Miguel Francisco, entrevista antes da ordenação diaconal

Há uma imagem que Miguel Francisco guarda da sua adolescência: a de se sentar ao lado de homens internados numa casa de saúde em Lisboa — homens marcados pela toxicodependência, pela doença mental, pelo abandono — e simplesmente estar. Não fazer nada de extraordinário. Apenas sorrir, conversar, dar tempo. «O sorriso, a simples presença e o tempo dado eram tudo», recorda. Tinha dezasseis anos. E, sem saber ainda nomeá-la, estava já a viver aquilo que mais tarde reconheceria como vocação.

Nascido e criado em Souto da Carpalhosa, no concelho de Leiria, Miguel tem hoje 24 anos e vai ser ordenado diácono — o único da Diocese de Leiria-Fátima desde 2020 — no próximo dia 26 de abril. O dia marca não apenas um momento de vida pessoal, mas também um sinal de esperança para uma Igreja que, nesta Diocese, atravessa um período de escassez vocacional assinalável. O lema que escolheu para o dia da sua ordenação diz tudo sobre o caminho que percorreu e sobre aquele que se dispõe a trilhar: «Estou no meio de vós como aquele que serve».

O verão que mudou tudo

O percurso do Miguel até ao seminário não foi uma revelação súbita nem uma decisão tomada em câmara lenta. Foi, antes, uma soma de experiências que, ao acumularem-se, foram desenhando um caminho. Desde cedo integrado na vida eclesial da sua paróquia — acólito desde o sexto ano, catequista, escuteiro, membro de grupos de jovens —, o jovem leiriense reconhece que, durante muito tempo, a sua participação era «mais um cumprimento de uma escala, ou estar com os amigos, do que perceber verdadeiramente o que ali estava a fazer».

O «clique», como ele próprio lhe chama, aconteceu no verão de 2017. Duas experiências de voluntariado, realizadas em paralelo, foram o catalisador. No Santuário de Fátima, no âmbito do Projeto 7, encontrou pela primeira vez um grupo de jovens com a mesma fé, da mesma idade, «que queriam o mesmo». Na Casa de Saúde do Telhal, em Lisboa, gerida pelos Irmãos de São João de Deus, descobriu que a caridade mais profunda não precisa de grandes gestos — precisa de presença. «O que vamos fazer é conversar, estar, dar-lhes a dignidade de pessoa que merecem», explica, com a simplicidade de quem faz da contenção uma virtude.

Foi também nesse verão que encontrou a irmã Bernadete, religiosa da Aliança de Santa Maria e assistente espiritual do Projeto 7, que descreve como «a primeira pessoa com quem me recordo ter falado da vocação de forma séria e profunda». E foi com ela que começou, formalmente, o seu acompanhamento espiritual.

Do 11.º ano ao Seminário dos Olivais

Em setembro de 2017, aos dezassete anos, Miguel tomou uma decisão que, da perspectiva de muitos, poderia parecer precipitada: comunicou em casa, a 5 de setembro, que queria entrar para o seminário. Entrou a 22 do mesmo mês.

«É natural que causasse algum desconforto e resistência — para os pais é sempre um processo difícil», admite com serenidade. O pai teve mais dificuldade em aceitar a notícia; a mãe, menos. Para a irmã, dois anos mais nova e sua companheira nos escuteiros, «também terá sido difícil no início». Mas o caminho, diz Miguel, foi-se fazendo — e a família foi entrando nele. «Quando um filho entra no seminário, a família acaba por entrar também no caminho.»

A formação iniciou-se em São José de Caparide, perto do Estoril, onde realizou o chamado tempo propedêutico — um «ano zero» de integração, oração e discernimento inicial. «Costumo dizer que todos os cristãos deveriam fazer um tempo propedêutico, porque é aí que se aprende verdadeiramente a ser cristão», afirma. Nesse período, os seminaristas são expostos a experiências que os tiram da zona de conforto: quinze dias no Telhal, uma peregrinação a pé até Fátima por altura do 13 de maio, e uma semana de missão numa paróquia — sem telemóvel, sem dinheiro.

Seguiu-se o Seminário Maior de Cristo Rei dos Olivais, em Lisboa, onde concluiu o mestrado integrado em Teologia na Universidade Católica — cinco anos de formação académica, entre Filosofia, Línguas Clássicas e Teologia, culminando numa dissertação. Nos Olivais, chegou a viver com oitenta seminaristas de muitas partes do país. Essa convivência intensa foi, ao mesmo tempo, o maior desafio e uma das maiores alegrias do seu percurso. «O que mais me custa é, sem dúvida, a gestão comunitária. É muita gente, muitas pessoas diferentes, e aceitar a diferença não é fácil.» Mas é precisamente essa dificuldade que considera formativa. «Acredito que um padre deve ser mestre em relações humanas — e é aí que encontramos as maiores dificuldades e as maiores alegrias nas comunidades.»

De Lisboa leva também amigos de outras dioceses, uma visão alargada da Igreja e da sociedade, e a certeza de que «há cada vez mais jovens a querer seguir Cristo».

Ser diácono: Cristo que serve os irmãos

O diaconado — etapa anterior à ordenação sacerdotal — não é, sublinha Miguel, «um padre menor». É uma vocação específica, com identidade própria. «É uma configuração com Cristo Servo — ‘Cristo que serve os irmãos’ é a síntese da sua missão.»

O diácono age em três dimensões: a caridade, a liturgia e o anúncio da Palavra. Na liturgia, auxilia o sacerdote nas celebrações dominicais, preside a exéquias e a alguns sacramentos, como o matrimónio. Na caridade, é chamado a aproximar-se dos mais vulneráveis — e Miguel alarga o conceito: «Pobreza hoje é muito mais do que dificuldades materiais. É espiritual, é humana.» A imagem que usa para sintetizar esta dimensão é a do lava-pés: «Prostrar-se para servir, para dar dignidade a quem está ferido.»

Mas é o anúncio da Palavra que lhe provoca maior inquietação — e, por isso mesmo, maior entusiasmo. «Como transmitir, com uma linguagem que os jovens hoje percebam, a mesma mensagem de há dois mil anos? Como a tornamos atrativa sem a esvaziar?» São perguntas que não têm resposta fácil, mas que Miguel se recusa a contornar.

No quotidiano, a caridade concretiza-se em pequenas coisas: «Dar a dignidade de pessoa a cada pessoa que encontramos — seja a senhora mais velha que nos aborda na rua, seja o jovem que nos fala, independentemente da condição social ou da idade.» A Casa de Saúde do Telhal continua a ser um ponto de referência; também as Férias para Pais com Pessoas com Deficiência, no Centro Francisco e Jacinta Marto, ligado aos Silenciosos Operários da Cruz, integram o seu percurso de serviço.

Os jovens, a Igreja e a fé «séria»

Com apenas 24 anos, Miguel fala sobre a Igreja com a autoridade de quem nela viveu — e a olha com uma maturidade que surpreende. Não se esquiva das contradições. Quando questionado sobre se a sua percepção de que «há cada vez mais jovens a querer seguir Cristo» não será demasiado optimista, responde com clareza: «É uma percepção baseada em experiências concretas.»

A distinção que propõe é importante: uma coisa é a presença nos sacramentos e na Eucaristia; outra é «o desejo de alguma coisa, a procura de sentido». Muitos jovens, argumenta, andam à procura sem saber onde encontrar. «Hoje vemos o Crisma como porta de saída da Igreja, quando deveria ser porta de entrada. Mas não é porque os jovens não queiram — é porque muitas vezes não temos a capacidade de lhes mostrar. Quando mostramos, eles querem.»

E o que querem, acrescenta, é algo sólido. «Querem uma coisa séria, não uma fé ‘light’.» Aqui reside um dos perigos que identifica na Igreja contemporânea: «Querer tornar a fé demasiado suave para não afastar ninguém, quando o que resulta é o contrário.»

O preconceito em relação à Igreja enquanto instituição existe — Miguel não o nega. Mas também reconhece que, muitas vezes, basta o encontro real para o dissipar. «Depois de fazerem a experiência de que é diferente do que pensavam, a reação é: ‘afinal isto é bom’.» O problema, diz, está na linguagem. «A linguagem de Jesus é uma linguagem de proximidade, de compaixão, de misericórdia. Muitas vezes a Igreja fica presa a uma linguagem moral e doutrinal que, sem antes ter estabelecido a relação com a pessoa, funciona como repelente. Primeiro o encontro com Jesus; depois, a partir daí, construir o caminho.»

Uma diocese em silêncio vocacional

Falar de diaconado em Leiria-Fátima em 2025 é falar também de um contexto de escassez. Miguel será o único diácono ordenado na Diocese desde 2020 — um facto que não esconde e sobre o qual reflecte com honestidade.

«O facto de os padres serem cada vez menos e mais sobrecarregados faz com que o testemunho que se dá seja o de um tarefeiro, não o de um anunciador de Cristo. Ninguém quer ter uma vida a correr sem tempo para as pessoas.» A sobrecarga dos sacerdotes activos tem, segundo ele, um efeito paradoxal: afasta potenciais candidatos ao sacerdócio, precisamente porque o modelo visível não é o de uma vida plena, mas o de um esgotamento permanente.

A isto acresce a ausência de uma pastoral vocacional estruturada. «É fundamental apostar numa pastoral vocacional séria, com pessoas disponíveis — padres, diáconos, leigos formados para o acompanhamento espiritual. Esta realidade é muito pouco existente na nossa Diocese. Sem acompanhamento espiritual, o discernimento fica muito solitário.»

Há ainda a questão da identificação. Miguel recorda o papel do padre José Batista, pároco do Souto da Carpalhosa durante dezassete anos e seu primeiro director espiritual: «Entrou [na paróquia] quando eu entrei para a catequese.» A continuidade, a presença constante, o rosto reconhecível de um sacerdote jovem, tudo isso cria pontes. «Em Lisboa vejo como a presença de padres mais novos atrai — ‘isso também pode ser para mim’, pensam os jovens. Aqui essa possibilidade é muito mais rara.»

Sobre o burnout e a doença mental no ministério — uma «pandemia silenciosa», como lhe chama —, Miguel é directo: «É fundamental saber onde estão os nossos limites e aprender a dizer não. Sem uma vida espiritual regular, sem tempo para rezar, tudo o resto se torna cansaço, correria sem sentido.» E aposta nas unidades pastorais como antídoto ao isolamento: «Fazer com que os padres não vivam sozinhos. O contacto regular com outros padres, a partilha das alegrias e das dificuldades do ministério, é um antídoto essencial contra o isolamento e o burnout.»

Uma consagração total

Nos dias que antecedem a sua ordenação, Miguel prepara tudo «com calma» e a rezar. O lema escolhido — «Estou no meio de vós como aquele que serve» — não é apenas uma citação evangélica; é um programa de vida. «Independentemente da missão que me for confiada, do lugar, estou disponível.»

Faz a analogia com o casamento: «É uma consagração total. É normal ficarmos nervosos.» Mas o que lhe dá serenidade é a concretude da entrega. «A minha entrega é por rostos concretos — não me entrego à Igreja abstrata; entrego-me às pessoas que constituem esta Igreja.»

«Vale a pena seguir Cristo, seja qual for a vocação.»

Para quem, jovem, sinta um chamamento semelhante, Miguel recorre às palavras do seu antigo reitor no Seminário dos Olivais, D. José Miguel: «O Senhor é bom, o Senhor está próximo.» E acrescenta, com a voz de quem fala da própria experiência: «Pensamos que ao entrar para o seminário perdemos tudo — a família, a terra, os amigos. Não. Ganhamos tantas coisas que vale mesmo a pena. Vale a pena seguir Cristo, seja qual for a vocação. Ele chama-nos, e temos que responder com amor.»

Num tempo em que a Igreja debate a sua relevância e a sua linguagem, em que as vocações escasseiam e o cansaço dos ministros é uma realidade incontornável, Miguel Francisco chega ao diaconado sem ilusões mas com esperança. Não a esperança ingénua de quem ainda não viu as dificuldades — mas a esperança activa de quem as conhece e decide, ainda assim, servir.

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

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