Igreja fraturada

“O pior será se se põe a convocar um Concílio. Como as coisas estão, lá se vai o que resta do Concílio Vaticano II…”. Perante o ânimo renovador expresso pelo Papa Francisco logo após a sua eleição, não foram poucos os católicos conciliares que, olhando o estado de coisas em que os dois anteriores pontificados tinham deixado a Igreja, temeram os eventuais resultados de uma nova assembleia magna da Igreja Católica. Não houve concílio, houve um sínodo. Um sínodo muito especial. Mas, quebrado o impulso deste, as fraturas dentro da Igreja Católica estão expostas à vista desarmada. Que futuro antecipam?

Na verdade, por mais que a pergunta inquiete muita gente dentro e fora do catolicismo, as tentativas de resposta não abundam. Esta instituição não se move do mesmo modo que outras. As diferentes correntes que a habitam não se apresentam organizadas atrás de um chefe-de-fila. Algumas têm agendas próprias, recursos financeiros avultados, muitos média a trabalhar para o “bem da causa” e organização bem estruturada. Mas nem assim podem desvelar os seus desígnios últimos, sob pena de perderem apoios e seguidores. O jogo de sombras impõe-se também às fações mais aguerridas.

Os estudos sociológicos, a análise ideológica e outras componentes do que poderia favorecer a caracterização e o conhecimento científico deste universo são escassos. Em Portugal, conhecem-se os trabalhos das equipas coordenadas por Alfredo Teixeira e pouco mais. Resta a história, a investigação sobre o trajeto multiforme da Igreja no passado e o intrínseco debate a propósito desse saber suscetível de controvérsia.

E depois… há o Espírito Santo, esse “intrometido”, sempre capaz de trocar as voltas a qualquer analista e de baralhar previsões e cenários futuros. Tudo se conjugando para que a academia evite investigar e identificar eixos, comportamentos, vetores e processos relevantes na escrita e no desenho do futuro desta instituição. Sem conhecimento que permita uma caracterização mínima do presente, como antecipar um provável amanhã?

Em Portugal, a ignorância sobre quem são, como se caracterizam, se conhecem, ou não, a Bíblia, até que ponto seguem o prescrito pelo magistério, como se distribuem espacialmente e como se organizam os católicos não tem limites. É uma ignorância embaraçosa.

Planos, projetos e prioridades pastorais são desenhados na decorrência direta da identidade da Igreja, sem serem mediados pela realidade social e eclesial. Alguma vez tendo em conta aquela, quase nunca pensando a partir desta. O conhecimento empírico, as carências da própria estrutura, a imitação do que outros fazem e a imutável definição da missão da Igreja chegam bem para determinar o “que fazer” futuro – que importa a realidade? Uma lástima!…

 

Normalização: retorno ao passado

Porém, as fraturas estão por todo o lado. Não tanto, nem principalmente, as que surgem nos média laicos. É verdade, alastra a divisão sobre se as mulheres devem, ou não, ser ordenadas, se os divorciados recasados ou os homossexuais devem ser tratados tal como todos os outros católicos, se o aborto deve ser criminalizado, se os casais de pessoas do mesmo sexo devem, ou não, ser abençoados.

Mas não é certo que os que se encontram na defesa de uma mesma posição sobre um daqueles temas se voltem a encontrar no tema seguinte. Este tipo de fraturas não produz necessariamente dois blocos de contornos bem delimitados. São temas que dividem, mas não em linha reta, identificando dois campos distintos. Constroem antes linhas de separação ziguezagueantes. E, como vem sendo costume na Igreja sobre temas semelhantes, os que mais fortemente fazem ouvir a sua voz a favor ou contra não se comparam em número aos que guardam em silêncio as suas opções.

Diversidade, pluralismo, diferentes vocações. A Igreja Católica tem muitas palavras e conceitos para conviver com um vasto leque de comportamentos díspares no seu interior. Mesmo numa Igreja como a portuguesa em que imperou (com raras exceções) um unanimismo feroz alinhado com a ditadura, aqueles conceitos são referidos como sendo constitutivos e “verdadeira riqueza” da comunidade católica. E servem às maravilhas para evitar confrontos, conflitos e cristalização de oposições.

Mais difíceis de captar pelos média tradicionais são os grupos eclesiais que divergem no que querem e esperam da Igreja. Expectativas e quereres que se desenham agora, neste período de refluxo do processo da sinodalidade, com maior clareza. Não há nenhum cisma à vista, mas há modos divergentes de ser Igreja e de nela viver. Cada vez mais divergentes, mais enclausurados nos seus ritos, espiritualidades e especificidades.

Em Portugal, a esmagadora maioria do clero tratou de ignorar, ou de controlar com a ajuda dos “fiéis do costume”, as potencialidades transformadoras do processo sinodal. Agora que a repetição constante da palavra sinodalidade a esvaziou de toda a novidade, tudo converge para o regresso à normalidade, i. e., às coisas tal como estavam antes, ao “sempre foi assim” seguro que o Papa Francisco já criticava na Evangelii Gaudium.

Há, porém, um resto que tomou o gosto por uma nova forma de viver em Igreja caracterizada pela comunhão, participação, partilha de responsabilidades dentro e fora do espaço eclesial. Um resto minoritário ao qual uma Igreja dispensadora de sacramentos dirigida em todos os aspetos da sua vida pelo padre e o seu grupo de fiéis do costume não satisfaz. Não satisfaz nem responde ao que estes católicos julgam ser a Igreja desejada por Jesus Cristo, quer enquanto comunidade quer enquanto missão no mundo.

Até onde chegará a polarização destas tendências divergentes? Que relação se estabelecerá entre os que preferem uma Igreja mais hierárquica e sacramental e os que procuram comunidades mais horizontais comprometidas com o acolhimento de quem, por diversas razões, sente viver na periferia? A distância e o distanciamento não sugerem aqui conflito. Ficam-se por isso mesmo: caminhos divergentes, sem reivindicação de legitimidade única.

 

A política às avessas

Tal como os católicos conciliares temiam a convocação de um concilio no início do pontificado do Papa Francisco, também nos países ocidentais os democratas temem cada vez mais a realização de eleições. Inesperada contradição nascida do constante crescimento das forças políticas antidemocráticas em sucessivos atos eleitorais. No próximo mês, as eleições intercalares nos EUA e as antecipadas em Espanha logo nos dirão como se movem os eleitorados destes países e que antecipação permitem fazer do que se passará em França nas próximas presidenciais de abril de 2027.

À incógnita dos resultados sobrepõe-se uma certeza: nos últimos anos, o voto católico deslocou-se para a extrema-direita mais depressa do que o voto dos restantes cidadãos. Em Portugal não o sabemos. Mas sondagens, inquéritos e vários estudos eleitorais sugerem que em Espanha e em França a percentagem de católicos que votam em partidos de extrema-direita supera o resultado global por eles obtido.

O espectro político dos EUA é diferente, mas também aí o voto católico tem vindo a preferir Trump e os seus amigos. O que significa apoiar a expulsão violenta de imigrantes, o confronto e perseguição permanente aos que “não pensam como nós”, a abolição dos apoios aos mais pobres quer dentro quer fora do país, o aumento da despesa em armamento, a agressão à salvaguarda da casa comum e subscrever a defesa do enriquecimento dos mais ricos. Tudo opções anticristãs.

Apesar das críticas e confrontos que vários bispos (e a Conferência dos Bispos Católicos dos EUA) têm desenvolvido contra a atual administração, nomeadamente no que diz respeito à expulsão de imigrantes, os católicos brancos continuam a manifestar um grau de aprovação da gestão do Presidente Trump superior ao do conjunto dos eleitores americanos.

Um inquérito nacional conduzido pelo Pew Research Institute divulgado no dia 13 de outubro mostra que 39 por cento dos católicos brancos continuavam a aprovar a ação do seu Presidente, enquanto apenas 30 por cento dos americanos maiores de 18 anos partilhava dessa opinião favorável. Mas, por outro lado e refletindo a complexidade própria do eleitorado norte-americano, a aprovação de Trump baixava para uns exíguos 18 por cento entre os católicos hispânicos.

Em Espanha, uma sondagem do Centro de Investigaciones Sociológicas publicada no final de setembro indicava que os católicos praticantes escolheriam o PP (40,2%), o PSOE (16,9%) e só depois o Vox (14,7%). Estes valores não são comparáveis com os resultados que outras sondagens publicadas atribuem àqueles três partidos, pois contabilizam apenas as respostas diretas, sem rebater indecisos e não votantes. Aplicando tal método, a percentagem de católicos praticantes eleitores do Vox supera os 18,9 por cento que várias sondagens apontam como o resultado provável deste partido de extrema-direita nas eleições legislativas de 29 de novembro.

Em França, já em 2022, na primeira volta das eleições presidenciais, 40 por cento dos eleitores que se disseram católicos votaram em candidatos da extrema-direita, o que compara com os 32 por cento que estes candidatos obtiveram. Ou seja, a preferência por candidatos chauvinistas, anti-imigração e securitários é maior entre os católicos do que no conjunto dos cidadãos eleitores.

O voto tem múltiplas motivações, nunca suscetíveis de serem reduzidas a uma única. Contudo, estes dados evidenciam com clareza uma outra clivagem entre católicos: o magistério, os Papas e a hierarquia pugnam a favor dos migrantes; uma boa parte dos fiéis escolhem dirigentes políticos que os querem expulsar. O mesmo se passa em outras matérias sociais. Até quando se acomodarão sensibilidades tão antagónicas?

Antever o futuro próximo desta instituição que organiza e arrasta multidões, mesmo em países laicos, como se viu recentemente durante a visita do Papa a França, não parece fácil. Mas, mesmo assim, valeria a pena que os seus responsáveis cuidassem de conhecer melhor a realidade da comunidade a que presidem.

| 15/10/2026

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

Próximo
Próximo

Combater a acédia na vocação da família