"No episódio de Natal de The Chosen, somos convidados a contemplar o nascimento de Jesus a partir do olhar simples e profundo de um pastor. Alguém acostumado a cuidar de cordeiros, a identificar suas marcas, suas fragilidades e, sobretudo, suas imperfeições. Ele sabe que não existe cordeiro totalmente perfeito.
Por isso, o encontro com o Menino Jesus ganha um significado ainda mais forte: ali está o Cordeiro de Deus perfeito, aquele que não veio apenas para nascer, mas para se entregar por amor. O pastor reconhece que aquele bebé envolto em panos é o cumprimento da promessa antiga — o sacrifício definitivo que traria salvação ao mundo.
O presépio já anuncia a cruz. A simplicidade da manjedoura aponta para a grandeza do plano de Deus, que escolhe o caminho da humildade para alcançar-nos. Deus não se revela em primeiro lugar aos poderosos, mas aos que têm o coração aberto, aos que sabem cuidar, esperar e confiar.
Esta reflexão convida-nos a olhar para o Natal com mais profundidade: não apenas como celebração, mas como Encontro com um Deus. Um Deus que se faz próximo, frágil e acessível. Encontro com o Cordeiro que nasce para nos dar a vida.
Que, como aquele pastor, possamos reconhecer Jesus, adorá-Lo com humildade e deixar que Ele transforme os nossos corações. Porque quem encontra o Cordeiro de Deus jamais permanece o mesmo.
Ao ver este episódio de Natal, senti-me profundamente tocada pela simplicidade e pelo silêncio. A intensidade do momento criou um brilhozinho nos olhos, que colmatou em lágrimas envergonhadas, que foram engolidas em silêncio. Emoções de ternura, esperança e também de questionamento surgiram no meu coração. Não é um Natal de espetáculo, mas de encontro. Um Deus que nasce pequeno provoca em mim admiração, mas também desconforto: será que eu saberia reconhecê-Lo assim?
O personagem que mais reflete a minha vida neste momento é o pastor. Alguém que carrega o peso do dia a dia, que conhece limites, cansaço e imperfeições, mas que permanece atento. Nele vejo a minha própria caminhada: imperfeita, mas aberta; simples, mas desejosa de sentido.
O fato de Jesus nascer na humildade e na vida real fala diretamente à minha história. Deus não espera que tudo esteja organizado para entrar, Ele nasce no meio do que é frágil, pobre e inacabado. Também a minha vida, com falhas e incertezas, é um lugar possível para Deus agir.
“Não havia lugar na estalagem”, frase que me faz questionar profundamente. Na minha vida pessoal, questiono se tenho dado espaço a Deus ou se o meu coração está ocupado por pressas, medos e excessos. Na dimensão social, lembra-me dos que continuam sem lugar: os excluídos, os esquecidos, os que não têm voz. No âmbito profissional, desafia-me a refletir se as minhas escolhas são guiadas apenas pela produtividade ou também pela humanidade, justiça e compaixão.
Ser hoje um bom pastor na minha comunidade significa, antes de tudo, reconhecer o Cordeiro de Deus na simplicidade do quotidiano. Significa cuidar, acolher, escutar e testemunhar mais com gestos do que com palavras. Partilhar a Boa Nova é viver de modo que os outros percebam que Deus está próximo, que há esperança e que ninguém está sozinho.
Que, neste Natal, todos nós tenhamos um coração disponível, olhos atentos e passos humildes, para reconhecer Jesus onde Ele escolhe nascer — e para anunciá-Lo com a nossa própria vida.
Ana Sofia Santos

