Clarissas: Da afirmação «clausura nunca» à opção definitiva pela vida contemplativa
Irmã Cristina Isabel vai fazer a profissão solene no dia 24 de maio, no Mosteiro de Monte Real
A irmã Cristina Isabel Quirino, que se está a preparar para a profissão solene nas Clarissas de Monte Real, recorda como descobriu a sua vocação e como Deus transformou a sua vida “muito serenamente”.
Num texto enviado à Agência ECCLESIA, a religiosa lembra que em criança, quando tinha seis ou sete anos, se imaginava em África em missão no meio das crianças, mas à medida que os “anos foram passando”, começou “a pensar e a idealizar” o matrimónio, “pois gostava de ter vários filhos”.
“Se, por acaso, pensasse em vida religiosa seria vida ativa ou missionária, a vida contemplativa estava muito longe do meu pensamento. Clausura nunca!”, afirmou, acrescentando que o Senhor foi trabalhando em si, sem que se desse conta, “para que quando chegasse o momento”, desse o seu “sim com alegria”.
“Por vezes dava por mim a pensar se iria ser sempre assim a minha vida, casa-trabalho, trabalho-casa saída com os amigos, a “independência”, o carro que me permitia ir para onde quisesse sem dar satisfações a ninguém, e acabava por não pensar muito na vocação”, lembra a irmã Cristina Isabel Quirino.
A religiosa partilha que “sentia um vazio” e que, no meio das inquietações, surgiu uma proposta inesperada, indicando que, “embora frequentasse várias vezes a hospedaria das irmãs em Monte Real”, nunca lhe tinha passado a ideia de “fazer uma experiência na clausura”.
“A descoberta da minha vocação surgiu a partir desse convite que as irmãs me fizeram de passar uns dias na sua casa. Não aceitei o convite de ânimo leve, e ainda fiquei a pensar no porquê desse convite naquele momento. Na verdade, mexeu comigo pois convidava-me a desinstalar-me”, destaca.
A irmã conta que, como não tinha nada a perder, disse sim ao desafio, apesar de pensar que aquele não era o seu lugar e de ainda ter encurtado os dias da experiência: “Em vez de ir no domingo só fui na segunda-feira, e para não regressar no domingo seguinte, regressei no sábado”.
“Contudo foi uma semana surpreendente, sim, porque eu fiquei surpreendida. Todos aqueles ‘filmes’ que fazemos na nossa cabeça de como é ou será a vida religiosa, como será estar num Mosteiro de clausura sempre com as mesmas pessoas, não sair de lá, só rezar, fazer o quê? …tudo se desvaneceu”, relata.
A religiosa confessa ter ficado admirada e encantada com a forma simples como as irmãs viviam o seu dia a dia, mas ao mesmo tempo cheio de amor, de delicadeza e de Deus, realçando que ali percebeu que “nem sabia o que era amar a Jesus”.
“Durante essa semana, num dos dias as irmãs propuseram-me fazer uma hora de adoração diante do Santíssimo Sacramento. Só Ele e eu. Foi o melhor que podiam ter feito por mim”, assegura.
Quando chegou a casa, a irmã explica que já não se sentia a mesma, tinha “um brilho renovado nos olhos e no coração”, assinalando que o seu sim “a esta vocação não foi dado logo de imediato”.
“Eu fiquei inquieta com a experiência, falei com o meu pároco, fiz outros retiros, fui mantendo mais contacto com as irmãs e fazendo um discernimento. Até que chegou a altura que já não podia adiar mais a inquietação que tinha e decidi entrar, arriscar de uma vez por todas”, sublinha.
A irmã Cristina Quirino recorda que se desprendeu “de tudo”, tendo deixado “o trabalho dando o tempo necessário à casa”, entregado o carro, partilhado a sua “decisão com as pessoas mais chegadas”, organizado tudo e entrado confiante em Deus e confiada nas irmãs.
“E não saí desiludida. Foram sem dúvida mestras no acompanhamento da minha caminhada, ajudando e cultivando a formação a nível humano, religioso e espiritual, com o auxílio do Mestre dos mestres, guiada pela mão de nossa Santíssima Mãe, e de seu castíssimo esposo S. José, só podia chegar a bom porto”, refere.
Para a religiosa, estes “foram nove anos de um percurso muito rico, na descoberta da beleza desta vocação”, realçando que a consagração é uma “dádiva de amor”, um “dom de Deus”, em que a resposta só pode ser de amor também.
“Ser consagrada é ser mulher e mãe de maneira diferente. É ter o coração aberto e disponível para acolher todos os irmãos que precisam de chegar a Deus, é levar a humanidade a Deus e Deus há humanidade. A Profissão Solene é a união de duas vontades, a nossa e a de Deus”, evidencia.
Depois de um percurso de nove anos em formação inicial, a Irmã Cristina Isabel, natural do Milharado, em Mafra, emite, no próximo domingo, os seus votos religiosos definitivos, no Mosteiro de Monte Real, na Diocese de Leiria-Fátima, sob a presidência do bispo de Leiria-Fátima, D. José Ornelas.
“Enquanto as pessoas procuram os prazeres do mundo, nós queremos viver em castidade para que o nosso corpo e a nossa alma sejam todos de Cristo. Enquanto o mundo procura as riquezas, nós buscamos a pobreza, vivendo apenas com o necessário. Enquanto a autossuficiência e o egoísmo imperam no mundo, nós procuramos a partilha fraterna e a obediência por amor”, enfatiza.