Madre Teresa de Calcutá
Amar o próximo por causa de Deus
Quando encontramos Cristo no irmão
Vivemos rodeados de pessoas, mas nem sempre conseguimos verdadeiramente encontrá-las.
Passamos os dias entre compromissos, mensagens, trabalho, preocupações e tarefas. Cruzamo-nos com muitos rostos, mas podemos chegar ao fim do dia sem perceber que, muito perto de nós, alguém precisava de uma palavra, de um gesto de carinho ou simplesmente de ser escutado.
Depois, durante a oração, talvez perguntemos:
— Senhor, onde estiveste hoje? Por que não Te senti mais perto?
E talvez Jesus nos responda:
— Estive naquela pessoa que precisava da tua atenção. Estive no idoso que passou o dia sozinho, no familiar que procurou conversar contigo, no doente, no pobre, no esquecido. Passei diante de ti, mas não Me reconheceste.
Santa Teresa de Calcutá dedicou toda a sua vida a ensinar-nos esta verdade: Jesus está presente em cada pessoa, especialmente naquela que sofre e que mais necessita de amor.
Uma vida entregue a Deus
Santa Teresa nasceu em 1910, na cidade de Skopje, e recebeu o nome de Anjezë Gonxhe Bojaxhiu. Cresceu numa família profundamente cristã, na qual aprendeu desde pequena a rezar e a repartir com os pobres.
Ainda jovem, sentiu o desejo de consagrar a sua vida a Deus. Aos 18 anos, deixou a família e entrou para as Irmãs de Loreto. Pouco tempo depois, partiu para a Índia, onde se tornou professora e, mais tarde, diretora de uma escola para meninas em Calcutá.
Durante vários anos, viveu feliz na sua missão de religiosa e educadora. No entanto, no dia 10 de setembro de 1946, durante uma viagem de comboio para um retiro espiritual, sentiu um novo chamamento de Jesus, que ela própria descreveu como um “chamamento dentro do chamamento”.
Cristo pedia-lhe que deixasse a segurança do convento para O servir entre os mais pobres dos pobres.
Depois de um longo período de oração e discernimento, Santa Teresa deixou o convento, vestiu o sari branco com bordas azuis e começou a percorrer as ruas de Calcutá.
Visitava famílias, ensinava crianças, cuidava dos doentes e acolhia pessoas que estavam abandonadas. Não possuía grandes recursos. Tinha apenas algumas moedas, a sua fé e a certeza de que, em cada pessoa sofredora, encontrava o próprio Jesus.
Em 1950, fundou as Missionárias da Caridade, uma congregação dedicada ao serviço dos pobres, dos doentes, dos abandonados e daqueles que já não tinham ninguém que cuidasse deles. A sua missão espalhou-se pelo mundo, mas ela nunca deixou de repetir que o amor começa junto daqueles que estão mais perto de nós.
Reconhecer Cristo escondido
Quando Santa Teresa encontrava uma pessoa doente ou abandonada nas ruas, não via apenas a sua pobreza. Via Jesus.
Naquele corpo ferido, naquele rosto esquecido e naquela pessoa rejeitada pela sociedade, estava Cristo à espera de ser acolhido.
Por isso, ela procurava servir cada pessoa com delicadeza e respeito. Não cuidava apenas das suas necessidades físicas. Procurava devolver-lhe a dignidade e mostrar-lhe que continuava a ser amada por Deus.
Santa Teresa ensinava:
“Não podemos fazer grandes coisas, apenas pequenas coisas com grande amor.”
É esta a beleza do amor cristão. Nem todos somos chamados a realizar obras extraordinárias, mas todos podemos fazer o bem à pessoa que Deus coloca diante de nós.
Amar por causa de Deus significa não amar apenas quem nos trata bem, quem pensa como nós ou quem demonstra gratidão. Significa reconhecer que cada pessoa, apesar das suas fragilidades, continua a ser filha amada de Deus.
Isso não quer dizer aceitar injustiças ou permitir que alguém nos maltrate. Amar também pode significar corrigir, estabelecer limites e dizer a verdade com caridade. Mas significa não permitir que o ódio, a indiferença ou o desejo de vingança ocupem o nosso coração.
As pobrezas dos nossos dias
Talvez Deus não nos peça para irmos às ruas de Calcutá. Mas todos temos uma “Calcutá” muito próxima de nós.
Ela pode estar dentro da nossa própria casa.
Pode ser um filho que precisa de atenção, um marido ou uma esposa que necessita de diálogo, um idoso que espera por uma visita ou um familiar que está a atravessar um momento difícil.
Pode estar na escola, no trabalho, na catequese, na nossa rua ou na comunidade paroquial.
Atualmente, muitas pessoas estão rodeadas de gente, mas sentem-se profundamente sozinhas. Têm centenas de contactos nas redes sociais, mas não encontram alguém com quem possam conversar sinceramente.
Existem pessoas que não têm fome de pão, mas têm fome de atenção, de acolhimento, de respeito e de afeto.
Também estas são formas de pobreza.
Talvez não possamos resolver todos os problemas de alguém. Mas podemos oferecer aquilo que temos: um sorriso, uma palavra, uma visita, uma oração, alguns minutos de escuta ou um gesto de cuidado.
Amar pode começar quando pousamos o telemóvel para prestar atenção a quem está ao nosso lado. Quando respondemos com paciência, mesmo estando cansados. Quando percebemos que alguém está sozinho e nos aproximamos. Quando acolhemos com carinho quem entra pela primeira vez na nossa igreja.
São gestos aparentemente pequenos, mas, quando realizados com amor, tornam-se sinais da presença de Deus.
Da Eucaristia para a vida
A caridade de Santa Teresa nascia da sua profunda união com Jesus.
Antes de sair ao encontro dos pobres, ela encontrava Cristo na oração e na Eucaristia. Depois, reconhecia o mesmo Jesus nas pessoas que servia.
Não podemos separar o altar da vida. Não podemos receber Cristo na Comunhão e ignorá-Lo no irmão.
A verdadeira oração abre os nossos olhos e torna-nos mais atentos às necessidades dos outros. Quanto mais nos aproximamos de Deus, mais aprendemos a olhar para as pessoas com misericórdia.
O próprio Jesus afirmou:
“Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes.”
Santa Teresa levou estas palavras a sério. E a sua vida recorda-nos que Cristo continua a passar diante de nós todos os dias.
Por vezes, Ele vem através de uma pessoa cansada, de uma criança inquieta, de um familiar difícil, de alguém que fala demais porque não tem quem o escute ou de uma pessoa que precisa de recomeçar.
Jesus pode aproximar-Se sem avisar, interrompendo os nossos planos e pedindo um pouco do nosso tempo.
Talvez, por isso, a pergunta mais importante não seja apenas: “Onde está Deus?”
Mas sim:
Quem foi colocado hoje diante de mim para que eu pudesse amar a Deus através dessa pessoa?
Santa Teresa recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1979, morreu em 1997 e foi canonizada pelo Papa Francisco em 2016. No entanto, a grandeza da sua vida não esteve nos prémios nem no reconhecimento mundial. Esteve na fidelidade com que cuidou de cada pessoa como se estivesse a cuidar do próprio Cristo.
Que Santa Teresa de Calcutá nos ensine a amar o próximo não apenas quando é fácil ou agradável, mas por causa de Deus.
Que, no final de cada dia, possamos dizer:
“Senhor, talvez eu não tenha realizado grandes obras, mas procurei reconhecer-Te nas pessoas que colocaste no meu caminho. Dá-me um coração atento, mãos disponíveis e a coragem de amar-Te em cada irmão.”
Santa Teresa de Calcutá, rogai por nós e ensinai-nos a reconhecer Cristo em todos aqueles que encontrarmos.
texto de Marília Ribas