Diz tudo, não diz nada, mas acerta sempre
Este fim de semana o evangelho é particularmente sugestivo, com a parábola do semeador.
Surpreende-me sempre esta forma de falar que Jesus domina totalmente. O Catecismo da Igreja Católica explica:
546. Jesus chama para entrar no Reino, por meio de parábolas, traço característico do seu ensino (282). Por meio delas, convida para o banquete do Reino (283), mas exige também uma opção radical: para adquirir o Reino é preciso dar tudo (284). As palavras não bastam, exigem-se actos (285). As parábolas são, para o homem, uma espécie de espelho: como é que ele recebe a Palavra? Como chão duro, ou como terra boa? (286) Que faz ele dos talentos recebidos? (287) Jesus e a presença do Reino neste mundo estão secretamente no coração das parábolas. É preciso entrar no Reino, quer dizer, tornar-se discípulo de Cristo, para «conhecer os mistérios do Reino dos céus» (Mt 13, 11). Para os que ficam «fora» (Mc 4, 11), tudo permanece enigmático (288).
Lembro-me sempre do Cardeal Raniero Cantalamessa a falar do Espírito Santo: “Muda tudo e não muda nada!”
Jesus fala de mistérios, do Pai, do Reino, com imagens que nos são tão familiares, tão coloridas, tão acessíveis, que nós percebemos o que Ele está a dizer. E ao mesmo tempo não chegamos lá totalmente! Porque se facto não se chega lá nunca!
É como beber um café extremamente bem tirado, na temperatura certa, que nunca acaba e podemos desfrutar ad eternum.
“Se Jesus usasse definições diretas ao descrever o Reino de Deus, pareceria que uma pessoa poderia “controlá-lo” e “compreendê-lo”. Em vez disso, o Reino de Deus deve ser ponderado dentro do coração de alguém, como Maria fez com tudo o que aconteceu em sua vida. Deve ser internalizado e assumir um significado pessoal único, levando ainda mais esse indivíduo a um relacionamento mais profundo com Cristo[1].”
A parábola aponta uma direcção. Uma direcção que serve a todos, independentemente do nosso ponto de partida. É a viagem de uma vida, que desafia, entusiasma e eleva.
Lá em casa, conta-se a história do meu primo mais velho, do lado materno, Laréu portanto, que acompanhou a família numa ida a pé a Fátima (creio que para agradecer até as melhoras do próprio).
Miúdo pequenito ainda, a motivação para peregrinar era nula, carregá-lo ao colo também não seria opção. Reza a lenda que a motivação foi encontrada num burro que estaria logo ali depois da curva... 21km na senda do burro...
As parábolas de Jesus entusiasmam-nos neste caminho de aproximação ao Mistério de Deus.
Não definido que: “é assim”, porque “o Reino é isto e muito mais”.
As parábolas são um meio genial de nos aproximar, da beleza, do Amor, da intenção do Pai, percebemos bem, sentimos cá dentro, sabemos que a cada curva estamos mais próximos.
E mesmo que não saibamos quanto falta para chegar, a viagem enche o coração, dá força e alento e meus caros: que grande viagem esta que temos pela frente.
Esta semana deixa-nos desarmados, a semente é sempre boa, germina e cresce e dá frutos.
Lá temos dias melhores ou piores, mas há sempre um fruto, uma palavra, uma direcção.
Quando se quer fazer caminho, caminho a sério, é quanto basta.
Quando estamos focados apenas em chegar, não apreciamos a viagem. Penso para comigo que com Deus é exactamente isto, não é chegar, é aproveitar o caminho. Deslumbrarmo-nos com estas aproximações que nos fazem sentir mais próximos de Deus, que o trazem à nossa vida, ao dia-a-dia, às relações e às decisões.
Percebemos e não percebemos ao mesmo tempo.
As parábolas são para todos, acertam sempre!
E seguimos juntos
Pe. Patrício Oliveira
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[1] https://pt.aleteia.org/2019/08/30/o-que-sao-parabolas-e-por-que-jesus-falava-atraves-delas/