Combater a acédia na vocação da família

Talvez o remédio para a acédia na vida familiar resida numa reformulação pequena da forma como vivemos e suspiramos a frase: “Outra vez arroz”.

Há uns tempos, no contexto de uma semana de Exercícios Espirituais, foi-me apresentado um mal com características que me eram familiares, simultaneamente imobilizadoras e inquietantes, mas cujo nome não conhecia: acédia.

Internamente, a acédia produz a sensação de apatia e inatividade relativamente às coisas de Deus. Leva-nos a encarar a monotonia com tédio, e desencadeia uma reação de abandono e descuido face às boas obras do quotidiano, que ganham aparência de inutilidade e de “poucochinho”.

Paralelamente, este mal gera uma inquietação que dá voz urgente à vontade de mudar de cenário, de fugir da realidade da rotina, e que resulta muitas vezes num ativismo desprovido de sentido. Esta busca por distrações acumula funções: permite evitar o confronto com o vazio interior, ao mesmo tempo que camufla a falta de perseverança face às dificuldades e ausência de consolação que podem vir da rotina (ainda que as próprias atividades que constituem essa rotina possam ser o bem que somos chamados a fazer).

Outros dois termos comuns utilizados para designar a acédia são o “pecado dos monges” ou “o demónio do meio-dia”. Esta experiência interna é já descrita e vista como um mal próprio da vida contemplativa desde a tradição dos padres do deserto. O meio-dia representava o horário mais crítico para estes ermitas, que, após o período da manhã, cansados da rotina, expostos ao calor intenso, e com ainda muitas horas do dia pela frente, eram assaltados pela vontade de abandonar a oração, a cela, e até a sua vocação.

Este mal gera uma inquietação que dá voz urgente à vontade de mudar de cenário,
de fugir da realidade da rotina, e que resulta muitas vezes num ativismo desprovido de sentido.

Para fazer frente a esta tentação na vida monástica, a regra beneditina propõe uma resposta de persistência e constância. Se a acédia impele o monge a ficar na cela ocioso, sem qualquer atividade, este deve ocupar-se com trabalho manual concreto. Se esta, por outro lado, o leva a sair constantemente e a ir encontrando pretextos para se ausentar da vida quotidiana, este deve permanecer e reforçar a oração na sua cela. De forma resumida, estes princípios beneditinos ficaram cristalizados na frase “Ora et labora”.

Ler sobre este tema levou-me a ponderar que formato poderia a acédia tender a assumir na vida de uma pessoa com uma vocação diferente. O que poderá ser o “pecado dos monges” manifestado na vida de um leigo com vocação para a família?

Considerei que, da mesma forma que a vida orante é o que traz ao mesmo tempo sentido e monotonia, e subsequente tentação à vocação contemplativa, talvez a vivência daquilo que mais gera significado, mas provoca também grande parte da repetição no dia a dia familiar, seja onde este mal vai procurar abrir caminho.

Os rituais familiares são os momentos de relação, pequenos e grandes, que fazem parte da vida de cada família. Abrangem um leque vasto de circunstâncias, incluindo celebrações (eg: casamentos, batizados, etc), tradições familiares (eg: Natal, todos os anos passar férias naquela semana de agosto naquele sítio, etc), e interações do dia a dia (eg: jantar todos juntos, a hora de dar banho, a conversa no caminho a voltar da escola, etc).

Todos estes tipos de episódios, pela carga afetiva e simbólica que carregam para os membros da família, promovem o desenvolvimento de práticas e crenças comuns, de identidade e de coesão familiar. São também fatores altamente protetores para a qualidade de vida e resiliência familiar. Assim, no sentido de criar, educar e pertencer a uma família de forma plena, isto é, de viver com profundidade a vocação para a família, cuidar destes momentos torna-se incontornável.

Por definição, a quantidade de rituais familiares que consistem em interações do dia a dia é substancialmente superior a qualquer outro tipo de ritual familiar. Todos os dias e várias vezes por dia surgem oportunidades para participar nesses momentos. A coleção de todos eles forma a rotina quotidiana da família.

Esta dimensão apresenta, também por definição, muito potencial para ser fonte de monotonia. O mesmo jantar, no mesmo lugar da mesma mesa, com o mesmo cheiro a sopa, as mesmas birras do mesmo filho, as mesmas zangas e pazes, as mesmas perguntas de como correu o dia, etc. De forma resumida, estas inevitáveis repetições caseiras ficaram cristalizadas na frase “Outra vez arroz” (habitualmente dita entre dentes).

O mesmo tipo de vontade de fugir, por via do entorpecimento ou da excessiva atividade paralela, que assombrou primeiro padres do deserto e depois monges, encontra a sua via de entrada nestes momentos chave da vida familiar. Facilmente surge a vontade de trocar o terceiro jantar à mesa da semana por um jantar com uma amiga que está a passar um mau bocado. No quarto jantar à mesa dessa semana ficou marcada reunião de CVX. Calhou depois que, no quinto jantar, um tio ligou a pedir ajuda com os cabos da internet, e, quando uma pessoa repara, já passou uma semana a faltar àquele pequeno ritual.

Fazer frente ao “demónio do meio dia” não é tarefa fácil por vários motivos. Em primeiro lugar, pede o discernimento importante que permitirá perceber se se trata de um mal espiritual, ou se tem também uma causa orgânica, e que precisa de ser tratada, como a depressão ou a ansiedade. Por outro lado, por poder assumir tantas faces diferentes de bem: a participação em muitos voluntariados, a entrega total ao trabalho, a companhia a outros, facilmente passa despercebida como o verdadeiro motivo do vazio e de aridez que vai ganhando terreno no centro de uma pessoa.

Face a isto, proponho a mesma solução beneditina, mas aplicada à família. Se a tentação perante a ausência de motivação para cumprir o ritual é a de cair no desleixo e na incapacidade de ver nele valor, pode ser bom ser o primeiro a oferecer-me para fazer o jantar cuidadosamente, e pôr uma mesa bonita.

Se, por outro lado, a acédia me leva a estar sistematicamente fora, a não participar nas rotinas da família, ou a procurar constantemente formas diferentes e fora da caixa de sair da rotina e levar todos comigo, então a solução pode passar por ficar mais por casa, garantir que pelo menos alguns destes rituais são intocáveis no meu plano do dia, e que há coisas na família que merecem a repetição, independentemente da minha motivação. Talvez o remédio para a acédia na vida familiar resida numa reformulação pequena da forma como vivemos e suspiramos a frase: “Outra vez arroz”.

Carolina Picciochi Lemos Caldas

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

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