No meio da multidão
Tive direito a uma visita de estudo às urgências do nosso querido hospital de S. André.
Quis-me parecer que não era um “dia mau”, mas ainda assim impressionam, as macas, os rostos cansados e doridos. A primeira pessoa que vi estava a dizer que ali estava já desde as 10 da manhã de ontem.
E há apitos, uns mais assustadores que outros. Há de tudo como na farmácia.
Quando estamos ali um número de horas suficiente vamos vendo.
Surpreende-me a naturalidade de quem aqui trabalha. Enquanto a enfermeira me espeta, para me tirar o sangue que tanto trabalho me dá, uma colega passa: “- Olá Sofia! -Olá, Paula!”
E eu só pensava “é muito simpática dona Paula, mas a Sofia tem as mãos um bocadinho ocupadas cheias do meu sangue, não vamos distrair ninguém!”
Olho para o evangelho do baptismo do Senhor que vai encerrar o Natal (e só então vamos tirar presépios e arvores de Natal e toda a parafernália natalícia), é um episódio curioso.
O primo João surpreendeu-se, esperava que ele viesse para julgar, condenar, espetar o machado que já estava apontado. E Jesus aparece ali, disfarçadamente, de mãos nos bolsos, casual, no meio dos pecadores arrependidos que se confessavam em voz alta, oferecendo a Deus o seu passado e confiando o seu futuro.
Na minha cabeça Jesus aborda João com a mesma naturalidade com que a Paula abordou a Sofia:
- Então primo! Há tanto tempo, que tens feito?
João com água pela cintura ensopado em água, olhos incrédulos.
- O costume, Tu sabes como é: pregar o arrependimento, o juízo iminente, baptizar pecadores. Precisas de alguma coisa?
Curiosa a escolha de Jesus, simbólica, profunda, sabemos nós agora. O Jordão foi sempre especial, foi por ele que se atravessou para a Terra prometida e ali, diz que é o sítio mais baixo, à face da terra que podemos percorrer (a não ser que aguentem a pressão da água nas fossas marianas).
Jesus visita a humanidade no seu ponto mais baixo, revela-se no meio dos pecadores e frágeis, não juntos dos poderosos e religiosos e donos da paróquia.
Surge junto de quem precisa. Ali de modo especial, de quem anda cansado da vida velha, das feridas, dos erros, de quem procura mudar.
Que dia abençoado. Aquele grupo de penitentes procurou e encontrou.
O Céu abre-se ali para não se fechar mais. Brilha a luz, revela-se o Filho, sem medo de se contaminar, de se sujar ou de se misturar.
Vejo aqui ao lado os gestos de atenção e gentileza possíveis e vejo o quão bem fazem. Uma bolacha, um chá, uma pergunta, uma visita inesperada que nem se pode juntar, mas que diz olá através do vidro: não estás sozinho.
Os apitos continuam e as dores também e ainda há um longo caminho pela frente até chegar à cura e à reabilitação. Mas não estamos sozinhos.
Assim o é com Deus. mistura-se para nos levar consigo. Neste dia do baptismo talvez não tenha sido muito claro para quem viu (e ouviu) a Luz, a descida e abertura, mas para nós é bem claro.
O convite e a necessidade de conversão, de arrependimento, de mudança, devem inundar os nossos corações. Basta de arrastar. Basta de ignorar aquela dor que “não deve ser nada”.
O Céu abriu-se e espera por nós! Vamos lá!
Pe. Patrício Oliveira