Cada macaco no seu galho

Estes dias a liturgia tem trazido palavras duras de ouvir, aquelas que fazem soar um alarme de aflição naquele cantinho recôndito do cérebro.

Fala de fundar a casa em rocha firme, a rocha firme da vontade do Senhor. Choca ouvir:

“Senhor, não foi em teu nome que profetizámos e em teu nome que expulsámos demónios e em teu nome que fizemos tantos milagres?

-  Então lhes direi bem alto: ‘Nunca vos conheci. Apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniquidade”

 

Então, mas... como pode ser? Expulsar demónios em nome do Senhor e Ele não nos conhecer...?

Pode-se viver uma vida inteira de apostolado e O Senhor não nos conhecer? Ou nós não O conhecermos a Ele...?

 

E nem tem de ser um erro de malícia. Poderia ser a busca do ego, da vaidade, do sentir-se grande. Bem sabemos que há quem goste que se lhe beije a mão e que os há por aí a forçar a mão beijada e que se lhe chame doutor. E também sabemos que há quem ache o seu valor lhe advém do título, da fama e do reconhecimento.

Mas pode ser até excesso de zelo. Mais que a conta, mais do que O Senhor pede e com isso perdermo-nos num ativismo desenfreado, qual Chapeleiro Louco do País das Maravilhas, da nossa amiga Alice.

O que é que vossemecê me quer(afinal?!)?” perguntaria a jovem Lúcia de Jesus. 

A resposta vem este fim de semana: “tome a sua cruz e siga-me.”

 

Esta semana os irmãos da Alemanha voltaram a fazer manchete, agora querem leigos a fazer homilias na missa. Porque há, defendem, leigos que fazem tão bem ou melhor que o padre. E deve ser bem verdade, mas não se trata só de uma questão de formação profissional, é o ministério, é o sacramento, é o padre que tem o múnus de agir in persona Christi. É o tesouro do ministério ordenado a quem foi confiado o governo da igreja. (não é poder, é serviço)

Ah, mas há padres que são velhinhos e já não estão em condições de pregar bem”.

Então e têm condições de presidir?

E de vocações, não falamos? Dizem que por lá os católicos já são apenas 23% da população. E a solução parece ser substituir os padres por leigos. Esta semana na homilia, noutras semanas a proposta passa por mais ministérios laicais. 

Então e ninguém pergunta por que motivo os jovens fogem? É tudo culpa do padre?

É aqui que entra o risco da vaidade e outros que tais. 

Depois vem a malta dizer que em Portugal também já se faz. Vai-se a ver e afinal era uma partilha após a homilia do padre... 

 

Parece que soa tudo ao mesmo: diante da proposta desafiante da tradição fazemos aqui uma coisa nossa. Fazemos à nossa maneira. Uma versão mais simples, mais fácil. É como eu, nos sites de partituras de guitarra: tem sempre uma opção “simplificar”. A música soa ao mesmo, parece... mas nunca é a mesma coisa que escutamos no artista original. Simplifica-se tanto que se estraga a música toda. E a beleza original, a que dá arrepios, comove e toca o coração, fica cada vez mais longe. 

Porque é mais fácil simplificar do que aprender a fazer bem.

 

“Tome a sua cruz, siga-me”. Atrás de Jesus, os nossos passos nos passos Dele, ainda que devagarinho.

Há muito que pode/deve mudar sim, mas para ser mais fiel ao Evangelho, não mais fácil.

Se não há miúdos a colocar a questão vocacional o problema é muito mais profundo e duro de aceitar.

E é bem verdade que a falta de padres nos obriga, tem obrigado, a pensar fora da caixa, fora do costume e tem obrigado a puxar pelos leigos, pelos ministérios laicais. Não para substituir o ministro ordenado, que é chamado a ser configurado a cristo cabeça[1], mas porque o padre não tem de fazer tudo, nem tudo tem de depender dele. Esse foi um erro que vem, novamente, da tentação do costume: é mais fácil assim: o senhor padre é que sabe, é que dá a cara e assume a responsabilidade toda. 

E se fosse: cada macaco no seu galho, não parece simples?

Abandonar o estilo de prestação de serviço, agendar sacramentos à pazada sem questionar, sem propor caminho. Baptismos, casamentos, crismas para ser padrinhos. Aceitamos tudo com medo de ficarmos poucos?

Ah, mas temos de acolher! E acolher a todos sem critério, sem garantir o mínimo de verdade naquilo que se propõem assumir, ajuda? Não corremos o risco de banalizar o que para nós é sagrado? Ou temos medo de ofender e por isso baixamos a bitola da verdade e da missão que nos foi entregue?

 

Dizia-me o padre Adelino há umas semanas: “a gente faz o funeral, chama-lhes irmãos e já nem sabemos se baptizados eram”. Já nem estamos a falar de católico mais ou menos praticante... 

Não temos feito um bom serviço à igreja. Corremos seriamente o risco de um dia o bom Jesus dizer que não nos conhece.

E cairemos por terra, porque tanto corremos, tanto nos esforçamos, mas esquecemos o que Ele nos dizia e pede ficou algures perdido nas curvas do caminho.

 

Agarremos a cruz que nos é confiada, a missão como ela é, Ele prometeu que estaria sempre connosco até ao fim dos tempos.

 Pe. Patrício Oliveira

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[1]Pastores dabo vobis PT 21

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

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