Perdemos mais um Padre

A notícia da morte súbita de um padre veio trazer uma vez mais um manto de estranheza sobre os colegas padres. É um baque em todos nós.

É um peso estranho, é o amigo, o colega, mas também, tudo o que implica, no aqui e agora, seja das comunidades que ficam desamparadas, seja o amanhã de uma diocese que não tem banco de suplentes.

Somos cada vez menos...

Leiam o texto do Pe. João Miguel da Silva Soares, aqui publicado ou aqui na nossa página

 

Um paradoxo pastoral: há menos presença regular nas comunidades, mas continuam muitas expectativas rituais. Muitos afastam-se da vida paroquial, mas continuam a querer batismos, casamentos, funerais, festas, bênçãos, procissões e disponibilidade imediata do padre nos momentos decisivos da vida. A comunidade estreita-se, mas a procura simbólica mantém-se. O padre fica no meio: com menos gente comprometida para ajudar, mas com muitas exigências sociais ainda colocadas sobre ele.

 

As comunidades também precisam de ser educadas. Há fiéis admiráveis, discretos, generosos, capazes de cuidar dos seus padres. Mas há também uma cultura de consumo religioso que trata o sacerdote como prestador de serviços espirituais. Quer-se o padre sempre acessível, sempre simpático, sempre eficaz, sempre presente, sempre disponível. Quando responde, é obrigação. Quando não responde, é distância. Quando está, é normal. Quando falta, é escândalo. Nenhuma relação humana saudável funciona assim.

 

Não conheço o padre João, gostava...  temos sempre muita dificuldade em falar destas coisas. Sinto que ele conseguiu verbalizar de uma forma muito clara a situação. E honestamente muitas vezes, é vergonha. Vergonha de dizer que a casa paroquial precisa disto ou daquilo. Porque ninguém pergunta, e no fundo, temos vergonha de dizer que a televisão da casa paroquial tem 30 anos; vai-se dando um jeito, somos corajosos quando é hora de ir embora e então, já mudamos as coisas e arranjamos para o próximo! Guardamos, suportamos, vamos aguentando que há coisas mais urgentes.

 

Achei a ideia do paradoxo pastoral genial, ilustra muito bem a nossa realidade.

É moda ser não praticante; é quase chique dizer que se vai quando se tem vontade, que se vai a Fátima, etc. a comunidade reduz, mas a expectativa em relação à paróquia, tradição e ao padre, mantém-se. Infelizmente assumindo forma de cobrança.

A sociedade civil, como comunidade alargada para lá da comunidade católica assídua/participante, por um lado vai desligado, mas ao mesmo tempo sente que tem “direito”, num tom bastante reivindicativo, “aos serviços” e não percebe a incoerência e a estranheza do raciocínio. Faz-me lembrar a Bozena de Pato Branco: a cafeteira é elétrica, não é mágica[1]!

 

São dezenas de funerais em silêncio; São casamentos que têm de ser com missa, mas sem comungar ou confissão; são crismas que são a despedida; são crianças na catequese para fazer a primeira e a única comunhão;

E o ruído acerca disto vai crescendo, porque “já não há padres para fazer funerais, mas para a procissão aparece! E cobram!”.

Rasga-me o coração de tristeza e de remorso quando me dizem que o defunto era muito católico, só desde que ficou doente é que não participa. Questiono: e não foi preciso visitar? Confessar? Comungar? Sacramentos? Precisam do padre só no funeral. Há umas semanas disseram-me com toda a naturalidade que é mais simbólico. E a questão prende-se por ter padre ou não, ninguém fica sem funeral.

O ruído de quem vem de fora é tremendo, e desculpem que o diga, contrasta com o silêncio de quem concorda e entende, mas não compra guerras. E o padre fica sozinho. Enquanto lhe gritam que tem de respeitar as lendas lá da terra!
E eu entendo o silêncio. O problema é que o silêncio, de quem concorda e entende, enche de razão quem vive alheado da realidade da paróquia.
E os padres calam. Por vergonha.

As pessoas fazem por mal? Não. Mas fica o silêncio. Que pesa.
Espera-se que o padre faça, aconteça, afinal, ele dá sempre um jeito! Aparece feito, as pontas todas seguradas: é como as mães: parece fácil.
Os padres sentem-se sozinhos na sua missão. O Sr. Fernando diz com graça que somos a ponta da lança, a ponta da lança é um lugar muito solitário.

 

Como é que se ajuda um padre?

Por estes dias a sensibilidade aumenta e até há convites para jantar...
Queríamos convidar, mas deves andar sempre de casa em casa...
Mas ele diz sempre que não, nunca tem tempo, já deixámos de tentar.
Depois de semanas sem um serão livre, com dias de trabalho de 12/14 horas, alguém tem energia e disposição para fazer sala e cara alegre e bem-disposto?

 Os padres precisam de comunidades que façam a sua parte, maduras.
Que contem com o padre, mas não lhe cobrem apenas.
“As flores da igreja fazem alergia!” “as televisões não funcionam!” “a fechadura da porta X não trabalha”...
Sentimos, por vezes, que só nos sabem encontrar para questionar, ou apontar algo menos bom.

Os funerais e as missas por intenção são um exemplo: é tudo feito pela agência, que a nós, parte das vezes, nem o nome da pessoa sabe dizer ainda. Menos ainda se tem relação com a comunidade, “é para marcar um serviço”; o mesmo com as missas de sétimo dia; mas quando há uma falha de comunicação e a missa não foi agendada, já conseguem encontrar o padre para pedir explicações.
E vivemos isto em silêncio para não reclamar, para não ser mal-agradecido, para não incomodar. Dá-se sempre mais um jeito.

E depois, um dia, de surpresa não aparece para a Missa e a notícia vem com dor, alguém acrescenta: “Mas também nunca pediu ajuda!”

Os padres não deviam ter de pedir ajuda.
Se queremos ajudar os padres, precisamos de crescer na Fé, amadurecer, ser comunidade viva. Onde cada um faz a sua parte, onde todos assumem responsabilidades, dentro da sua possibilidades e talentos e tempo.
Ajudaremos os padres quando percebermos que não faz mal não ter missa nas capelas todas, desde que haja onde ir à missa!
Ajudamos os padres quando deixamos de pedir favores e exceções “só desta vez”.
Ajudamos os padres quando deixarmos de lhes pedir coisas que qualquer leigo pode fazer.

Somos menos, não chegamos a todo lado. O paradoxo pastoral é real, a pastoral precisa mudar, os horários, as missas, os atendimentos. Mas a questão é antiga: todos querem a mudança, mas poucos querem mudar. E a cortar missas, desde que seja na capela do lado, por mim tudo bem!

Isto um dia rebenta e depois vai ser tarde de mais.
Ora vejam os números

O nosso bispo em 4 anos fez o funeral de 17 padres.
O nosso amigo padre Alcides, cheio de energia e vitalidade vai fazer 89 anos.
A média de idades dos padres é de 59 anos.
Não há como manter 73 igrejas paroquias e 300(±) capelas como há 20 ou 30 anos, é impossível.
E os primeiros a convencerem-se disto são os padres, que se acham um super-heróis e querem segurar as pontas todas. Não dá. E as comunidades precisam de entender isso e precisam ser elas a incentivar a mudança e a dar coragem e suporte.

Pe. Patrício Oliveira

[1] https://youtube.com/shorts/6AxRzWFce4c?si=EnzdtyPVMlc0TOlo

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

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