Cinzas no sopro do Espírito
As cinzas que hoje nos coroam expressam o desejo de uma vida no Espírito. São sinal de dedicação a um tempo que dispõe o coração à transição para a Luz que nos espera do outro lado da Cruz.
Hoje “cinzamos”. Uma cruz marca a nossa fronte, desenhada com o pó que sobra da falsa euforia de Domingo de Ramos, rabiscada com o pó que somos quando o Espírito não nos anima, revelada pelo pó que nos prende quando resistimos ao sopro do Espírito.
Etapa de preparação para algo maior, a Quaresma é mormente vivida como tempo de autoimposição de provas, como se fossemos simultaneamente mestres e discípulos. Jejum, oração, esmola, três gestos de libertação, tornam-se, paradoxalmente, instrumentos de domínio. Travestimos a Quaresma de artificial provação em lugar de caminho para a Páscoa.
As cinzas que hoje nos coroam expressam o desejo de uma vida no Espírito. São sinal de dedicação a um tempo que dispõe o coração à transição para a Luz que nos espera do outro lado da Cruz.
Contudo, mesmo quando produz os resultados ambicionados, a Quaresma pode ainda assim ser marcada pela esterilidade. Obcecados pela ação, negligenciamos a contemplação; movidos pela expetativa dos resultados, ficamos aquém do Reino que é a presença do próprio Cristo.
Fazemos tudo para nos vencermos a nós mesmos, mas sem deixar-nos derrotar por Cristo, Deus que vem ao nosso encontro.
A Quaresma é tempo de Cristo. É tempo de o olhar e deixar-se olhar. É tempo de contemplar.
A Quaresma é atelier, não um fim. É escola, não um destino. É pousio expectante, não labor fulgurante.
Contemplar é mais Quaresma que inventariar listas de abandonos sazonais.
A arte de contemplar não pede tempo, pede espaço. Além dos vários gestos quaresmais que preparam a Páscoa, o abrandamento do coração como velocidade quaresmal responde à necessidade profunda de quem somos, neste momento e lugar. Pois a Quaresma vive-se no sopro do Espírito, e não da autossuficiência e autossuperação.
18 Fevereiro 2026