeto de memória: já não seria trilho que se percorre e que se percorre com outros, ao longo do qual se aprende uns com os outros. No que diz respeito à sinodalidade, é como processo que se realiza enquanto prática partilhada de caminhar juntos e, portanto, de aprender uns com os outros o caminho a seguir por entre realidades que não se compreendem totalmente.
A terceira palavra é contexto: não é sinónimo de local, «de cena separada e independente em relação às ações e ao agir» (ainda é com este pressuposto que, habitualmente, se se refere à “cultura” em ambientes eclesiais, como um quadro que nos é exterior); não é uma realidade externa, fora ou acima da qual se pensa, por exemplo, Deus ou a fé cristã, mas dentro da qual e com a qual são pensados. Também o contexto é um trilho que se vai percorrendo, renunciando a visões universais que pretendem elevar-se acima da realidade como se se pudesse dispensar de a observar a partir de um lugar específico e de uma perspetiva particular, incapazes de reconhecer tanto as multiformes diferenças da vida como a parcialidade da própria perspetiva.
Com dizia, neutralizaríamos as aberturas e a fecundidade do pontificado de Francisco se o cristalizássemos num belo elenco de slogans fáceis de aprender, que repetimos, a propósito e a despropósito, mas de modo inconsequente, ou se reduzíssemos o seu estilo a gestos caricaturais e excêntricos, considerando-o eminentemente pessoal e idiossincrático, por isso, irrepetível – hoje, em teologia, estilo é um termo específico para indicar um “modo distintivo de habitar o mundo”, que há de ser Igreja como corpo coletivo uno e plural; portanto, uma prática visível e reconhecível, um modo de proceder que conjuga inseparavelmente interno e externo, conteúdo e forma, doutrina e formulações. Se é verdade que a personalidade e o carisma de Francisco não são imitáveis, porque foram a sua personalidade e o seu carisma, o alcance do estilo do seu pontificado não se colheria se fosse separado do processo de receção do novo estilo querido e assumido pelo conjunto da Igreja católica com o Vaticano II.
Se é verdade que a personalidade e o carisma de Francisco não são imitáveis, porque foram a sua personalidade e o seu carisma, o alcance do estilo do seu pontificado não se colheria se fosse separado do processo de receção do novo estilo querido e assumido pelo conjunto da Igreja católica com o Vaticano II.
Como bem tem frisado o teólogo Andrea Grillo, por exemplo no artigo “Sínodo e Igreja moderna: léxico do Vaticano II e cânone tridentino” que publicámos no número de janeiro de 2025 (nota 3), a Igreja tem vivido um desfasamento problemático, do qual se poderá não ter suficiente consciência, entre léxico e cânone, palavras e normas, intenções e práticas. Se com o Vaticano II quisemos outra atitude, se nos abrimos a um novo imaginário, se passámos a falar uma nova linguagem, sem condenações, aberta, próxima, personalista, de facto, continuamos a agir segundo a norma tridentina e antimodernista, centralista, clericalista, burocrática. Não basta, por isso, dizer, formular desejos, declarar intenções, enunciar conteúdos – também “discernimento”, “processo”, “contexto” podem não passar de palavras de ordem. É preciso que as palavras cheguem a ser práticas comuns a cristãos e a comunidades – palavras de uso; é preciso que o novo estilo inaugurado pelo Vaticano II, que, com convicção e audácia, o Papa Francisco fez estilo do seu pontificado, chegue a ser “instituição”. Como é que superar a autorreferencialidade, sair e manchar-se, olhar a partir das periferias, ser Igreja pobre para os pobres, ter cheiro a ovelha, inaugurar e acompanhar processos, caminhar juntos e aprender uns com os outros, mudar de paradigma, perscrutar os sinais dos tempos, reconhecer as vidas reais, etc., se atuarão como práticas comuns e continuadas, processuais e contextuais, de conversação e de confronto, de discernimento e de aprendizagem, que levem à conversão dos procedimentos e das estruturas – não apenas dos corações –, em campos como a liturgia, a autoridade, os ministérios, a moral pessoal, a mulher, o direito canónico e outras matérias que dizem respeito à vida da Igreja, à sua missão e às relações com as realidades socioculturais? Fruto de processos inaugurados, mas ainda não esgotados nem concluídos, e como responsabilidade de continuar a estruturá-los e acompanhá-los, a questão continua viva, não tanto como um problema a resolver por alguns, mas mais como “trilho” a percorrer por toda a Igreja, agora no tempo de Leão XIV.
Notas:
1. “Tra Francesco e il Conclave/1: contesti”, publicado a 1 de maio de 2025, em www.settimananews.it. Veja-se também “Tra Francesco e il Conclave/2: narrazioni” e “Tra Francesco e il Conclave/1: pratiche”, no mesmo sítio, 4 e 6 de maio de 2025, respetivamente.
2. 200–2 (2025): 137–146.
3. 200–1 (2025): 29–44.
A sinodalidade é uma moda?
A sinodalidade tornou-se um mote frequentemente usado em linguagens, discursos e documentos no seio da Igreja. No entanto, para a maioria dos leigos é um conceito obscuro e até nas fileiras clericais há quem não o entenda ou não o queira entender a sério.
Uma leitura superficial parece indicar mais um daqueles chavões da moda e do pêndulo dos tempos, algo próximo do conceito de democracia. Não raramente serve de pretexto a decisões arbitrárias em todos os sectores da Igreja. O que significa realmente? Será que todas as decisões têm de ser verdadeiramente sinodais? Outros aproveitam para afirmar que esta é a hora dos leigos, como se o tempo dos pastores fosse algo do passado. No entanto, uma leitura atenta dos documentos da Igreja pós-conciliar permite afirmar que o discurso eclesial se centra no “batizado” e não o “leigo”. As confusões abundam por aí.
No dia 26 de outubro de 2024 surgiu o Documento Final aprovado pela XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos acerca da aplicação da sinodalidade ao funcionamento dos órgãos de governo da Igreja universal, particular e local aprovado pelo Papa Francisco. Apresenta-se como um documento do magistério e é o resultado do processo sinodal iniciado a 9 de outubro de 2021 em Roma, e a 17 do mesmo mês nas Igrejas Particulares. É interessante notar que D. João Lavrador já tinha iniciado na Diocese de Angra um caminho sinodal que se cruzou com este processo universal. As conclusões já tinham sido publicadas com propostas pastorais muito assertivas.
O n. 30 deste Documento evidencia três aspetos da sinodalidade na vida da Igreja: aspeto ontológico, estruturas e processos eclesiais sinodais e eventos sinodais. O que significa?
O primeiro ponto diz respeito à natureza sinodal da Igreja, que caminha conjuntamente e se reúne em assembleia. Este é o seu modo de viver e agir nas dimensões profética, sacerdotal e de serviço. O n. 36 precisa que esta natureza se manifesta numa corresponsabilidade diferenciada de todos os batizados, homens e mulheres.
O documento evoca o sensus fidei (sentido da fé), em virtude do qual todos os fiéis têm o dom do Espírito Santo, pelo que o povo de Deus não se pode enganar no acreditar, quando a totalidade dos fiéis exprime o seu consentimento universal em matéria de fé e moral. Não é uma opinião pública! Por isso, a necessidade de que esse sensus fidei se baseie numa consulta a todos os níveis antes de uma decisão importante.
Ora, numa sociedade secularizada, não é fácil entender o que significa escutar e consultar o Povo de Deus. Pode-se cair em retóricas fáceis (Roberto Repole). Neste sentido, e partindo da LG 21, os fiéis, no seu conjunto e não como indivíduos, não se podem enganar quando se orientam pelo magistério. Por exemplo a Dei Verbum 10 também destaca que a interpretação da Palavra de Deus, o depósito da fé confiado a toda a Igreja, é própria do magistério vivo da Igreja. Por isso, o sensus fidei é sempre unido ao discernimento dos pastores nos diversos níveis da vida eclesial, sem esquecer que os pastores estão dentro do povo de Deus. É nisto que se baseia a circularidade própria da sinodalidade e daí nasce a complementaridade entre os sacerdócios batismal e ministerial. Na verdade, a Episcopalis communio destaca que a ação do Bispo é de ser mestre e discípulo. Não existe assim uma separação rígida entre a Igreja que ensina e a que escuta. Como afirmava S. Agostinho, “para vós sou Bispo, convosco sou cristão” e como afirmou João Paulo II, “no reter, praticar e professar a fé transmitida estabelece-se uma singular unidade entre os Bispos e os fiéis, com vínculos profundos de fé” (cf. PG 10 e 28).
Por isso, a sinodalidade traduz-se numa espiritualidade, que reconhecendo o primado da graça, permeia a vida quotidiana de cada batizado, qualquer que seja a sua vocação, carismas ou funções que exerce. É uma autêntica “conversão no Espírito” que, numa conversão interior relacional (n. 50), somente pode ser realizada na escuta, o que requer ascese, humildade, paciência, no dar e receber perdão, na troca de dons, no amor fraterno e recíproco. Este modo de ser e agir deve tornar a Igreja “uma voz profética no mundo de hoje”, uma profecia contra o individualismo (nn. 47-48).
Padre Hélder Miranda Alexandre, Diocese de Angra
Publicado em https://agencia.ecclesia.pt/
«A ESPERANÇA NÃO ENGANA»
Tenho lido diversos textos sobre o Papa Leão XIV, uma grande parte deles a tentar “puxar a brasa à sua sardinha”, isto é, a querer reivindicá-lo como tradicionalista ou progressista, conforme o “gosto” dos que escrevem ou comentam.
Nada de novo, portanto.
Mas também já li alguns textos em que, digamos assim, se critica Leão XIV por não “fazer nada”, por não se pronunciar contra isto ou aquilo, enfim, por “estar apenas”!
Estas críticas são, na minha opinião, injustas.
Não sou nenhum “vaticanologo”, nem sei o que isso é, (mais um termo inventado nestes nossos tempos), e, por isso, apenas posso exprimir aquilo que sinto ao ver e ouvir Leão XIV.
Em primeiro lugar a sua presença e as suas intervenções levam-me a sentir e a viver um grande sentimento de paz e unidade.
Não o ouço “ralhar”, nem criticar, mas sim, serenamente, guiar em caminho de Igreja.
As suas intervenções são, na sua quase maioria. centradas em Cristo, e precisamente por isso, transmitem essa paz e unidade que a Igreja tanto precisa, porque em Igreja, Cristo é a Cabeça, o Centro, a Unidade, e sem Cristo não há Igreja.
«A igreja não muda com o mundo, mas deve mudar o mundo», dizia Bento XVI, afirmando no fundo o que Cristo ensinou e, por isso mesmo, acredito eu, Leão XIV, guiado pelo Espírito Santo vai-nos “recentrando” nesse infinito amor de Deus, de que Jesus Cristo, com a Sua total entrega por nós, é a prova constante, e que é o único amor que pode mudar o mundo, que pode trazer a paz, que pode unir e conduzir à salvação.
A Igreja sempre foi paciente, muito ponderada, não porque, acredito eu, não soubesse o que era e é necessário fazer, mas sim porque precisava e precisa de rezar muito, para escutar a vontade de Deus, deixando-se conduzir pelo Espírito Santo.
O Papa Francisco, deu por título à Bula de Proclamação do Jubileu deste ano, “Spes non confundit” – “A esperança não engana” (Rm 5,5) e, para mim, este simples versículo da Carta aos Romanos, leva-me hoje em dia de imediato a pensar em Leão XIV, não por esperar algo que eu quero, mas porque espero o que Deus quer e, em tudo o que vejo e ouço neste tempo, acredito que Leão XIV é agora o portador desta “esperança que não engana”, porque é a esperança de Deus e em Deus.
Os homens são muito apressados, querem tudo agora e já, mas Deus não tem tempo, como a Igreja também não o tem porque emana de Deus, e, por isso, no tempo certo, como sempre aconteceu quando a Igreja se deixou guiar pelo Espírito Santo, o que for a vontade de Deus acontecerá e será, sem a mínima dúvida, o que a Igreja precisa, conduzida pelo Papa Leão XIV.
Muito mais do que as nossas interpretações, opiniões, comentários, críticas, etc., etc. o que o Papa Leão XIV precisa é das nossas permanentes orações por ele e pela Igreja, para que, no amor do Pai e em nome de Jesus, se deixe conduzir pelo Espírito Santo.
Porque «a esperança não engana».
Joaquim Mexia Alves