Quando é que deixámos de reparar?

Sou jornalista, passo a vida a fazer perguntas. Quase sempre obtenho respostas, mais ou menos completas, satisfatórias ou nem por isso, algumas bastante inquietantes até. As perguntas vão-se sucedendo, dando lugar a outras. E depois há aquelas que me perseguem durante muito tempo, que por vezes nem chego a formular em voz alta, e cuja ausência de resposta, ou a intuição de qual ela possa ser, vai pesando cada vez mais.

É o caso desta, que me acompanha há semanas: Quando é que deixámos de reparar?

Não penso nas pessoas sem-abrigo que dormem nas ruas das nossas cidades. Não me refiro às guerras que já são presença habitual nos noticiários ou de tantas outras por esse mundo fora que parecem não ser dignas do prime time. Não falo dos deslocados e refugiados.

Ou também falo. Mas não é daí que parte esta pergunta que agora me persegue. Parte da escola dos meus filhos: um estabelecimento de ensino básico, público, com mais de mil alunos entre o 5º e o 9º ano, como tantos outros na Grande Lisboa.

Nesta escola, testemunhei nas últimas semanas três episódios diferentes entre si, mas que me conduziram a essa mesma pergunta.

A começar por um adolescente desaparecido. Foi numa sexta-feira: o rapaz, a frequentar o 8º ano, foi à primeira aula da manhã, mas faltou a todas as restantes, sem que ninguém perguntasse por ele. Os pais fizeram soar o alarme ao final da tarde, quando perceberam que o filho não tinha regressado a casa e ninguém sabia onde estava. As mensagens começaram a circular nos grupos de pais, alguns organizaram-se para o procurar e, pelo meio da angústia, surgiu uma revelação perturbadora: semanas antes, aquele rapaz tinha partilhado os seus pensamentos suicidas com um colega. Esse colega não tinha contado a ninguém. A criança acabaria por ser encontrada perto da meia-noite, sozinha, numa arriba junto ao mar.

O segundo episódio diz respeito a um menino do 6º ano. Depois de concluídas as Provas ModA (Provas de Monitorização da Aprendizagem), como ainda faltava bastante tempo até às aulas da tarde, foi com os colegas de turma ao skate parque que fica junto à escola. Ao tentar fazer uma manobra, caiu, bateu com a nuca no chão, ficou desorientado, sem perceber bem onde estava nem o que devia fazer. A maior parte dos colegas seguiu caminho para almoçar. Apenas uma rapariga ficou com ele, acompanhou-o de volta até à escola e emprestou-lhe o telemóvel para ligar à mãe.

O terceiro episódio não envolve desaparecimentos nem ferimentos físicos, “apenas” a tristeza discreta de um rapaz que mudou de turma quando passou para o 7º ano. Foi o único a escolher Espanhol quando todos no seu grupo de amigos escolheram Francês, teve dificuldade em fazer novos amigos e descobriu por estes dias que os antigos colegas, com quem procura brincar frequentemente nos intervalos e a quem convida para irem a sua casa, se encontram regularmente fora da escola e nunca o convidam.

Não sei se estas histórias dizem alguma coisa sobre as crianças de hoje, mas suspeito que dizem algo sobre todos nós. Aquilo que vemos nelas não refletirá a educação que lhes oferecemos, os exemplos que lhes damos e as prioridades que lhes transmitimos?

Foi com estes três episódios — e a pergunta — a ecoar na minha mente que um momento aparentemente secundário da recente visita de Leão XIV a Barcelona me encheu de esperança.

Entre encontros institucionais, celebrações cheias de pompa e circunstância e discursos de altas individualidades, foi dado o microfone a um menino de seis anos. Renzo, filho único de uma família apoiada pela Cáritas de Barcelona, tinha escrito uma carta ao Papa e teve a oportunidade de a ler, cara a cara com Leão XIV. Nela, fazia-lhe muitas perguntas: se em criança ele queria ser Papa, se gostava de futebol, mas também porque sofrem tanto algumas pessoas e não outras, porque é que há pessoas que vivem na rua e ninguém as vê e porque é que muitos avós estão completamente sozinhos.

E enquanto muitos se riam com a espontaneidade daquele menino, eu comovi-me. Porque as perguntas de Renzo, na sua simplicidade e desarmante humanidade, continham exatamente aquilo que eu julgava perdido ao longo das últimas semanas: a capacidade de reparar no outro.

Renzo, de seis anos, teve a oportunidade de fazer várias perguntas ao Papa. Foto © Vatican Media

Enquanto os meninos dos episódios que testemunhei pareciam não ter conseguido reconhecer o sofrimento dos colegas, Renzo fazia perguntas sobre pessoas que nem sequer conhecia. Reparava nelas e no seu sofrimento.

Leão XIV levou essas perguntas muito a sério e demorou-se na resposta a cada uma delas.

Aproveitando a alusão ao futebol – que disse gostar de jogar, apesar de agora preferir o ténis – o Papa sublinhou que aquele desporto “nos ajuda a recordar algo muito importante: que a vida não é uma corrida para se viver de forma solitária, é algo que se joga em equipa e é preciso aprender a correr juntos”. E acrescentou: “Nesse sentido, um jogador que pode ser uma estrela, mas que nunca passa a bola, não permite que os outros participem no jogo e provavelmente irá perder”.

Alguns dirão que foi uma resposta demasiado simples ou infantilizada. Mas contém uma verdade profunda sobre o nosso tempo: há muito que aprendemos a competir, talvez estejamos a desaprender a depender uns dos outros. Queremos ir cada vez mais longe, e cada vez mais rápido, sem nos importarmos com quem vai ficando para trás pelo caminho.

De resto, desde o início do seu pontificado, Leão XIV tem regressado repetidamente ao tema do cuidado pelo outro, que atravessa os dois grandes textos que publicou até agora.

Na exortação apostólica Dilexi te, unindo a sua voz à do predecessor Francisco, Leão XIV pede uma Igreja “pobre com os pobres” e alerta para o perigo da cultura do descarte. “Persiste – por vezes bem disfarçada – uma cultura que descarta os outros sem sequer se aperceber, tolerando com indiferença que milhões de pessoas morram à fome ou sobrevivam em condições indignas do ser humano”, alerta o Papa. A certa altura, interroga-se sobre como é possível que, perante a clareza do Evangelho a respeito dos mais vulneráveis, tantos continuem a considerar que podem deixar de lhes prestar atenção. E não se trata apenas de uma interpelação à Igreja Católica. É uma pergunta dirigida a todos nós.

Até porque, verdade seja dita, nunca soubemos tanto sobre o sofrimento humano: as guerras chegam-nos ao telemóvel em tempo real, as tragédias atravessam diariamente os nossos ecrãs. Temos estatísticas, relatórios e números sobre a falta de habitação, o desemprego, a fome, a violência, a depressão, a solidão.

E no entanto… Não basta saber para reparar. Podemos ver sem olhar, conhecer sem compreender, assistir sem nos sentirmos implicados.

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”, escreveu José Saramago no seu Ensaio sobre a Cegueira. E é precisamente contra uma espécie de cegueira que Leão XIV parece insurgir-se quando insiste na necessidade de recuperar uma atenção concreta ao outro, recusando a indiferença que tantas vezes nos leva a passar ao lado do sofrimento alheio sem nos deixarmos verdadeiramente tocar por ele.

A mesma intuição atravessa a recente encíclica Magnifica Humanitas. Numa época que mede quase tudo em função da produtividade, da eficiência e do desempenho, o Papa recorda que a verdadeira grandeza humana não se revela naquilo que alguém consegue conquistar sozinho, mas na forma como reconhece a dignidade dos outros, sobretudo quando estes se encontram mais vulneráveis.

A proposta é desafiante porque obriga a mudar os critérios com que habitualmente avaliamos o sucesso. Preocupamo-nos com notas, carreiras, resultados, desempenho, produtividade. Queremos que os nossos filhos sejam autónomos, resilientes, preparados para um mundo competitivo e exigente.

Tudo isso é importante. Mas talvez haja uma pergunta anterior a todas as outras: Estamos também a ensiná-los a cuidar? A reconhecer o outro como irmão? A olhar além dos ecrãs e durante mais que uns meros segundos? A perceber que uma pessoa vale infinitamente mais do que aquilo que produz, conquista ou consegue demonstrar?

A cultura do descarte não começa apenas quando ignoramos as pessoas sem-abrigo, os migrantes ou os pobres de quem o Papa fala. Talvez comece muito antes, nas nossas casas, nas nossas escolas, quando deixamos de prestar atenção a quem sofre mesmo ali ao lado, quando os nossos filhos já nem reagem se um colega pede ajuda, cai ou fica sozinho.

Talvez tudo comece quando deixamos de reparar. E continue quando nos habituamos a não reparar.

E “reparar” no seu duplo sentido: notar, observar, prestar atenção… mas também consertar, restaurar, restabelecer.

Porque uma coisa é certa: só poderemos reparar o mundo quando voltarmos a reparar uns nos outros.


Clara Raimundo

Sete Margens

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

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