Ei-lo
A propósito da Sexta-feira Santa, um tema de Samuel Úria para acrescentar elementos à nossa meditação
Tinhas palavras pra calar o mar
E até citavas quem basicamente
Esteve a citar as coisas que vinhas trazer.
Mas o que é que usaste para te defenderes?
Palavras não, nem uma!
E que lição nos dás
Por não responderes?
Eu já lá estava pra te negar,
Mas porque negaste tu próprio a missão
De te defenderes? Eu sei bem que eras capaz.
No vai ou racha foste a rachar
Corpo quebrado... e mudo.
Mas como imitar
Alguém que se calou?
E que lição nos dás
Por não responderes?
Ei-lo, verbo antigo, a suster a voz
Pra que o copo não passasse por nós.
Eis o rei do réus, o agitador
E que lição nos dá mesmo sem falar.
Eras convite, também expulsão;
Tinhas o dedo pra pôr na ferida:
Nalguns pra sarar e noutros pra fazer doer
“Ei-lo, o homem”, “De onde é que vens?”
“Posso soltar-te” só que não.
E que extensão nos dás
Por não responderes!
E que lição nos dás
Por não responderes!