Francisco e Jacinta, crianças que anunciam o céu

Foi-lhes dado a saborear o Céu. Francisco e Jacinta experimentaram o gosto pelo mais belo da existência humana: o encontro com Deus. Através das mãos da 

Senhora cheia de Luz, apreenderam “qual a largura, o comprimento, a altura e a profundidade… a capacidade de conhecer o amor de Cristo” (Ef 3,18) e não mais querer sair dele. Tal como tinham aprendido a gostar do doce e a chamar amargo ao que assim lhes parecesse, agora, depois de experimentarem aquela Luz que lhes penetrara no mais íntimo da alma, aprenderam a apreciar e a distinguir, com mestria, o que tem o brilho de Deus. 

Uma vez sentindo o sabor do Céu, é (sobre)natural que a vida fosse amarga sem essa marca divina. As bolotas da serra, que encontravam pelos caminhos percorridos com o rebanho, serviam bem como metáfora; comendo-as, provavam a amargura do afastamento de Deus que “os pobres pecadores” deviam sentir. Era mesmo porque amargava que Jacinta não perdia a oportunidade de oferecer como sacrifício, “para converter os pecadores”. 

Este simples gesto torna-se sinal de entrega e intercessão por essa humanidade ferida que tanto amavam. Os amuos e caprichos da filha mais nova dos Marto, ou o “não te rales” despreocupado do seu irmão Francisco antes das aparições, dissolvem-se diante do compromisso assumido pela salvação de todos. É preciso que rezem, que rezem muito, porque a oração é força maior que todas as armas. A angústia da guerra que se vivia no início do século XX, bem como todas as inquietações intemporais que habitam o coração humano, o aparente sem sentido do sofrimento e da morte, os próprios limites e a desilusão do mundo, enfim a condição humana clamava pela paz. O Coração Imaculado de Maria surge, em Fátima, precisamente como resposta a esse clamor. Se a um filho que pedisse pão, daríamos pão e não pedra, “…quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que lho pedem!” (Lc 11, 13). O Coração materno da Virgem Maria é-nos dado como refúgio e caminho para Deus. Jacinta abraça esse dom de Deus com o entusiasmo próprio das crianças que se encantam pelo belo e pelo bom, mas também com a maturidade de discípula enviada. Pouco tempo antes de ir para o hospital, onde haveria de morrer, Jacinta dizia à prima Lúcia: “Se eu pudesse meter no coração de toda a gente o lume que tenho cá dentro no peito a queimar-me e a fazer-me gostar tanto do Coração de Jesus e do Coração de Maria!” (III, 130). 

Envolvidos nessa atmosfera, Francisco e Jacinta entram na linha dos amigos de Deus que O escutam e seguem por onde quer que vá. Francisco é o menino fascinado por Deus: “nós estávamos a arder naquela Luz que é Deus e não nos queimávamos. Como é Deus!!! Não se pode dizer!” (IV, 145). Vemo-lo descobrir, comovido, que pode consolar, reparar, comungar este Deus. Lúcia ia à escola, mas ele ficava com O Amigo, na Igreja, como se o tempo e o espaço da sua curta existência na terra não pudessem ter outro fim senão o de estar todo, inteiramente, diante do seu Deus e Amigo. A oração ensinada pelo Anjo e rezada vezes sem conta, “Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-vos profundamente…”, tornou-se o ritmo do seu próprio coração. Cada momento, cada gesto eram expressão de uma vida com Ele. Nunca sem Ele. Até ao fim. Dizia alguém: “parece que se sente, ao entrar no quarto do Francisco, o que sentimos ao entrar na Igreja” (IV, 190). 

A fragilidade e inconstância próprias da infância deixam de caber na descrição destas duas crianças. Pequenos mestres porque aprenderam com a Mestra do Mistério de Deus, Francisco e Jacinta falam-nos de uma vida transfigurada. Enraizados em Deus e no Coração Imaculado de Maria, olham-nos, firmes na fé, com o rosário nas mãos. Nesse desenrolar silencioso e discreto dos mistérios de 

Deus, escondidos no passar de cada pai-nosso e de cada ave-maria, consolam a Deus e transformam o mundo, enquanto o seu próprio coração é moldado até que Cristo seja formado neles. Mais do que ser a oração dos simples, o Rosário é instrumento que simplifica a vida. Assim foi para Francisco, quando em maio soube que teria de rezar muitos terços: “Ó minha Senhora, terços, rezo todos quantos vós quiserdes” (IV, 141). 

Nos santos Francisco e Jacinta Marto, os mais novos da nossa Igreja, a santidade desenha-se com radical novidade, como é sempre típico de Deus. Crianças humildes, surpreendem-nos pela fidelidade de quem nunca aceitou alternativas aos planos amorosos de Deus. Consoladores e intercessores, reconhecidos com gratidão e veneração, são, hoje, ao jeito do Ressuscitado, sinal do triunfo da Vida e do Bem e anunciadores do Céu. 

Ana Luísa Castro, asm e Ângela Oliveira, asm
Este artigo foi originalmente publicado no jornal Voz da Fátima no dia 13 de maio de 2017 

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