Caríssimo Papa Leão
Caríssimo Papa Leão,
Chamo-me Nunzia e escrevo-lhe de Laufenburg, Suíça.
Filha de pais imigrantes, nasci e cresci aqui. Aos 50 anos preparei-me para ser catequista e já levo 10 anos que dou catequese do 1º ao 9º ano, de preparação para os sacramentos da Primeira Comunhão e do Crisma. Gosto de recontar e transmitir a nossa fé. A curiosidade das crianças e as incertezas dos adolescentes apaixonam-me na medida em que me obrigam a estudar para dar resposta às suas interrogações. É um belo desafio e eu sou feliz por isso. No entanto, aqui na Suíça, é muito difícil envolver os pais e, por vezes, também as crianças e os adolescentes a confiarem em Deus.
Estamos numa época em que os avós imigrantes morreram, os filhos ocupam-se de tudo, menos da fé, e os netos porque não tiveram uma educação familiar cristã têm dificuldade em dedicar algum tempo à religião. Digo isto porque nunca como neste ano, com o início da escola, recebi respostas do género: “o meu filho prefere andar na natação”; “a minha filha anda a aprender piano”; “o meu filho não quer vir à catequese porque não tem vontade”. E a lista, infelizmente, poderia continuar... eu procuro semear, mas as plantinhas têm dificuldade em crescer! Há um terreno muito rochoso aqui entre nós. Os meninos preferem estar horas e horas a olhar para o telemóvel, ou ir a festas. Não será que a fé deveria ter um lugar no dia a dia e não deveria também trazer alegria? Aqui na Suíça, pelo contrário, são pouquíssimas as pessoas que frequentam as igrejas ao domingo. Sobretudo idosas. E depois, vejo e revejo as imagens do Jubileu e fico de coração cheio ao ver milhões de jovens, de famílias com os filhos, de cristãos provenientes de tantos países diversos: a felicidade que brilha de todos os lados. E aqui? Nada!
Santo Padre, peço-Lhe que reze por aqueles que me estão confiados e pelas suas famílias, para que encontrem o caminho da fé. E reze também por mim, para que Deus me dê a força de continuar a ser catequista,
Com afeto
Nunzia da Suíça.
Cara Nunzia,
As dificuldades que encontra são normais para um cristão que quer testemunhar a fé de modo autêntico. A situação social e eclesial na qual a senhora vive não é diferente da de outros países da Europa ditos “de antiga cristandade”. Parece que o mundo gira numa direção diferente da de Jesus Cristo e do Seu Evangelho e, no entanto, Ele continua a ser próximo de todos e a doar-nos o Seu Amor!
Agradeço-lhe por aquilo que faz e garanto-lhe que as horas dedicadas à preparação dos encontros de catequese das crianças e adolescentes da Primeira Comunhão e do Crisma jamais se perdem, não são deitados fora como se fossem inúteis, mesmo que os participantes sejam pouquíssimos. O problema não são os números –, que, certamente, dão que pensar –, o problema é a sempre mais evidente fala de consciência de se sentir Igreja, isto é, membros vivos do Corpo de Cristo (cf 1Cor 12,12), todos com dons e papéis únicos, e não usuários do sagrado, dos sacramentos, talvez por mera tradição.
Como cristãos, temos sempre necessidade de conversão. E é importante procurar a conversão juntos, tornar-se santos juntos, em família e como comunidade, das igrejas mais pequenas ou distantes até ao Vaticano. “Em tal comunhão”, como disse durante o Jubileu dos Catequistas, em 28 de setembro passado, “o Catecismo é o ‘instrumento de viagem’ que nos protege do individualismo e das discórdias, porque atesta a fé de toda a Igreja católica”.
O Ano do jubileu está a terminar e a Porta Santa fecha-se, mas continua aberta a verdadeira ‘porta’ (cf Jo 10,9) que é o Coração de Cristo. Só Ele pode pôr no coração de todos desejos de bem e de verdade. De nós, que nos dizemos cristãos, depende apenas sermos testemunhas. Como dizia S. Paulo VI, “O que se pode fazer é testemunhar a alegria do evangelho de Cristo, a alegria do renascimento e da ressurreição”. (EN).
Desejo que possa continuar com o Seu testemunho e diga aos seus meninos, aos seus adolescente e pais , que o Papa reza por eles.
Leão XIV
Caros paroquianos
Esta troca de cartas foi publicada numa revista do Vaticano, em que o Papa costuma responder a uma carta, este “diálogo” foi da última edição.
E não conhecemos bem as dores da Nunzia?
Vejo a resposta do nosso querido Papa... e catano! Como era bom sentir a mesma coragem.
Concordamos bem com ele, claro.
Mas, bem sabemos, é tão complicado. É muito desafiante manter o entusiasmo e a coragem, quando nos deixamos afogar em dias maus, de situações que desgastam, que magoam, que nos fazem sentir cansados, a duvidar de nós mesmos, das nossas escolhas, certezas e Deus me perdoe, até da presença amorosa e consoladora de Deus.
Vivemos tempos de mudança, de transformação e renovação.
Sinto o mesmo cansaço e dores, em mim e em vocês também pois claro.
Mas também vejo sinais positivos, que às vezes desvalorizamos, por via da dor e do cansaço.
Que as palavra do Papa nos encham o coração, que as possamos ler como que escritas para cada um de nós.
Pe. Patrício Oliveira