Sentido do Corpo de Deus
Tenho na minha memória longínqua imagens luminosas, festivas, coloridas, do desenrolar da festa do Corpo de Deus em Leiria. Da janela da minha casa conseguia ver, na margem oposta do rio Lis, a chegada de grupos numerosos de pessoas que se organizavam em cortejo a meio da Rua de Tomar e seguiam atrás do respectivo pendão em direcção à Sé. Era uma expectativa que ia crescendo, eram os diversos grupos que iam passando, eram as cores vibrantes, os sons festivos, o entusiasmo que se sentia no ar.
Depois, com os familiares, era ver de muito perto a passagem contínua de milhares de pessoas em procissão, de bandas filarmónicas, de pendões e bandeiras, aguardando a solene passagem do Pálio, que uma criança com 5 ou 6 anos percebia perfeitamente ser o momento mais importante sem que fosse necessário explicar-lho.
Um mar de gente, tanto aqueles que se tinham incorporado na procissão, como aqueles milhares que tinham assistido à sua passagem de maneira respeitosa, estendiam-se pelo vasto espaço entre o jardim Luís de Camões e o Banco de Portugal, entre a entrada da Praça Rodrigues Lobo e o Paço Episcopal (cuja fachada permanece intacta) para ouvirem através de uma aparelhagem sonora um pouco roufenha, as palavras que o sr. Bispo dirigia à multidão a partir da varanda.
Estas memórias, com quase 70 anos, permanecem vivas e brilhantes, e recordam igualmente uma pergunta pessoal que surgiu mais tarde, feita interiormente, acerca da razão de ser desta festa designada “do Corpo de Deus”, porque aparentemente ela surgia um pouco fora do contexto da liturgia anual, quase que “vinda do nada”. Porque é que existia este feriado do “Corpo de Deus”? Que sentido é que tinha?
A verdade é que, apesar de sentir o peso da sua importância, a criança, o adolescente que a fazia não tinha tido quem lhe explicasse o que estava na origem e motivação de tão importante manifestação pública de fé.
Essa pergunta começou a ter um princípio de resposta quando descobriu que o nome efectivo e oficial desta devoção é “Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo”. Nessa altura comecei a perceber que “Corpo de Deus” é uma forma simplificada de dizer aquilo que está no cerne da Fé Cristã, algo que está tão profundamente enraizado, que é vivido tão intensamente pelas pessoas, que se sentiu nas comunidades desde há vários séculos a necessidade de a manifestar publicamente de forma reforçada. Esta Solenidade não é, nada mais, nada menos, do que a continuação da Quinta-Feira Santa.
Nesta perspectiva e com este entendimento ajuda-se a compreender que o centro de onde brota toda a vida cristã, de onde nasce a confiança de todo o baptizado, aquilo que é o fundamento de todo o agir de um discípulo de Cristo, aquilo que serve de referência, de bússola, de âncora, de rocha, é o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, aquele que foi instituído pelo próprio Deus Altíssimo na Pessoa de Seu Filho quando disse: “Tomai e comei. Isto é o Meu Corpo.”
Nesta perspectiva, ganha igualmente maior significado e importância o mandamento novo que Ele instituiu nessa mesma ocasião, a Sua recomendação imperativa, o exemplo que tem atraído e transformado a vida de tantas pessoas, a ponto de serem capazes de o replicar na sua própria vida: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei!” Este é realmente o sentido da festa do Corpo de Deus.
Feriado Brites