O peso da vida

“Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve”

 Esta frase bate-me sempre. A ideia de carga leve parece-me sempre apetecível, comparado com o peso que sinto sempre, eu e toda a gente. Alguém conseguirá uma vida despreocupada e leve? A malta do Instagram não conta, aí somos todos bonitos.

Acho que no fundo tenho alguma vergonha de dizer em voz alta que seguir O Senhor não me parece que seja assim tão fácil e leve.

Vencer-me, a mim e aos meus pecados de estimação, não é tarefa simples.

Veem-me à memória a célebre frase do Confúcio: “Escolhe um trabalho de que gostes e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida.”  Sim, fico confúcio das ideias, sinto sempre que estou a fazer alguma coisa mal, o erro deve ser meu, seja com Cristo, seja no que diz o Confúcio.

que dou comigo a sentir sempre peso.

Não é que ande contrariado, ou infeliz, só não é fácil, não me parece nunca um passeio pelo parque.

Nestas alturas, penso sempre para comigo: O Senhor tem sempre razão, tu é que estás a ver mal a coisa!

Tenho ali a mochila que me acompanhou nas aventuras de Santiago. Foi, para mim, sempre uma imagem bonita e muito acertada da vida.

Uma semana com a casa às costas e a malta fica doida! E se falta alguma coisa. Culpo o MacGyver e a ideia utópica que ele nos colocou: estar sempre preparados para tudo!!

Não dá. E então lá atafulhamos a mochila com mais isto e mais aquilo.

E até usamos aquelas coisas modernas de microfibra, que ocupam pouco espaço, e os casacos impermeáveis que se dobram em si mesmo no próprio bolso... mas o espaço enche e o peso acumula.

Não significa ir de mãos nos bolsos ao “Deus dará”, tantas vezes num exercício de falsa confiança na divina providência. Trata-se de levar o mínimo essencial.

E aí é que está o segredo, levamos aquilo que precisamos mesmo, nem mais nem menos, como diria o padre Adelino, a propósito da quantidade de malagueta que se coloca no molho da comida: o que é preciso, nem mais nem menos.

 

Talvez façamos o mesmo com a vida, carregamos demasiado. O peso do pecado, do que foi e não volta a ser, ou do que foi e não é mais; as ansiedades, o desejo de controlar tudo, ou de saber tudo... enfim. Vocês sabem.

 

Talvez o jugo de Jesus seja assim: nem mais, nem menos, o peso certo. Nem muito, nem pouco, o que precisamos para a vida.

Para uma vida livre, não necessariamente fácil, mas livre, com o essencial necessário, que nos permite desfrutar da viagem, sem estar sempre a perguntar: “já chegámos?!?!?”

 

Talvez Jesus queira justamente que façamos a mochila da forma certa, afinal de contas é tudo para pendurar ao pescoço, mochila, jugo, canga... ajudam a carregar o peso da vida, que não é boa, nem e má, é o que é!

 

Pe. Patrício Oliveira

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

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