Mensagem de Natal 2020 do nosso Bispo, Cardeal D. António Marto

O Natal da fragilidade e da fraternidade

O Natal é um dos momentos mais belos do ano, da vida familiar e social e até universal. Mesmo os não crentes podem sentir nesta celebração cristã algo de fascinante, algo que toca o íntimo, um encanto especial que faz aflorar os mais belos e profundos sentimentos. De facto evoca recordações de ternura e bondade suscita a atenção para os valores humanos fundamentais: o dom da vida, a família, a paz, a gratuidade e solidariedade.

Este ano paira sobre esta festa a sombra da pandemia que nos deixa abatidos, ansiosos, com medo, desolados e entristece os nossos corações. Impõe-nos viver o Natal de modo diferente, mais simples e sóbrio. Devemos respeitar as exigências e recomendações sanitárias mesmo adaptando horários compatíveis com o recolher obrigatório. Porém, o vírus não pode extinguir o amor, a esperança e a alegria natalícias. Não renunciaremos às celebrações da fé próprias do Natal.

 

“O Coração do Natal”: Deus na fragilidade da nossa carne

A atual situação é também um apelo a recuperar a verdade do Natal na sua autenticidade e no seu significadotantas vezes ofuscados pelo consumismo e pela festa exterior. Não podemos esquecer o cenário deste momento que traz consigo dificuldades e feridas pessoais, familiares e sociais e que vamos celebrar o Natal dentro de uma experiência de fragilidade. Mais necessidade temos de viver a espiritualidade própria que nos ajude a superar esta pandemia.

Não nos limitamos a comemorar o aniversário do nascimento de Jesus. Celebramos um mistério sempre atual: o mistério de Deus que se fez homem, carne humana, para ser e permanecer Deus connosco. Celebramos um ato de Deus totalmente inesperado: Deus faz-se menino indefeso como quem estende os seus ternos braços para abraçar a todos. Naquele menino torna-se tão próximo de cada um de nós que podemos tratá-lo por tu e manter com ele uma relação de profundo afeto. Naquele menino manifesta-se Deus Amor. Vem habitar a nossa pobreza e fragilidade para partilhar o seu amor, a sua luz, esperança e paz. Deus ama-nos como somos.

Eis porque temos necessidade de celebrar o “coração do Natal”, de lhe dar mais lugar na nossa vida. “Deus vem no meio da pandemia, pega na nossa mão, muda o nosso coração e envia-nos a mudar a situação” (Mensagem da CEP). Quem tem fé nunca está só. E a fé não nos tira os momentos difíceis mas dá-nos a força necessária para os enfrentar sabendo que não estamos sós. Ele é a nossa força.

Não será este tempo propício para nos interrogarmos se abrimos o nosso coração a Deus que vem ao nosso encontro em Jesus? Conhecemos de verdade a Jesus e o seu Evangelho? Seguimo-lo de perto? Comungamos com Ele intimamente, na Eucaristia, as nossas alegrias e dores?

 

A mística da fraternidade: cuidar do irmão

Um dos aspetos mais belos do Natal é a fraternidade universal em Cristo. Revela que todos somos filhos do mesmo Pai e todos irmãos. Por isso, o Natal cristão deve ser celebração do amor fraterno. “Esta pandemia... amadureceu em nós a exigência duma nova fraternidade, capaz de ajuda recíproca e estima mútua. Este é um tempo favorável para «voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo (...)”. Nunca como agora faz tanto sentido falar de fraternidade e amizade social porque todos nos damos conta de que ninguém se salva sozinho. Se a pandemia nos faz sentir irmãos na dor, não podemos deixar de sentir a necessidade de nos tornar irmãos no amor.

O Papa Francisco chama-nos a viver a fraternidade como uma verdadeira mística para reconstruir o mundo dividido por muros de toda a espécie: “a mística de viver juntos, misturarmo-nos, encontrarmo-nos, darmos o braço, apoiarmo-nos... Sair de si mesmo para se unir aos outros faz bem” (EG 87). Para realizar isto, convida-nos a tomar consciência de que “os cristãos não podemos esconder que, se a música do Evangelho deixa de vibrar nas nossas entranhas, teremos perdido a alegria que brota da compaixão, a ternura que nasce da confiança, a capacidade de reconciliação... Para nós este manancial de dignidade humana e de fraternidade está no Evangelho de Jesus Cristo” (FT 277).

Aqui vemos manifesta “a vocação a formar uma comunidade composta por irmãos que se acolhem reciprocamente, cuidando uns dos outros” (FT 96). Sim, o sonho de Deus é que aprendamos a cuidar do irmão sobretudo do mais vulnerável ao jeito de Jesus, Bom Samaritano. Assim, a celebração do Natal não permite que passemos ao lado, indiferentes à pobreza, ao abandono dos idosos ou sós, dos migrantes, dos sem abrigo, dos descartados.

Devemos pois interrogar-nos: “Como podemos nós (como posso eu) oferecer conforto, consolação, apoio, ajuda, partilha, solidariedade, alívio ao sofrimento dos mais frágeis, pobres, marginalizados e necessitados?

 

Um gesto de solidariedade: estender a mão

À interrogação anterior, o Papa Francisco responde com uma expressão sugestiva, interpeladora e inspiradora: “estende a tua mão ao pobre” (Mensagem para o Dia Mundial dos Pobres). Estender a mão, antes de mais, como sinal de afeto, porque a maior pobreza é a falta de ser amado e a incapacidade de amar. Implica também que seja um gesto que dá apoio e sentido à vida. O Papa especifica: “Estender a mão é um sinal: um sinal que evoca imediatamente a proximidade, a solidariedade, o amor. Nestes meses, em que o mundo inteiro foi dominado por um vírus que trouxe dor e morte, desconforto e perplexidade, pudemos ver tantas mãos estendidas”! De seguida enumera muitas dessas mãos estendidas: dos profissionais de saúde, dos responsáveis dos serviços administrativos, dos voluntários, dos sacerdotes, dos homens e mulheres que garantem os serviços essenciais e de segurança, e tantos outros que assumem os pesos dos mais frágeis e vulneráveis. 

Cada um ou cada comunidade procurará identificar uma ação concreta de partilha e solidariedade a realizar neste Natal. O Papa Francisco, recentemente, sugeriu o seguinte: “No tempo de Natal, muita gente pergunta-se: O que posso comprar? Que mais quero ter? Digamos outra palavra, “o que posso dar aos outros?”, para ser como Jesus que se deu a si mesmo e nasceu precisamente naquele presépio”.

Neste sentido, apelo vivamente à participação na iniciativa de solidariedade de Natal “10 milhões de estrelas – um gesto pela paz”, promovida pela Cáritas Nacional e levada a cabo pela nossa Cáritas Diocesana. Cada vela custa dois euros. Do total das verbas recolhidas 65% destinam-se à Cáritas Diocesana no seu trabalho de apoio às pessoas necessitadas. Os restantes 35% são canalizados para o apoio às vítimas da pandemia provocada pela propagação do vírus da Covid-19, concretamente os que estão a sofrer o impacto social desta crise, através do programa “Inverter a Curva da Pobreza em Portugal”.

Na atual situação tem aumentado o número de pessoas carenciadas a bater à porta da nossa Cáritas. Apelo, pois, à vossa generosidade tendo presente a palavra de Jesus “há mais alegria em dar do que em receber”. Ouçamos o grito dos nossos irmãos necessitados.

Não Haverá Natal?

Para terminar deixo à vossa meditação um belo texto de um pároco de Pamplona que ilumina a vivência deste Natal em tempo de pandemia:

NÃO HAVERÁ NATAL?

Claro que sim!

Mais silencioso e com mais profundidade,

Mais parecido com o primeiro em que Jesus nasceu em solidão.

Sem muitas luzes na terra,

mas com a da estrela de Belém

fulgurando trilhas de vida na sua imensidão.

Sem cortejos reais colossais,

mas com a humildade de sentir-nos

pastores e servos que buscam a Verdade.

Sem grandes mesas e com amargas ausências,

mas com a presença de um Deus que tudo preencherá.

Não haverá natal?

Claro que sim!

Sem as ruas a transbordar,

mas com o coração aquecido

pelo que está por chegar.

Sem barulhos nem ruídos,

propagandas ou foguetes...

mas vivendo o Mistério, sem medo

do "covid-herodes" que pretende

tirar-nos até o sonho da esperança.

Haverá Natal, porque Deus está ao nosso lado

e partilha, como Cristo no presépio,

a nossa pobreza, provação, pranto, angústia e orfandade.

Haverá Natal porque necessitamos

de uma luz divina no meio de tanta escuridão.

A Covid19 nunca poderá chegar ao coração nem à alma

dos que no céu põem sua esperança e seu maior ideal.

Haverá Natal!

Cantaremos os nossos cantos natalícios!

Deus nascerá e nos trará a liberdade!

A todos os diocesanos faço votos de Feliz e Santo Natal e Ano Novo com a bênção da fraternidade que nos une numa única família humana!

 

Leiria, 17 de dezembro de 2020.

† Cardeal António Marto, Bispo de Leiria-Fátima

 

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

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