Deus que é amparo

Sabemos que cansados, temos um lugar onde podemos ir para encontrarmos paz, e amparo. Imaginemos o ecrã grande como O Nosso Pai. Aquele que nos amplia as coisas pequenas, para vermos a imagem de forma maior.

“Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso.” (Mt 11: 28-29)

Por alguma razão esta é uma das passagens mais citadas por milhares de católicos que há dois mil anos seguem Cristo. Quantas vezes caminhamos com dores, com um aperto no coração e sentimos o amor de Deus enquanto O contemplamos? Um amor que é vivo, que é quente, que é cheio, humilde de coração. Jesus Cristo, o nosso Senhor, morreu por nós na cruz, sofreu mais do que nós alguma vez sofreremos e ainda assim, nos diz para irmos ter com Ele durante o cansaço. E nós, do alto da nossa soberba, não nos dignamos ir ter com Ele.

Atualmente, muitos são aqueles que veem nos seus empregos um dia-a-dia difícil de aguentar; forçando-os, constantemente, a olhar para o relógio, a ver se bate a hora de saída. Muitos são os que têm dias monótonos, sem ânimo, confiança ou capacidades mentais para fazer aquilo que lhes é pedido; mais os que olham para dois e três monitores, cada um aportando mais estímulo do que o outro.

Para solucionar este problema – hoje mais “evoluído” do que o antigamente – Ele deu-nos uma fórmula muito fácil. Esta solução está no princípio deste texto. Basta irmos até Ele. Então porque não vamos todos procurar este abrigo no final de um dia longo e cansativo?

STADA Health Report, publicado em 2025, mediu os dados de saúde em 22 países europeus e concluiu que 66% dos europeus já experimentaram alguma forma de burnout, sentiram-se próximos de tal, ou pelo menos relataram sintomas associados. Nos jovens trabalhadores abaixo dos 34 anos, 75% relataram uma sensação de burnout. São dados muito preocupantes para a atual geração, e que mostram que muitos destes trabalhadores se sentem esmagados pelas suas entidades empregadoras.

Na Magnifica Humanidade, o Papa Leão XIV sublinha a igual dignidade de todos os seres humanos. Passo a citar:

“(…) considero particularmente perigosa a (ideologia) que sugere que o dever de cada pessoa conquistar ou justificar o próprio valor, a ponto de atribuir maior mérito àqueles que são mais eficientes e conseguem maior desempenho. Nesta perspetiva, a pessoa acaba por ser reduzida a um meio para atingir resultados, um recurso a utilizar e explorar, deixando de ser reconhecida por si mesma como um fim (…).” (Magnifica Humanitas, §51)

O que o Papa está a dizer não é que o mérito e a produtividade são algo a temer. Mas que são temas perigosos a partir do momento em que o valor de cada pessoa passa a ser medido pelo que ela produz.

O que o Papa está a dizer não é que o mérito e a produtividade são algo a temer. O que diz é que são, sim, temas perigosos a partir do momento em que o valor de cada pessoa passa a ser medido pelo que ela produz, e não pelo simples facto de estar na terra e ser um filho amado de Cristo. O que o Papa quer avaliar é a cultura atual na qual podemos ser escravos da transição digital (para não falar das outras): uma espécie de escravidão dos sistemas tecnológicos, uma sociedade que não coloca o ser humano no centro, como fim absoluto, mas coloca a vida humana nas margens, servindo a máquina.

O comentário em torno desta nova encíclica tende a ser: “esta é uma carta sobre a inteligência artificial e as máquinas”. Isto está errado; o que Leão XIV escreveu não é uma tese sobre o sistema de IA, mas sim sobre a humanidade. Salientou a enorme importância de devolver ao ser humano as capacidades de criar, de amar, de sentir, e de viver. Não é “sobre IA”. É sobre termos sidos soprados à existência, produtos de um amor sem fim de Deus. O que vamos fazer com isso?

O Papa pede-nos para voltarmos a atribuir à condição humana a sua dignidade, para amarmos os outros e para respeitarmos os seus esforços, sacrifícios e trabalho, e assim nos santificarmos e aproximarmos d’Ele.

O problema está numa liderança que não valoriza o trabalhador enquanto pessoa, mas enquanto dado, enquanto meio e não enquanto fim. “O valor da pessoa não depende do que ela realiza ou produz, pois existem direitos que pertencem a todos simplesmente por serem pessoas. Nenhum poder humano tem legitimidade para, arbitrariamente, os negar ou limitar.” (Magnifica Humanitas, §51)

Caminhando pelas ruas de Jerusalém, Jesus pedia-nos há mais de 2000 anos para sermos a luz do mundo, o sal da terra. Quando o Pai nos pede algo, temos de responder. Contudo, não podemos negar que, nos dias de hoje, custa ser o sal da terra, por exemplo, quando chegamos a casa e nem conseguimos pensar. É difícil ser luz quando não a conseguimos ver.

Sugiro mudarmos de perspetiva. Em vez de olharmos para dois ecrãs na nossa secretária monótona, fazendo um trabalho “sem propósito”, mudemos o nosso olhar. Olhemos para o ecrã pequeno, e pensemos que este é a nossa vida. Sabemos que cansados, temos um lugar onde podemos ir para encontrarmos paz, descanso, amparo. Imaginemos o ecrã grande como O Nosso Pai. Aquele que nos amplia as coisas pequenas, para que possamos ver a imagem de forma maior.

Podemos, todos os dias, encontrar o céu e a terra a convergir na Eucaristia. Podemos encontrar capelas de adoração e beber da fonte da vida eterna, d’Aquele que é “manso e humilde de coração”.

A responsabilidade de mudar a perspetiva do sistema atual está, não só na comunidade política – a quem eu pouco posso dizer – mas também em nós. Tentemos colocar-nos no centro da vida humana, nos nossos trabalhos diários, nas pequenas tarefas que fazemos, utilizando todas as graças e os dons que Ele nos dá. Façamos aquilo que Deus nos pediu: ser sal da terra e luz do mundo. Com Ele, conseguimos, mas temos de assumir que estamos cansados e querer pedir esse descanso. É importante que saibamos utilizar a liberdade que nos foi dada gratuitamente pelo Pai, para o bem comum, como o Santo Padre nos encoraja nesta magnifica encíclica.

Caetana Ribeiro da Cunha

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

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