Há umas semanas pedi ajuda para resolver uma questão de higiene oral. Mandei mensagem a uma amiga, que trabalha como auxiliar num dentista famoso. Ela, a auxiliar, não me cobra as consultas por SMS, no fim diz-me: “não te esqueças nunca do fio dentário, antes!”
Antes? Tive vergonha de manifestar a minha ignorância e fiquei a pensar naquilo. Sempre usei depois de lavar os dentes e honestamente nem sei porquê!
Há uns dias, numa rúbrica qualquer da televisão, lá aparecia uma doutora dentista, que não a patroa da minha amiga, que não só reforçou a ideia do antes, como acrescenta: “e não devemos boxexar depois, devemos expelir o excesso, mas não tirar tudo”. Fiquei ofendido, levei para o lado pessoal! Afinal de contas já lavo os dentes há 40 anos. Ainda a doutora não tinha nascido e eu já lavava os dentes.
Fui pesquisar e confirma-se a afirmação do Sr. Dom Virgílio: “tu és um bocadinho ignorante, não és?”
Faz sentido... e nem custa.
Eu lavava mal? Não. Lavava bem? Sim. Podia fazer melhor? Pois, parece que sim. Talvez mais eficiente, se preferirem. Claro está, esta ideia tem-me martelado.
Quantas coisas não nos serão familiares, próximas, comuns e banais, dadas como adquiridas, feitas com entusiasmo, dedicação e empenho. Até que um dia alguém acrescenta um “então e se...”
Não é um atestado de burrice, nem de coisa negativa, é só um acrescento positivo, que traz um novo horizonte, mais amplo e abrangente.
Naturalmente que há quem leve a peito e fique ofendido. Talvez por se sentir ameaçado ou posto em causa. Eu senti! Sabe Deus o dinheiro que teria poupado em dentistas!
A participação na conferência Renovar 2026, em Braga, trouxe este tipo de reflexão. Esta ideia do renovar, renovação pastoral, paroquial, deixa sempre um grande desconforto. Habitualmente achamos que é por resistência (e acreditem tem muito disso!), mas talvez tenha muito a haver ver com a sensação de “então, mas estava tudo errado?”.
Perceber que há outra forma, mais eficiente ou mais adequadas às circunstâncias, não torna o “do costume” mau ou errado. Mas o nosso orgulho ressente-se e fica ferido, ao achar que afinal estávamos errados.
Afinal, não queremos nós dentes limpos e uma boca saudável? E quem diz que boca diz paróquia, diz comunidades, diz a Igreja.
Não significa que estejamos mal, significa que queremos ser mais, melhores inteiros.
O mesmo se diga da santidade, que estes dias celebramos e que enche o coração, mas talvez nos deixe meio desgostos. Não somos santos, ainda. E não o ser, ainda, não faz de nós maus, nem más pessoas. O desafio está em perceber que tendo caminho feito e caminho belo, ainda falta bastante. Não paramos, não estagnamos, abraçamos o caminho feito, damos graças a Deus por isso, mas assumimos, corajosa e humildemente o quanto nos falta, o melhor que podemos ser. É o caminho de toda uma vida.
O caminho de santidade, o caminho de qualquer fiel cristão, está profundamente ligado ao caminho de renovação, uma transformação passo a passo, que se revela no fim uma transformação profunda, que tantas vezes nos parece uma nova identidade.
O Sr. Fernando Brites quando me vê mais frustrado com a vida e o ritmo da mudança e os atritos que vamos sentido, recorda-me sempre: “quem viu a Marinha e quem a vê”.
Reparem nas fotos antigas, somos nós, mas ao mesmo tempo não parecemos nada nós!
Penso no paradoxo do Navio de Teseu[1] (deixo no fim do texto, que vale bem a pena a leitura).
É ou não é o barco? Que barco voltou foi aquele que chegou?
Estes dias celebramos os “três ramos da Igreja”: Triunfante, Padecente e Peregrina.
Triunfante, os irmãos que foram elevados ao Céu, os que reconhecemos e canonizados e a multidão anónima, que está diante do Trono, face a face com Deus;
Padecente, os que partiram em comunhão com Cristo, mas que ainda levam apego ao pecado, ainda precisam de se libertar e purificar, os irmãos do Purgatório.
E a Peregrina, ou Militante, conforme a tradição, nós que caminhamos neste vale de lágrimas, que procuramos aderir e construir o Reino, que seguimos os passos de Jesus; nós que desejamos alcançar o Céu, voltar onde Deus nos sonhou.
Um dia seremos nós chamados e mudaremos de ramo, nesse dia, iremos apresentar quem somos, talvez levemos ainda as velhas tábuas do Velhariakos, pecados, mágoas, dores e arrependimentos, estou convencido que essas O Senhor não precisa, podemos deixar no confessionário, não precisamos carregar. Como bom Pai, anseia encontrar-nos como nos sonhou: humanos, santos, capazes de amor e de doação.
Até lá, peregrinamos, aproveitamos a viagem, vamos sobrevivendo às tempestades, vamos descobrindo novas formas de Ser, crescemos, tornamo-nos não outra pessoa, mas quem fomos sonhados, lá bem no início.
Olhamos a multidão dos Santo no Céu, como modelos e incentivo a continuar o caminho.
E segunda-feira, retiramos do nosso tempo, permitimos que a saudade venha ao de cima, como oração, recordamos aqueles que são ainda os nossos e já partiram, rezamos pelas Almas do Purgatório, rezamos por aqueles de quem já ninguém se lembra.
Pe. Patrício Oliveira
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Na última história, recordei Teseu, o filho do rei ateniense Egeu, que matou o Minotauro cretense e assim libertou a sua cidade do castigo que a atormentava. Com várias peripécias pelo meio, o nosso herói fez por mar as viagens de ida e volta entre Atenas e Creta (fica aqui registado que, para além desta, decidiu-se por outras expedições e aventuras, como uma contra as amazonas) – e o barco de Teseu tornou-se tão importante que serviu de inspiração a histórias, das quais se destaca uma que contarei a seguir, um tanto ao meu jeito.
O barco era feito de pranchas de madeira; algumas delas foram substituídasdurante a viagem de ida. Apesar das novas pranchas, o barco continuou a ser o mesmo (é óbvio – não lhe parece? Lá por ter algumas pranchas novas, deixou de ser o barco de Teseu?!).
Pior foi a viagem de regresso (agora, recordo, com Ariadne a bordo). O navio fez escala em Naxos, capital da ilha grega do mesmo nome, onde a pobre Ariadne acabaria por ficar, mais ou menos abandonada. Um vento muito forte deixou o navio à deriva, danificou algumas pranchas, que Teseu mandou substituir.
A escala seguinte foi na pequena ilha de Delos, onde Teseu consagrou uma estátua de Afrodite e aproveitou para mandar substituir as pranchas originais que ainda restavam. O navio de Teseu ficou novinho em folha.
Onde está o barco de Teseu?
Quando o herói chegou a Atenas, os habitantes da cidade quiseram celebrar a vitória, pelo que se reuniram no local onde se encontrava o venerado barco de Teseu. Ou será que aquele já não era o barco de Teseu? Dado que todas as peças foram substituídas, o navio que chegou a Atenas é o mesmo que saiu, uns tempos antes?
Se o leitor entende que já não é, diga isso aos atenienses: acha que eles acreditarão? Por amor de Apolo! se a tripulação foi sempre a mesma, se foi ali que se fez toda a viagem… Ou diga-o ao próprio Teseu – e ele garantirá que o navio em que partiu foi o mesmo em que chegou; renovado, é claro, mas o mesmo.
Mas, se o leitor entende que é outro barco, peço-lhe que me explique quando é que ele deixou de ser o barco de Teseu. Após a substituição de quantas pranchas? Ou, se preferir: qual foi a prancha cuja substituição destruiu o barco de Teseu? Se, em vez de nenhuma, tivesse ficado pelo menos uma prancha original, já seria o barco de Teseu?
Nesta história, há um elemento castiço da tripulação; chamemos-lhe Velhariakos, em razão da sua persistente mania de guardar velharias. Velhariakos foi recolhendo todas as pranchas velhas do navio e, após o regresso, com elas foi reconstruindo o barco primitivo. No final, ficou com um novo barco, que expôs em praça pública para recordar a afamada viagem. Suponha o leitor que vai visitar Atenas e pergunta a um habitante onde está o barco de Teseu: qual dos dois lhe será indicado como autêntico? Aquele em que o filho de Egeu regressou vitorioso – ou aquele que Velhariakos reconstruiu? Diz-me que é o primeiro? mas esse foi totalmente modificado. Opta pelo segundo? mas como pode ser o barco de Teseu, se Teseu nem sequer poisou alguma vez lá os pés?
[1] https://omeubau.net/o-barco-de-teseu-e-o-problema-da-identidade-pessoal/