Relatividade do Tempo

“O tempo não é fixo nem universal; ele passa a ritmos diferentes dependendo da velocidade de quem se move e da força da gravidade”[1].

 

Tenho-me debruçado sobre este tema com afinco, descobri que não depende apenas da velocidade de quem se move, ou da força da gravidade, depende bastante também da homilia e da massa de gravidade do padre. Ou da pessoa com quem estamos.
O tempo voa, ou arrasta-se dolorosamente com grande facilidade.

Ontem, participei na oração FOS – Família de Oração do Seminário, onde rezámos com e pelos candidatos que no próximo Domingo iniciam o ano propedêutico no seminário de Caparide, o Gustavo, aqui da Marinha Grande, o Nélio, de Ourém e o António, da Batalha.
Foi oportunidade também se apresentar o padre Eduardo e o diácono Miguel que vão estar a dinamizar a pastoral vocacional e o seminário em família.

O Miguel entrou há 6 anos, depois de uma longa pausa vocacional.
O padre Eduardo há 16 anos lembro-me bem da história que ele não contou ontem.
Em Março de 2010, eu estava a terminar o seminário maior, tinha entrado há 6 anos (notam aqui um padrão?) e o SDPJ (Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil) tinha-nos convidado, aos seminaristas, que fossemos na peregrinação.

O jovem Eduardo era estudante de farmácia, colega de curso de uma das meninas da farmácia Central (mundo pequenino eu sei!) e havia uma grande tensão ansiosa nos padre responsáveis, o Gonçalo e o Manel Henrique, porque era suposto o jovem dar uma resposta acerca da entrada no seminário.
O sacana disse que não ao padre Gonçalo... que grande balde de água fria que foi. Estava toda a gente convencida e sobretudo, entusiasmada, com a resposta positiva.


Entrou em Setembro. Disse-nos mais tarde, que “assim que disse que não ia, percebi imediatamente que estava a mentir!”.

 O meu cérebro deu um nó valente com estas datas. No próximo dia 29, passam 23 anos que eu entrei no seminário de leiria.
É estranho como ao mesmo tempo, parece toda uma vida e uma imensidão de tempo, mas também um ápice.
Passei do tempo em que eram precisas 2 carrinhas para levar os seminaristas, depois enchíamos uma até ao tempo em que ouvi a proposta: “sai mais barato uma mota, são só dois, chega bem!”

O Miguel veio como que um breve fôlego num sufoco de ausência de respostas positivas. Ao ponto de parecer que nem se fazia já grande pastoral vocacional...
Toda uma diocese atordoada e aflita sem saber que fazer.

Este ano surgem três candidatos praticamente por autorrecriação, no sentido em que quase não passaram pelos canais tradicionais da catequese e encontros vocacionais.

Ontem diante do Santíssimo recordei que Ele é Senhor da História, o do tempo e da criação. E que mil anos, são para Ele um dia...
O sufoco não passa. A alegria de três jovens corajosos candidatos não traz certezas de nada. recordo que perdemos 5 padres novos num ano.
A média de idades do clero é madura, para não dizer mais. Nas reuniões de padres, quando nos levantamos já se ouvem os joelhos a ranger e há sempre dois ou três urros de dor.

Mas Ele é Senhor do tempo e da história. Talvez estas crises sejam para nos recordar que depende Dele e não dos nossos super-mega-superlativos-planos pastorais.

Penso que não será só nos padres.

Cada um de vós tem as suas crises, as duas dores, as suas aflições, estou convencido que o que trás esperança por estes dias ao seminário, também trará esperança às nossas vidas.

Abramo-nos ao Kairós

Pe. Patrício Oliveira


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[1] https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-e-a-teoria-da-relatividade-2/

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

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E de repente é Setembro