Assunção da Virgem Santa Maria
Solenidade litúrgica
Quando falamos, ou ouvimos falar, desta festividade, muito marcante e enraizada no nosso país e em todas as comunidades cristãs do mundo inteiro, celebrada a 15 de Agosto, ocorre-nos imediatamente um conjunto rico de imagens, de memórias e emoções impossíveis de descrever por palavras.
O que se celebra nesta data é a Assunção ao Céu em corpo e alma da Mãe de Jesus, que se evoca desde o século V no Oriente (com a designação “Dormição de Maria”) e desde o século VII em Roma.
Essa convicção profunda do Povo de Deus foi reconhecida e formalizada como dogma pelo Papa Pio XII em 1 de Novembro de 1950 através da Constituição Apostólica “Munificentissimus Deus”, sustentada por argumentos fortes e após auscultação de todo o Colégio Episcopal (Bispos do mundo inteiro).
Aqui chegados, podemos perguntar que significado é que esse acontecimento tem para nós, pessoalmente, na nossa existência tanto presente como futura. Em que medida é que ele nos diz também respeito? Ficamos nós felizes, contemplando esse doce e suave culminar da vida de Nossa Senhora, extasiados e embevecidos, mas correndo o risco de não perceber que dele também fazemos parte, que somos destinados também a viver esse estado?
A chave para compreendermos o alcance deste mistério revelado por Deus à Humanidade encontra-se na Sagrada Escritura e tem uma expressão que lhe serve de mote a cada momento: o “servo de Javé”.
Podemos encontrá-la de forma clara, por exemplo, no livro de Isaías (42, 1): “Eis o meu servo, que Eu amparo, o meu eleito, que Eu preferi.”
Ela aparece depois no Evangelho segundo S. Lucas (1, 38): “Maria disse então: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.»”, reafirmada um pouco mais tarde na presença de Isabel: “Maria disse então: «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva.»” (Lc 1, 46-48a)
Esta palavra-chave (“servo”), fundamental para compreender a nossa ligação com a assunção de Maria em corpo e alma, é inteiramente revelada pelo próprio Jesus que a confirma sem ambiguidades quando declara: «Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem entre vós quiser fazer-se grande seja o vosso servo; e quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja o vosso servo.» (Mt 20, 26.27)
À luz da Palavra de Deus vislumbramos, agora, que o ponto de partida para a Assunção da Virgem Maria em corpo e alma foi, desde o início, a humildade da sua serva conscientemente assumida, numa atitude de primeira discípula do Seu Filho, que irá ser confirmada no gesto do lava-pés, quando Ele Se torna o servo de todos, sendo Ele o Mestre e Senhor.
Deste modo, a humildade e o serviço ao próximo que Jesus apresentou como caminho para o Pai, culminando na Sua morte e ressurreição, foi o caminho de humildade e serviço ao próximo que Maria seguiu também, e que a Igreja reconhece ter culminado igualmente na Sua morte e ressurreição, estando inteiramente em Deus, em corpo e alma.
Podemos inferir de tudo isto que a glória maior de Maria foi a sua livre escolha de ser serva de Deus, servindo os irmãos, e não tanto o de ter sido escolhida por Deus e preservada da mancha original em atenção aos méritos futuros de Seu Filho.
Sendo assim, é aqui que podemos olhar para Maria como nosso exemplo. Um exemplo de entrega, dedicação e serviço ao próximo por amor do Senhor. Exemplo de humildade, mansidão e paciência com a certeza de que Deus coloca nisso o Seu olhar e exalta os humildes.
Se esse foi o caminho seguido pela Virgem Maria, fazendo a vontade de Seu Filho desde o momento da sua concepção Imaculada, e ao sermos por Ela exortados a fazer o que Ele nos disser, podemos ter a certeza de que, seguindo esse mesmo caminho, fazendo as mesmas escolhas, deixando-nos conduzir pelo Espírito Santo de Deus, alcançaremos também um dia a glória da Ressurreição em corpo e alma, tal como a Mãe de Deus Filho, e nossa Mãe.
Fernando Brites