Mais uma volta ao sol e lá vem um certo entusiasmo de novo ano, novo início, um reset psicológico talvez.
É curioso, não é? Porque na verdade não muda nada, mas também não tem mal. Deve ser o equivalente a um café para acordar para o coração e para a vida.
E, portanto, lá vem um novo fôlego, “este ano é que vai ser”. Diz que duram entre 2 a 4 meses! A inscrição no ginásio, a dieta, o ler um livro por mês, caminhar mais, passar mais tempo com os miúdos, rezar o terço todos os dias, aprender um instrumento, ir a pé-bicicleta para o trabalho, etc e tal.
Não tem mal pelo contrário. Bem precisamos de um incentivo para superar os desafios do dia a dia.
Para nós que ainda vemos o Natal no Menino, também pode bem ser uma oportunidade.
Afinal até temos 2 inícios de ano, 2 novos ciclos, o civil e o litúrgico. Vamos rever a matéria toda com novos olhos e a pena de um Evangelista novo.
E sim, o ano é novo, mas o propósito é antigo: ser santo. Penso que, deste ponto de vista espiritual, não precisaremos de mais propósitos que não o de crescer na santidade. Com empenho, entusiasmo e confiança. Sobretudo confiança.
Precisamos muito de levar isto a sério, não como algo do passado.
Não como aquelas coisas que foram parar à estante há tanto tempo e que por algum motivo mexemos e nos surpreendeu: “não em lembro quando me deram isto! Diacho! Nem me lembrva que o tinha!”.
Vê-se “lá fora” um ressurgimento da curiosidade espiritual. Já partilhei convosco esse fenómeno: há toda uma geração de jovens adolescentes não iniciados na fé que andam à procura. Por estes dias cruzei-me com duas ou três situações. Uma mãe dizia-me:
“- Eu não sei de onde ele foi buscar esta curiosidade, não foi lá em casa de certeza! E ele sempre sentiu que acredita em Deus e agora que ver respondidas questões que nós não sabemos responder!”
Sinto, espero, que isto aumente também aqui na nossa comunidade, que não sejam só os não iniciados, mas os próprios iniciados que sintam necessidade de voltar a redescobrir.
Creio que ajudará uma comunidade forte, empenhada no propósito antigo de ser santo.
Sonho para este novo ciclo uma comunidade que dá testemunho simples, indireto até, mas forte.
A redescoberta da vida sacramental. Rever a missa e a participação. Ir além do mínimo.
Assumir os preceitos, não como imposições, mas como linhas de um plano de treino sólido e exigente.
Dói-me o coração ver nestes dias de festa que não vou à missa na quinta (ano novo) basta-me o Domingo.
Custa-me o peso do que vos vou dizer: mas faltar a uma missa de dia de preceito obrigatório, sem motivo grave, é pecado. E deve procurar confessar-se com urgência antes de voltar a comungar.
Sobretudo porque perdeu a oportunidade de viver o Natal e iniciar o Ano focado no essencial. A Fé, como confiança depositada em Jesus Cristo Senhor, não pode ser para o cristão uma nota de rodapé! É a estrela polar que orienta a vida!
Eu chego a ter remorsos por sentir que devíamos pregar mais sobre isto.
E porque não o faço? Porque odeio o peso “do antigamente”. Porque confessar-se porque tem de ser, sem arrependimento não gera graça sacramental. O mesmo com o vir à missa porque tem de ser. E tento desesperadamente uma abordagem “leve” que encha o coração. Mas com isto talvez tenha falhado em transmitir um pouco deste peso que pode ser saudável.
Dia de Natal, dia de Ano novo são sim dias de ir à missa.
A estatística da paróquia parte-me o coração: há uma grande percentagem de povo, de missa dominical habitual, que falta com grande leveza.
E sem o compromisso, a graça, o benefício espiritual não tem espaço para crescer em nós.
Torna-se peso, obrigação e com o tempo, nota de rodapé e desvanece-se lentamente.
Deus tem um propósito, uma proposta de vida incrível para nós e conta com o nosso empenho e compromisso para ter espaço para actuar e transformar o nosso coração.
Dói-me o coração quando ouço pessoas serem convidadas para fazer Alpha e a resposta é: “já tenho as comunhões todas”. Não há curiosidade de saber mais? Já sabemos tudo? Reduzimos a Fé à missa e umas quantas piedades que chegam a ser vividas em estilo de superstição.
E a Igreja tem uma riqueza enorme. Há um poder extraordinário em partilhar a vida, em criar comunidade, laços de confiança, dúvidas, questões e alegrias.
É o que o Evangelho nos manda: ir, ensinar, baptizar, fazer discípulos e ficamos contentes porque temos as comunhões todas?
Perdemos tanto. E estranhamente podemos correr o risco de perder o que nos faz falta para levar a vida por diante, para dar resposta às dores e às angústias que carregamos todos.
Sonho uma paróquia com propósitos antigos, que deseje crescer na Santidade, ser comunidade, ser Corpo de Cristo.
Pe. Patrício Oliveira

