“Consagração” de quatro bispos leva Fraternidade de São Pio X de volta à excomunhão

Na quarta-feira 1 de julho, a Fraternidade de São Pio X (SSPX), será, de novo, excomungada. A “consagração” de quatro bispos sem autorização do Vaticano determina a excomunhão automática daquela corrente de orientação tradicionalista fundada em 1970 pelo arcebispo Marcel Lefebvre. Por causa da ”consagração” de quatro bispos sem o consentimento de Roma, João Paulo II excomungara, em 1988, Lefebvre e os bispos por ele ordenados. Em 2009, Bento XVI revogou essa excomunhão.

A “consagração” dos novos bispos (o suíço Pascal Schreiber, o americano Michael Goldade e os franceses Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier), é urgente para aquela fraternidade tradicionalista de modo a evitar que a morte dos dois prelados ainda vivos (o suíço Bernard Fellay, antigo superior, e o espanhol Alfonso de Gallareta) conduza à sua extinção, por interrupção de filiação episcopal.

Os quatro novos bispos serão “consagrados” na aldeia de Écône (Suíça), onde a SSPX está sediada desde a sua fundação e onde tem o seu seminário. No seu sítio estão anunciados “quatro dias históricos” que se iniciaram esta segunda-feira, 29 de junho, com a ordenação de cinco novos padres que amanhã celebrarão as suas primeiras missas. Segue-se a consagração dos novos bispos, um dos quais celebrará a “Missa Pontifical” na quinta-feira, dia 2 de julho.

Apesar da inapelável excomunhão, estes quatro dias históricos são apresentados no sítio da fraternidade como dias de grande festa. De acordo com a reportagem do jornalista Iacopo Scaramuzzi de La Repubblicadivulgada em língua portuguesa no sítio brasileiro do Instituto Humanitas Unisinos, “como em qualquer portal de compra de ingressos para um show ou jogo” o sítio (que tem uma versão em português) tem um botão para inscrição onde cada interessado “pode reservar o seu lugar escolhendo a sua categoria (fiéis, clérigos, imprensa ou grupo organizado: paróquia, escola, escoteiros, movimento). Os hotéis parceiros do grande evento são listados — com tarifas preferenciais, é claro”.

E ao preencher a ficha de inscrição é possível comprar lembranças.  “Leve para casa uma recordação deste evento histórico” é a mais impressionante: “uma caixa de presente Cuvée Écône 2026, quatro garrafas de vinho (Pinot Noir, Syrah, Petit Arvine e Fendant), cada uma com um rótulo episcopal: mitra, anel, cruz e báculo. Tudo pelo módico preço de 75 francos suíços (81,33 euros)”.

 

Meio século de conflito

Quatro anos após a fundação da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, regularmente aprovada pelo bispo local, o Vaticano enviou inspetores para avaliar a doutrina ensinada em Écône. Em resposta, Lefebvre publicou um famoso manifesto recusando a orientação daquela que classificou da “Roma de tendência neomodernista e neoprotestante”.

Em consequência, o novo bispo local retirou o reconhecimento à fraternidade (maio de 1975), decisão que o Papa Paulo VI confirmou, suprimindo-a juridicamente. O conflito subiu um novo patamar com a suspensão a divinis de Lefebvre (1976), proibindo-o de celebrar os sacramentos. Mais uma vez, o que estava em causa era a ordenação de padres no âmbito de uma organização sem reconhecimento oficial.

O que afasta os lefebvrianos de Roma ficou claramente expresso na carta aberta de 28 páginas assinada por vários líderes do movimento, incluindo o padre Davide Pagliarani, superior-geral da SSPX, e o bispo Bernard Fellay, seu antecessor e primeiro conselheiro-geral da fraternidade, enviada ao Papa Leão XIV e ao Colégio de Cardeais no dia 24 de junho.

No documento, a fraternidade afirma abraçar “toda a verdade da Fé Católica”, enquanto denuncia os chamados “erros” que obscurecem a doutrina, desfiguram a liturgia e desintegram a “ordem social cristã, prejudicando gravemente a salvação das almas”.

Entre os “erros modernos” apontados pela SSPX figura o ecumenismo, que se baseia na “ideia de que o Espírito Santo não se recusaria a utilizar comunidades separadas como meios de salvação”, bem como “a ideia de que religiões não cristãs poderiam refletir um raio de verdade que ilumina todo o homem, ou que poderiam ser caminhos legítimos pelos quais Deus conduz positivamente os homens à salvação”.

Qualquer uma daquelas duas questões foi objeto de reflexão durante o Concílio Vaticano II e figura nos seus documentos finais. Também a reforma litúrgica desenhada durante o concílio é contestada na referida carta por “se afastar consideravelmente da liturgia tradicional” e “aproximar a expressão litúrgica católica de conceções protestantes”.

Dois outros pontos são ainda evocados nesta dissidência: a sinodalidade vista como uma forma de transformar a Igreja Católica “numa estrutura consultiva, parlamentar ou democrática”, sujeita a opiniões variáveis ​​ou pressões externas; e o conceito de liberdade religiosa, que o Vaticano II considerou um direito fundamental, mas a que a  FSSPX contrapõe o “direito e o dever” dos chefes de Estado de favorecer a Igreja Católica e de se opor a outras religiões e a “falsas formas de culto”.

A carta surge como fundamento da decisão de desobedecer ao Papa no que toca à “consagração” e como resposta ao cardeal Victor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, que se disse disposto a continuar o diálogo com a SSPX, sob a condição da fraternidade suspender a decisão de consagrar novos bispos. Como tal não aconteceu, Fernández afirmou que a consagração de bispos sem mandato papal seria considerada “um ato cismático” e acarretaria a excomunhão.

 

Tradicionalistas à defesa


O atual confronto entre o Vaticano e a SSPX nada ter a ver com a controvérsia em torno da Missa Tradicional em Latim, disse o ex-prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé. Foto © FSSPX

As posições antimodernas dos lefebvrianos são também defendidas, todas ou em parte, por muitos sectores tradicionalistas católicos. Contudo, nenhum dos outros grupos, ou os seus líderes, decidiram afrontar diretamente o Vaticano, desobedecendo às suas imposições.

Um dos opositores mais constantes do Papa Francisco, o cardeal Gerhard Müller, ex-prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, veio classificar, em entrevista ao canal televisivo católico EWTN, a “consagração” de quatro bispos pela Fraternidade de São Pio X, como um ato cismático.

Contudo, o que o cardeal quis sublinhar foi o facto de que no seu entender o atual confronto entre o Vaticano e a SSPX nada ter a ver com a controvérsia em torno da Missa Tradicional em Latim, mas apenas e exclusivamente com uma questão de autoridade.

Para Müller, as “ordenações episcopais realizadas sem o Papa autorizar são absolutamente impossíveis e contrárias à vontade de Deus”, caracterizando aqueles que as realizam como “não católicos ou anticatólicos”. Mas não deixou de criticar como “autoritários” os bispos que proíbem a Missa Tradicional em Latim.

Por seu turno, o Papa Leão XIV aproveitou a celebração da festa de São Pedro e São Paulo para, na oração do Angelusdeste domingo, 28 de junho, recordar que “Pedro e Paulo não podiam ser mais diferentes um do outro, quer na sua formação quer no seu carácter” e, através deles, “o Espírito Santo quis que não se escondam as divergências” chamando a  Igreja a não se deixar orientar “pela vontade de domínio, mas sim pelo desejo de servir, de construir a unidade e a reconciliação”.

E terminou, numa alusão indireta à SSPX, pedindo que “o Senhor nos conceda evitar tudo o que desgasta ou fere a comunhão, perseverando no caminho ecuménico e no diálogo atento e franco com todos”.

Já anteriormente, falando aos jornalistas no dia 16 de junho, em Castel Gandolfo, o Papa Leão dissera que, embora tenha pensado fazer um último apelo para que os lefebvristas mantivessem a comunhão com a Igreja, a decisão de prosseguir com as consagrações “é uma escolha deles”. “Certamente, a divisão entre os cristãos é sempre um ponto doloroso. Mas eles recusam-se a aceitar certos elementos fundamentais da Igreja, a começar por vários pontos do Concílio Vaticano II”, disse o Papa. “Se eles fazem essa escolha, lamento, mas devemos seguir em frente.”

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

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