Sagrado Coração de Jesus: História, oração, devoção

(texto de 2023)

Não é um santinho para os devotos, mas «o coração da revelação [cristã], o coração da nossa fé porque Cristo fez-se pequeno», escolhendo «humilhar-se a si próprio e aniquilar-se até à morte» na cruz. Com estas palavras o papa falava o ano passado do Sagrado Coração de Jesus, que em 2018 se celebra hoje, 8 de junho.

Trata-se de uma festa móvel na sexta-feira que ocorre oito dias a seguir ao Corpo de Deus (celebrado originariamente a uma quinta-feira, como em Portugal, mas não em todos os países) e que está intimamente ligada ao dia seguinte, sábado, dedicado ao Imaculado Coração de Maria.

Ainda que a primeira celebração do Sagrado Coração de Jesus remonte ao século XVII, provavelmente no ano de 1672, em França, a devoção tem origens muito mais antigas. O ponto de partida, por assim dizer, é a figura de S. João, o apóstolo que muitas iconografias retratam na Última Ceia com a cabeça apoiada no coração de Jesus.

Um impulso notável acontece depois na Idade Média, de figuras como Matilde de Magdeburgo (1207-1282), Matilde de Hackeborn (1241-1299), Gertrude de Helfta (1256-1302) e Enrico Suso (1295-1366).

Santa Margarida Maria Alacoque

No entanto, a verdadeira difusão do culto é atribuída a S. João Eudes (1601-1680) e sobretudo a Santa Margarida Maria Alacoque (1647-1690); monja no mosteiro de Paray-le-Monial, em França, teve durante 17 anos aparições de Jesus que lhe pedia uma particular devoção ao seu coração.

A primeira visão, quando tinha 26 anos, acontece a 27 de dezembro de 1673, festa de S. João evangelista. A santa, na autobiografia, narra-a assim: «Disse-me: "O meu divino coração está tão inflamado de amor pelos homens e por ti em particular, que não podendo mais conter em si próprio as chamas do seu ardente Amor, sente a necessidade de o difundir por meio de ti e de o manifestar aos homens para os enriquecer das preciosas graças de santificação e salvação necessárias para os tirar do abismo da perdição. Para levar a cumprimento este meu grande desígnio, escolhi-te, abismo de indignidade e de ignorância, a fim de que seja claro que tudo se cumpre por meio de mim"».

Numa das visões, o coração de Jesus manifesta-se num trono de chamas, tendo à volta uma coroa de espinhos, simbolizando as feridas infligidas pelos pecados humanos; o que mais o perturba é que «são os corações a mim consagrados que fazem isto». Pede a Margarida que comungue a cada primeira sexta-feira do mês (sexta-feira foi o dia da crucificação de Jesus) e que a sexta-feira que ocorre oito dias após o Corpo de Deus seja dedicado ao Sagrado Coração.

Foi só com o papa Pio IX, em 1856, que a festa do Sagrado Coração de Jesus se tornou universal, decisão que rapidamente foi acompanhada pela dedicação de congregações, oratórios, igrejas e universidades. A solenidade celebra o coração como órgão humano unido à divindade de Cristo e o amor de Deus pelos homens, de que o coração é símbolo.

A basílica da Estrela

A basílica da Estrela, em Lisboa, a primeira dedicada ao Sagrado Coração de Jesus, nasceu da devoção da rainha D. Maria I. Em 1760, aquando do seu casamento com o infante D. Pedro, a ainda princesa fez um voto ao Santíssimo Coração de Jesus, de lhe erguer uma igreja e convento para as Carmelitas Descalças, se lhe fosse concedido o nascimento de um filho varão, o que aconteceu no ano seguinte. O rei D. Pedro contribuiu para a causa, cedendo os terrenos do Casal da Estrela, na parte ocidental de Lisboa.

Em 1765 o papa Clemente XIII aprovou o culto ao Sagrado Coração de Jesus, embora em âmbito geográfico restrito. Quatro anos a seguir ocorre o início da construção da basílica, que viria a ser sagrada a 15 de novembro de 1789.

No âmbito da "Reforma geral eclesiástica" empreendida pelo ministro e secretário de Estado Joaquim António de Aguiar, foram extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens religiosas, ficando as de religiosas, sujeitas aos respetivos bispos, até à morte da última freira, data do encerramento definitivo. O convento da Estrela foi extinto a 29 de abril de 1885, por falecimento da derradeira religiosa.

Papa Francisco

O Sagrado Coração de Jesus é a «máxima expressão humana do amor divino», declarou Francisco dois dias depois da primeira vez que celebrou a solenidade enquanto papa, 9 de junho de 2013.

«A piedade popular valoriza muito os símbolos, e o Coração de Jesus é o símbolo por excelência da misericórdia de Deus; mas não é um símbolo imaginário, é um símbolo real, que representa o centro, a fonte da qual brotou a salvação para a humanidade inteira», frisou.

Francisco lembrou duas passagens do Evangelho com referências ao Coração de Jesus: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e aliviar-vos-ei. Tomai sobre vós o Meu jugo, e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração» (Mateus 11, 28-29).

«Depois é fundamental a narração da morte de Cristo segundo João. De facto, este evangelista testemunha o que viu no Calvário, ou seja, que um soldado, quando Jesus já estava morto, lhe trespassou o lado com uma lança e daquela ferida saíram sangue e água (cf. 19, 33-34). João reconheceu naquele sinal, aparentemente casual, o cumprimento das profecias: do Coração de Jesus, Cordeiro imolado na cruz, brota para todos os homens o perdão e a vida.»

Para o papa, o «compadecer-se» divino é «o amor de Deus pelo homem, é a misericórdia, ou seja, a atitude de Deus em contacto com a miséria humana», com a «indigência», «sofrimento e angústia» de cada pessoa. Depois,

«Pensemos isto, é belo: a misericórdia de Deus dá vida ao homem, ressuscita-o da morte. O Senhor olha sempre para nós com misericórdia; não o esqueçamos, olha sempre para nós com misericórdia, espera-nos com misericórdia. Não tenhamos medo de nos aproximarmos dele! Tem um coração misericordioso! Se lhe mostrarmos as nossas feridas interiores, os nossos pecados, Ele perdoar-nos-á sempre. É misericórdia pura! Vamos ao encontro de Jesus!», assinalou.

Santificação dos sacerdotes

Na solenidade do Sagrado Coração de Jesus celebra-se o Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes.

Na mensagem preparada para este ano, a Congregação para o Clero, do Vaticano, sublinha que «a Igreja e o mundo precisam de sacerdotes santos». O texto recorda a exortação do papa Francisco sobre a santidade, "Gaudete et exsultate", no passo em que afirma que «a Igreja não precisa de muitos burocratas e funcionários, mas de missionários apaixonados, devorados pelo entusiasmo de comunicar a verdadeira vida. Os santos surpreendem, desinstalam, porque a sua vida nos chama a sair da mediocridade tranquila e anestesiadora».

E precisamente hoje o papa Francisco lançou duas breves mensagens na rede social Twitter: «A festa do Sagrado Coração recorda-nos que Deus nos amou primeiro: Ele nos espera sempre para nos acolher no seu Coração, no seu amor». E, mais tarde, um apelo: «Peçamos ao Senhor que nos dê sempre bons pastores: homens trabalhadores, de oração, próximos ao povo de Deus».

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

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