Roupa de ver a Deus

Procissão

Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão. 

Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o solidó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó. 

Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol. 

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão. 

Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas! 

Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa! 

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão. 

Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu! 

Com o calor, o Prior aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor! 

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Já passou a procissão.

António Lopes Ribeiro

 

A Sãozinha correu então para o quarto para vestir algo capaz de exprimir o que sentia, trocar a roupa tristemente quotidiana para a substituir por algo mais digno, que se use em situações especiais como aquela que fora anunciada, "vamos passear vamos passear", e a Sãozinha, sem hesitar, tirou do roupeiro do corredor o vestido de ver Deus, o vestido que usava para ir à missa, não havia nada mais apropriado. Alisou-o com as mãozinhas, passou-as a seguir pelo cabelo, abriu a gaveta de cima da cómoda e pegou na escova, estacando diante do espelho partido do quarto, e penteou-se, magoou-se – cabelos presos na escova –, insistiu até se sentir satisfeita com o resultado, sorriu, queria estar bonita ou mesmo perfeita, "vamos passear vamos passear", não queria que a paisagem se envergonhasse dela. Que bonita estou, pensou, mesmo mesmo mesmo mesmo bonita, e a alegria tomou-lhe conta do rosto, começando num sorriso vacilante até se transformar num guincho de gáudio. Estava pronta, com o seu vestido de ver Deus e os cabelos penteados[1].

 

Por cá o rosmaninho e o fogo de artifício não abundam e os capacetes dos bombeiros são necessários noutros ofícios, mas também enchemos as avenidas. Não é, como vi nos comentários do Facebook, uma manifestação contra o preço dos combustíveis, mas não deixa de ser uma manifestação de gente que não fica enterrada no sofá a ver a vida a passar por um ecrã.

É uma manifestação de quem tem esperança, de quem sabe que é frágil, mas não desiste de se chegar à frente.

E, que por estes dias, partilha da sua Esperança e da sua Alegria de forma corajosa e festiva.

Tivemos de pedir uma casa emprestada, bem sei, muito agradecemos a generosidade da Sociedade de Beneficência E Recreio 1º De Janeiro.

A liturgia deste fim de semana fala de banquete, certamente digno de Sopa do Vidreiro e do convite a todos, todos, todos que queiram tomar parte.

Fala também do “penetra” que não se vestiu e que não ousou sequer responder. De facto, o convite é para todos e o banquete a todos é oferecido, mas é preciso querer.

Recordo a roupa de ir ver a Deus, a Eucaristia começava em casa, a vestir, porque essas escolham manifestam a atitude interior e o entusiasmo de fazer parte. Não era um dia qualquer, não é mais uma coisa qualquer, é um dia importante, é Uma Pessoa importante, como não querer estar bem?

Como não querer acolher, receber de forma festiva? A nossa Fé não é um frete, nem algo apenas interior, é uma missão, é Uma Pessoa, é relação que transforma, toca, enche o coração.

É uma luz que ilumina as trevas da incerteza; é voz que guia quando o horizonte é difuso e não é fácil ver ao longe. Não é superstição nem simbólico.

Fazemos festa porque o Sim da Senhora do Rosário nos incentiva e conforta e nos lança corajosamente nos braços do Pai.

O resto? O resto é filhoses e bifanas e conversa à mesa.

Até já, que o convite para as bodas é para todos e tenho a certeza de que queremos ser apanhados com a roupa de ir ver a Deus.

E não, não tem que ver com roupa, é atitude, é a resposta que queremos dar ao convite.

 

Pe. Patrício Oliveira

 

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

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