Advento
(ad·ven·to)
nome masculino
1. Chegada ou vinda de alguma coisa (ex.: o advento da sociedade da informação trouxe mudanças profundas). = APARECIMENTO[1]
Dou por mim a olhar esta folha branca e a pensar no fim de semana, no futuro, nos planos, sonhos.
Termina um ano litúrgico e iniciamos já outro em grande velocidade. Tenho a sensação que aqueles que disseram na passagem de ano que 2025 é que ia ser o seu ano, ainda estão com as passas atravessadas na garganta.
Recordo um bispo que dizia não acreditar em coincidências, mas que quando rezava, lhe aconteciam muitas coincidências.
Este fim de semana acolhemos com grande expectativa o padre Adelino, é efectivamente o seu advento, a coincidir com O Advento. Ele que há 20 anos era pároco de Pataias e tinha como vigário paroquial-estagiário o, agora pároco, padre Nuno Gil.
Ocorria-me uma frase inspiradas na banda desenhada[2]: “ou morremos párocos, ou vivemos o suficiente para nos tornarmos vigários paroquiais”. E desengane-se quem acha que isto é uma despromoção.
É exactamente o contrário.
O Menino veio estabelecer um reino, uma nova criação. A chegada do padre Adelino enceta uma nova realidade. É mais que um novo capítulo, é mesmo uma nova criação.
Ele foi meu professor de Pastoral, e do padre Nuno, quando falámos sobre a novidade ele dizia-me: “não há referências para esta situação”. Não há manual de pastoral onde decalcar uma proposta-solução. Vamos ter de a construir. O que vemos agora acontecer é um gesto de humildade e de entrega ao serviço do reino de uma grandeza que poucos alcançarão.
Temos algumas inspirações, experiência de outros que antes de nós enfrentaram o mesmo desafio, mas as circunstâncias de cada um são únicas, irrepetíveis e precisam de uma solução à medida.
É esse o desafio que abraçamos. Amanhã com uma nova equipa de padres, já a esboçar uma coordenação diferente, que se converterá em Unidade Pastoral em Março. Mas que na verdade apenas continua o esforço que temos vindo a desenvolver, com a recém-criada equipa de liderança pastoral, que bebe do esforço dos últimos anos com a nossa equipa de liderança paroquial, a mudança nos estatutos do Conselho Pastoral; uma equipa Alpha que foi desde a sua origem vicarial.
De algum modo, as fronteiras/divisões geográficas, esbatem-se. Não tirando a identidade própria de cada paróquia, mas aproximando-nos de novas fronteiras que são mais comunitárias do que geográficas. Desafiamo-nos a olhar o território, as estruturas organizacionais e físicas, os recursos humanos, padres e leigos, e ousamos reorganizar tudo de uma forma mais eficiente. Priorizando o serviço e o cuidado pastoral de proximidade, em detrimento do “foi sempre assim” e do espírito de “capelinha”. Importa que as comunidades sejam servidas, que vivam a eucaristia, que a ninguém falte oportunidade de se reconciliar, de ser escutado, de ter sacramentos, de se comprometer a ser força viva do Evangelho.
Estes dias ouvimos falar do fim dos tempos e do apocalipse, e sim, é esse o momento, o fim de uma época, como dizia o Papa Francisco e o início de uma nova.
“Eu renovo todas as coisas[3]”
a nova criação que temos pela frente é isto mesmo: aquilo que temos, que conhecemos e nos trouxe aqui, feito novo. Mais eficiente, mais próximo, mais afinado.
E tal comos os monstros e feras do Apocalipse, é um desafio assustador, vamos ser tentados a voltar atrás, não mexer para não estragar. Mas asseguro-vos: isso é uma tentação diabólica, que divide, que prende no passado, num saudosismo envergonhado e acanhado, que se fecha à Graça e à Acção de Deus.
Alegro-me com a nomeação do padre Adelino, embora me sinta bastante intimidado por partilhar agora “taco-a-taco, mano-a-mano” a liderança da comunidade com quem me deu aulas, com quem foi meu formador. Anima-me a memória das aulas que passavam num ápice, o tom caloroso e espiritual com que eram dadas. Mas assusta-me ser agora Vigário e Coordenador da Unidade Pastoral, porque não tenho a quem perguntar como é que se faz! E o professor do seminário está aqui e também não sabe!
Conto com ele, com o padre Cristiano e o padre Nuno, conto com a presença amorosa de Deus que inspira e conduz e me chama e teima em não desistir de mim.
E conto com todo vós, seguro que queremos todos mais e melhor. Caminharmos para uma renovação pastoral, espiritual e comunitária.
Mas para já: Maranata, vem senhor padre Adelino, endireitemos as nossas veredas, altemos os vales, para acolher a novidade do Deus Menino.
Pe. Patrício Oliveira
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1] "advento", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2025, https://dicionario.priberam.org/advento.
[2] “ou morres herói ou vives o bastante para te tornares vilão”
[3] Apocalipse, 21, 5

