Mensagem de Quaresma Senhor Bispo

Estimados irmãos e irmãs,

Iniciamos este tempo santo de Quaresma bem marcados pelo temporal que se abateu sobre a nossa Diocese e a região centro do país, causando a perda de vidas humanas, de bens e estruturas fundamentais para as famílias e para a sociedade. Por outro lado, nestas semanas, experimentámos também a solidariedade de muitas pessoas e instituições públicas e privadas, que têm envidado esforços para ajudar a reparar danos e renovar a vida e a esperança.

 

1. Em tempos de dificuldade, solidariedade e esperança

É nesta situação que celebramos a Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma. Assumimos as nossas fragilidades, mas igualmente a força que nos traz a fé e a proximidade dos irmãos e irmãs, para percorrer caminhos efetivos de renovação, de solidariedade e de esperança.

O Papa Leão XIV, nesta sua primeira Quaresma como guia da Igreja, aponta três atitudes concretas que devem marcar o nosso caminho para a Páscoa – a escuta, o jejum e o caminhar juntos – que comento brevemente, aplicando-as à nossa situação atual.

 

2. À escuta da voz de Deus e dos irmãos

A primeira atitude é a de Escuta. Escuta, antes de mais da voz de Deus, na sua Palavra. É por ela que aprendemos a conhecer a Deus e a deixar-nos guiar confiantes pela sua proximidade de Pai, que nunca falta com o seu Espírito, sobretudo quando nos sentimos perdidos e aflitos. Colocar-se à escuta desta Palavra, cada dia, é o primeiro objetivo da nossa fé e a luz constante para transformar a nossa vida e guiar-nos nas opções que tomamos na vida.

Nesta Quaresma, somos convidados a tomar a decisão e a assumir o hábito de estar em escuta-comunhão com Deus, pessoalmente e em família, lendo, cada dia, um trecho da Bíblia, deixando que Ele fale ao nosso coração e nos leve a pensar e a agir segundo o Seu coração. Somos especialmente convocados a participar na celebração dominical da Eucaristia, para escutar juntos a Palavra que nos convoca e faz participar ativamente na vida e missão da Igreja. É dessa escuta que nasce a verdadeira solidariedade e a força para superar a crise que estamos a sofrer.

 

3. Jejuando em solidariedade e esperança

A segunda atitude proposta pelo Papa Leão XIV é a do jejum. Não se trata simplesmente da abstinência de algo, mas de uma atitude de libertação, de purificação e de empenhamento concreto, na busca da coerência de vida, de relação e de solidariedade para com os outros. Significa um libertar-se das dependências e do encerramento em si próprio; do comodismo que fecha os ouvidos aos gritos de quem precisa; das tentações de mentira e manipulação que ofendem, dividem e excluem; do egoísmo que reduz os outros ao seu serviço, em lugar de se colocar ao serviço do bem de todos. Assim vivido, o jejum gera, a exemplo de Jesus, atitudes e meios para se colocar ao serviço dos irmãos, na comunidade e no mundo, a começar pelos mais necessitados.

Por isso, diz o Papa Leão: “Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias. Em vez disso, esforcemo-nos por aprender a medir as palavras e a cultivar a gentileza… Assim, muitas palavras de ódio darão lugar a palavras de esperança e paz” (cf. Mensagem do Papa para a Quaresma 2026).

 

4. Juntos na transformação pessoal, da Igreja e do mundo

O Santo Padre sublinha ainda que as atitudes de escuta e de jejum conduzem sempre a uma atitude de vida em comunidade: “juntos”. O Documento final da Assembleia Sinodal de 2024, no nº 50, coloca a conversão das relações como o fundamento da vida segundo a fé em Jesus e a transformação da Igreja: “Para ser uma Igreja sinodal é necessária, portanto, uma verdadeira conversão relacional. Temos de reaprender do Evangelho que o cuidado das relações não é uma estratégia ou o instrumento para uma maior eficácia organizacional, mas é o modo como Deus Pai se revelou em Jesus e no Espírito”. De facto, o chamamento e o seguimento de Jesus têm uma dimensão de discipulado e relacionamento pessoal com Ele, mas também de novas relações entre aqueles que são chamados. O próprio Jesus conduzia aqueles que chamava para o grupo dos seus discípulos que, juntos, haviam de constituir a primeira comunidade da Igreja, após o Pentecostes. A esse grupo inicial de discípulos, Jesus entrega o duplo mandamento do amor, como norma e atitude fundamental dos que o seguem e como critério de credibilidade da Igreja que eles haveriam de formar: “Conhecerão todos que sois meus discípulos se vos amardes uns aos outros.” (Jo 13,35).

A vida da Igreja sinodalcomunhão, participação ativa e missão – tem início nesta dimensão comunitária da fé, que nos faz escutar a voz de Deus e aprofundar os laços de comunhão orante, em Igreja. É dessa escuta orante e da partilha de dons e serviços que o Espírito do Senhor promove, que se alimenta e desenvolve a Igreja e cada um dos seus membros, segundo a graça e o papel a que é chamado. O caminho quaresmal, deve ser um tempo de intensificar esta comunhão ativa que o Espírito gera entre aqueles que recebem o batismo. Que ninguém se sinta ou seja considerado simplesmente como “utente” ou “cliente” da sua comunidade, mas irmão ou irmã corresponsável pela vida e a missão da Igreja.

É neste espírito de comunhão fraterna e corresponsável, fundado no batismo que se alimentam as Unidades Pastorais. Elas alargam e coordenam a comunhão e a missão de cada comunidade/paróquia, para além dos seus limites geográficos e organizacionais. Deste modo, constituem uma rede de relações e partilha com as paróquias vizinhas, para que ninguém, nem nenhum grupo, se isole da universalidade da Igreja, mas a enriqueça com a diversidade da sua vida, em cada Igreja Local (Diocese).

É nesta articulação de comunidades que se forma o povo de Deus, espalhado por toda a terra, reunido no Espírito do Senhor Jesus. É ao serviço desta união sinodal em Cristo, que está o ministério do Santo Padre; um serviço à unidade e à missão de toda a Igreja. Fizemos a experiência concreta deste especial serviço a toda a Igreja, na mensagem paterna/fraterna que o Papa Leão XIV nos enviou nesta hora de tribulação que estamos a atravessar. Agradecemos esta atitude, que mostra uma Igreja de irmãos e irmãs, atentos uns aos outros, onde a responsabilidade e liderança significam atenção e carinho redobrados para com cada um ou a cada grupo, com uma precedência especial aos que se encontram em maior dificuldade. Obrigado, Santo Padre!

 

5. O olhar de Maria no caminho da reconstrução e renovação da Igreja

Maria, Mãe e modelo inspirador da Igreja, conduz-nos neste caminho quaresmal de renovação pessoal e comunitário da Igreja. Na sua visita de 2023, o Papa Francisco, olhando para a capelinha das aparições em Fátima, disse que ela oferecia uma imagem muito bonita da Igreja:  tem colunas seguras e um teto para acolher, mas não tem muros, para que nela todos sejam acolhidos, particularmente aqueles que não têm casa e andam à procura de uma que os acolha, e os ajude nas suas dificuldades.

Com esta imagem no coração, olhamos, em sentido real e simbólico, para a maioria das casas das famílias da nossa região, danificadas pela recente tempestade. É urgente que, com a iniciativa das próprias famílias e a solidariedade de pessoas e entidades públicas e privadas, se possam criar as condições para encontrar o mais rapidamente possível, não apenas as condições estruturais de conforto, mas também o verdadeiro lugar de encontro, carinho e apoio de todos os que nela vivem.

Com o mesmo sentimento de preocupação e empenhamento ativo, olhamos para as casas-igrejas onde se reúnem as nossas comunidades. Quase todas sofreram também danos e muitas ficaram mesmo impróprias para acolher com segurança a comunidade; do seu património móvel, especialmente imagens e pinturas, muitas ficaram também em risco.

Uma dessas foi a Igreja de Nossa Senhora da Encarnação, padroeira da cidade de Leiria. Esta Quarta-Feira de Cinzas, levaremos a imagem da Senhora da Encarnação para a Sé, a igreja-mãe das Igrejas da Diocese. Aqui permanecerá até que haja condições para regressar à sua casa e continue a acolher e abençoar a cidade. É um gesto, também real e simbólico, que deve empenhar-nos a ser uma Igreja que procura casa para quem não a tem ou a perdeu e que se preocupa igualmente – o que já está a acontecer a todos os níveis – em envidar esforços e colaborações para reparar os danos do temporal nas nossas igrejas e, sobretudo, para criar o ambiente de Igreja-família, segundo o acolhimento carinhoso e materno de Maria.

Nesse mesmo sentido somos todos convidados a participar na Peregrinação anual ao Santuário de Fátima, que terá lugar no Sábado, 21 de Março, com o lema “Com Maria, somos testemunhas da Esperança”; peregrinamos com a qual peregrinamos para este Santuário, inserido na nossa Diocese e com dimensão nacional e mundial, buscando inspiração e atitude, na Virgem Maria.

Ainda no mesmo sentido de olhar fraterno e solidário, destinaremos, como já foi anunciado, a Renúncia Quaresmal à ajuda de pessoas e comunidades da nossa Diocese, atingidas pela Tempestade Kristin. Este esforço solidário une-se a tantos outros gestos de partilha e solidariedade que estão a ser coordenados pela Cáritas Diocesana, que tem liderado os esforços de recolha e partilha de meios materiais e financeiros para acudir a quem mais precisa.

A todos agradeço a generosa participação nos esforços para minorar as consequências devastadoras da sucessão dos fenómenos meteorológicos que nos assolaram e peço a bênção do Senhor para o caminho quaresmal que estamos a iniciar.

 

                                                                                † José Ornelas Carvalho

                                                                                 Bispo de Leiria-Fátima

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

Anterior
Anterior

Mensagem do Papa Leão XIV para a Quaresma 2026

Próximo
Próximo

Um grande bem-haja