O Cansaço do Clero
Está-se a debater e a comentar, neste momento, dentro da Igreja, o cansaço do clero. Chovem alertas de vários quadrantes e já começam a existir alguns estudos que comprovam que o assunto merece muita atenção. Um bom número de padres manifesta burnout ministerial. Um clero cansado não serve bem e não exerce o seu ministério com qualidade, e não se esquecendo, sobretudo, os graves danos que poderão advir para a saúde física e mental.
É normal haver dias e períodos em que há mais trabalho e se sente mais exaustão. Mas depois descansa-se e recuperar-se. Mas o problema aqui é quando essa exaustão se torna contínua, é quotidiana, e vai arrastando a pessoa para a incapacidade física e mental e até para uma profunda sensação de vazio, falta de alegria e de realização. Exercer o ministério e viver como padre em fadiga crónica, que é o caldo perfeito para se dar um apagão. Nos últimos anos, por falta de padres, os párocos têm assumido cada vez mais paróquias e têm acumulado mais funções e atividades litúrgicas, administrativas, financeiras e sociais. São chamados a exercer vários papéis e serviços ao mesmo tempo e alguns de grande exigência e dedicação. Os padres são uma espécie de canivetes suíços.
Em muitas paróquias os recursos humanos começam a ser limitados (por falta de população, envelhecimento da população, absentismo cristão). Vai sobrando tudo para o padre. Devido ao trabalho excessivo, começa a faltar tempo para o bom descanso, a vida espiritual, a formação contínua e até para o cuidado pessoal, que é fundamental para se viver e servir de forma saudável. Além do mais, persiste a cultura eclesial de que tudo tem de passar pelo padre ou pelo bispo, e que têm de estar presentes em todas as celebrações, atividades e acontecimentos, acarretando, muitas vezes, mais trabalho e horas desgastantes. Exige-se ao padre uma disponibilidade permanente, um sacrifício constante por todas as solicitações que lhe batem à porta, pouco se respeitando a sua humanidade, que tem limites. A médio e longo prazo, é inevitável o cansaço e até o colapso físico e mental.
Ao mesmo tempo, é preciso questionar, quanto antes, uma certa idealização do sacrifício e o elogio da exaustão e da entrega desmedida (quando esta fisicamente já é insuportável) até ao limite na vida da Igreja. Promove-se um certo heroísmo clerical, passando-se a mensagem de que um padre não pode dizer não, nem pode virar a cara às dificuldades e obstáculos que enfrenta, seja de que ordem for. Mesmo que esteja estafado, tem de se doar e lutar sempre, resistir até à última gota do seu suor, mesmo em grave prejuízo para a sua saúde. Hoje sabemos que, neste estado, não se presta um bom serviço ao Povo de Deus e é caminho certo para muitos desequilíbrios e adoecimentos, alguns de grande gravidade. Não é raro, às vezes, escutarmos em muitas homilias o elogio de santos que viveram vidas de grande sacrifício físico e humano, para lá do aceitável humanamente, e indicar isso aos fiéis como exemplo a seguir, sinal de uma amor total e extraordinário, caminho certo para o céu. Isto será aceitável e não será exagerado e até descabido? Um colega, de saudosa memória, já falecido, tinha um joelho em cacos e estava com febre. Mesmo assim, não se negou a fazer o seu trabalho pastoral durante vários dias até que desmaiou numa Eucaristia. O povo foi o primeiro a repreendê-lo: “O que é que o senhor veio aqui fazer nesse estado?” Resposta do colega:” Fomos criados na mentalidade do sacrifício, que tem de se fazer tudo até ao limite pelo bem do povo”. Esta mentalidade, com pingos de heroicidade, fez muita escola dentro da Igreja.
O sacrifício também tem limites e é preciso respeitar a humanidade das pessoas. Tão humanos que queremos ser que nos tornamos desumanos. Por outro lado, também cabe ao padre não viver num ativismo febril (e às vezes este ativismo até é para tapar o vazio e a falta de realização que sente, quem sabe uma fuga ou um escape), saber delegar responsabilidades e trabalhar com os outros e definir prioridades. Respeitar os seus limites e ter boas amizades com os colegas é remedio para muitos desequilíbrios. Ao mesmo tempo, é bom lembrar que um padre não se define só pela sua ação, sendo de evitar o excesso de atividade para se ter reconhecimento e valorização diante dos outros, alimentando-se a perceção de que quanto mais se faz e se aparece, mais respeito e consideração se vai ter do povo de Deus ou da sociedade. Não se deixa de ser um bom padre se não tivermos uma homenagem na vida, um nome numa rua ou uma lápide num qualquer edifício social ou eclesial, penduricalhos que podem distorcer a vivência do ministério.
É um assunto que deve ser refletido com alguma urgência nas comunidades cristãs. Esperemos que a reflexão sinodal, que se está a realizar atualmente na vida da Igreja, aponte novos caminhos e proponha algumas soluções para esta situação eclesial.
Pe. Vítor Pereira, Diocese de Vila Real