Inconstitucionalissimamente com fome de Deus
“Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus” é a primeira mensagem que escutamos de Jesus: convite ao arrependimento e à conversão.
Ficou orelhudo a expressão “também eu não te condeno, vai e não tornes a pecar” e o tom dócil e amigável de Jesus, a mão estendida para levantar quem está caído ou a afundar-se.
Mas uma coisa não excluí a outra. E às vezes parece!
Será que já não temos fome de Deus? Quem procurava Jesus, ou até o João Baptista, queria mudar de vida, havia arrependimento, desejo de mudança, fome de Deus, a avaliar pelas multidões que se descrevem na Bíblia. Andaremos nós enfastiados? Barriguinha de tal ordem tão cheia, que quando Jesus passa a oferecer Pão Vivo, Água Viva, o Banquete do Reino dos Céus, olhamos para Ele com aqueles olhos de buffet: “Obrigado, já estou bem!”
Estou tao bem que não mato, não roubo, não faço mal ninguém, quando se ouve a expressão “arrependei-vos” passa completamente ao lado, porque o vizinho é que precisa ouvir isto.
Atenção que não quero o velho discurso: somos todos pecadores vamos para o inferno. Tenho um pó de estimação à frase feita “sofremos com o peso da culpa judaico-cristã! Temos que nos libertar desse peso!”
Pois temos! Por isso é que Jesus diz abundantemente arrependei-vos e estende a mão e oferece misericórdia e compaixão. Mas para receber isso é preciso, desculpem, sentir que o pecado magoa, dói, ofende a Nosso Senhor Jesus Cristo! TEM DE NOS DOER A CERTEZA QUE SOMOS PECADORES, QUE OFENDEMOS A NOSSO SENHOR QUANDO PECAMOS CONTRA OS OUTROS E CONTRA NÓS!
O que pede a sociedade ao querer libertar-se do peso da consciência pesada e da herança judaico cristã: a técnica que as marcas de roupa usam: aumentam as medidas do tamanho.
Os americanos, dizem, fizeram isso, alteraram as medidas padrão dos tamanhos de roupa, ou seja: um L é agora o tamanho que era um XL há 20 anos. Somos todos mais magros! (Descobri dolorosamente que por cá também há disso, a mesma marca tem tamanhos diferentes conforme a loja é oficial ou Freeport).
Hoje a solução passa por dizer que certas e determinadas coisas já não são pecado!
Então não há culpa, não há consequências.
E a morte de Jesus foi completamente em vão.
Como é que se pode acusar o catolicismo de querer carregar com o peso da culpa, quando o Evangelho grita arrependimento, conversão, perdão dos pecados! Jesus morreu para perdoar os pecados. Perdoar, não os eliminou na secretaria!
Reparem: a beleza da história da salvação só se percebe quando há noção da gravidade dos actos, do quanto nos separam de Deus, dos outros e de nós; quando temos uma noção clara que o inferno é uma possibilidade real e demasiado próxima e fácil, diga-se de passagem.
Então sim, há espaço para a maravilha que é sentir-se perdoado, então vai ser esmagadoramente bonito e doloroso olhar a cruz que trazemos ao pescoço.
Então sim, vamos ter coragem, de pesadamente procurar um padre e pedir para nos ouvir de confissão. Vamos celebrar os mistérios da Fé com alegria e uma pontinha de vergonha porque sabemos que não merecemos, mas Ele continua a dar, continua à nossa procura, continua à nossa espera.
Sim, é possível abrir os olhos e descobrir-se que se está no(num) inferno, porque nos distraímos, porque “fomos só ali fechar os olhos”.
Para quem é corajoso para assumir esta clareza de pensamento e ser honesto consigo, o Evangelho de Domingo vai ser bonito, a Quaresma que iniciamos em menos de um mês vai ser uma aventura incrível e transformadora.
Custa, custa muito. Custa horrores admitir que não estivemos bem e custa mais dizer as palavras peço perdão, dizem que é mais fácil soletrar inconstitucionalissimamente.
Faltar à missa sem motivo forte é pecado grave sim.
Comungar levemente só porque se foi a uma missa de casamento é pecado.
Faltar à catequese e à missa porque fomos a uma festa de anos, é pecado.
Olhar com olhares de desejo é pecado! Coisificar o próximo é pecado. Perder a paciência sem ouvir o outro, é pecado! As nossas fraquezas e reacções explosivas são pecado.
Não nos basta seremos boas pessoas! O horizonte maior e último é sermos Santos!
“então mas...” sim, eu sei. Venham confessar-se. Batam no fundo do poço, percebam que não raras as vezes somos como aqueles bebés com vazamento na fralda que chegou ao pescoço.
E quando voltarem a ouvir a expressão “eu te absolvo dos teus pecados” então vãp saber que há um Deus no alto dos céus, que nos ama e deu a sua vida por nós.
Pe. Patrício Oliveira