Teoria da Relatividade Pastoral

Teoria da Relatividade[1]

 Fiz nos últimos dias uma tour de visita a Arganil e Lousã, fui revisitar o Piódão e aqueles lugarejos que mais parecem enclaves no meio da serra. Estudei com o padre natural de Arganil e pelas histórias dignas do Entroncamento toda aquela zona me parece mística!

Inevitavelmente, o padre em mim faz estas viagens com olhos muitos próprios e de olhos postos no Anuário Católico

É para mim um enorme mistério como vive ainda gente por ali. Em lugares, que não sendo distantes em kms, são-no tem tempo. A primeira vez que lá fiquei, perguntei onde era o supermercado mais próximo. “Arganil ou Oliveira do Hospital, tanto faz.”

38 kms para Arganil, 54 minutos de viagem (com tempo bom)

33 kms para Oliveira do Hospital, 56 minutos (com tempo bom).

Na Igreja Paroquial(!!) há avisos de missa ao Domingo à tarde. 

Fui ver o anuário católico: o Pároco chama-se Ivanildo Farias da Silva, reside em Arganil, e tem um vigário paroquial que vive em Côja, é pároco de Pároco de Anceriz, Arganil, Barril, Benfeita, Celavisa, Cepos, Cerdeira, Coja, Folques, Moura da Serra, Piódão, Pomares, Pombeiro da Beira, São Martinho da Cortiça, Sarzedo, Secarias, Teixeira e Vila Cova do Alva[2].

Liguei-lhe, bem-disposto e afável. As Paróquias mais centrais, maiores, tem missa todos os fins de semana, as outras, como o Piódão, alternam missa com celebração da palavra. 

Nesta altura do ano, com festas e procissões, lá se faz um esforço maior, são 80 capelas...

Celebrações com 10/12 pessoas.

Dizia-me em tom de graça que disse ao Sr. Dom Virgílio, quando lhe entregou as últimas 11 paróquias, que preferia uma paróquia com 50.000 habitantes, a 18 paróquias distintas, é todo o concelho[3].

Acusei o toque quando falou das 50.000, eu tenho, oficialmente 32.322[4] paroquianos.

Efetivamente prefiro a minha situação, quanto mais não seja o cartório é muito mais fácil de fazer. Há paróquias que não têm baptismos há anos, nem casamentos, só funerais.

Interroguei acerca da participação. Quem é devoto e empenhado, desloca-se, procura participar na missa onde a há. Outros só vão se for na sua capela. 

Partilhava em tom de graça nervosa, o povo não ajuda o padre, eles matam o padre. Este Domingo celebra 6 missas e uma procissão (fora o Sábado). Desdobram-se e não chegam a todo o lado. E nunca chega, para bem era ter em todas as capelas e igreja paroquiais. Acrescente-se a questão do tempo da deslocação e vejam como é o dia deste padre...

Curioso como, apesar de contextos completamente opostos, a postura das pessoas é a mesma.

Ocorre-me então a Teoria da Relatividade Pastoral, a participação é relativa ao interesse. Dizia-me ele: as pessoas deslocam-se: compras, médico, funerais... parece que só para a missa é que não dá jeito!

Falta ainda acrescentar um outro elemento à equação: a qualidade. 6 missas, mais a deslocação entre elas... com que cabeça vai ele para as últimas? E que tempo passa com as pessoas? Parece os armazéns com sistema LIFO[5], é o último a chegar e o primeiro a sair, e deve levar o rótulo de apressado.

Pergunto: era preciso? É disto que o povo precisa? É isto que o povo merece? É isto que faz crescer a comunidade no amor de Deus?

Curioso como a distância é relativa ao interesse e ao desejo.

Tenho sido pressionando para haver missa em S. Pedro de Moel.

A paróquia tem 5 missas por fim de semana, no máximo exigem uma viagem de 15 minutos (com bom tempo ou a chover). 

O ano passado um senhor dizia-me: é que não me dá jeito ir à missa à Marinha. Nessa semana encontrei-o várias vezes na Marinha, nas compras, no trabalho... 

O que precisa a comunidade cristã? Muitas missas, em todas as capelas e cantos e etc., que tantas vezes é pelo mínimo, onde é cada vez mais difícil ter voluntários e quem ajude; que leia uma leitura que seja preparada devidamente para ser proclamada em vez de desenrascada à pressa à última da hora... 

Claro que isto soa a padres preguiçosos. E na maior parte das vezes faz-se das tripas coração e lá vamos. Até porque como dizia o padre Gameiro: “diz que a gente só pode celebrar 3 missas ao Domingo, eu celebrei 4 e pude!” 

Não é porque conseguimos fazer algo, que significa que seja bom fazê-lo. Mas sejamos honestos: não se mistura muitas vezes o bairrismo, com o capricho e um toque de comodismo? 

Dizia-se há uns anos: menos missas, mais missa!

Isto tudo para quê? 

Para dar graças a Deus de não ter de ter ainda 18 paróquias e 80 capelas. E de sermos uma comunidade que apesar de numerosa, é bastante concentrada, as deslocações não demasiado difíceis e ainda temos 5 Missas por fim de semana, celebradas com tempo, com preparação, com cânticos, com dignidade. 

Louvado seja Deus, enquanto não formos obrigados a ter de assumir mais paróquias cada um de nós e a manter missas nas igrejas paroquiais. E quando isso acontecer, e vai acontecer, louvado seja Deus na mesma.

Saibamos, todos nós, zelar pelo bem maior, que não faltem os sacramentos ao povo de Deus e que a vida sacramental e litúrgica seja sempre cuidada com dignidade.

Pe. Patrício Olveira 


__________________________________________
[1] A Teoria da Relatividade, desenvolvida por Albert Einstein no início do século XX, divide-se em duas partes fundamentais: a Relatividade Restrita (1905) e a Relatividade Geral (1915). Ela revolucionou a física ao provar que o espaço e o tempo são relativos e formam uma única teia dinâmica chamada espaço-tempo

[2] São 18, podem contar

[3] Acerca de Arganil: Arganil é uma vila portuguesa do distrito de Coimbra, na província da Beira Litoral, região do Centro e sub-região Região de Coimbra, com cerca de 4 000 habitantes. É sede do Município de Arganil que tem 332,84 km² de área e 12 145 habitantes, subdividido em 14 freguesias.

[4] A Freguesia de Marinha Grande é uma freguesia portuguesa do Município da Marinha Grande com 138,87 km² de área e 32 322 habitantes, tendo, por isso, uma densidade populacional de 232,8 hab./km²

[5]O LIFO (do inglês Last In, First Out ou "Último a Entrar, Primeiro a Sair") é um método de gestão de inventário e contabilidade. Assume que os artigos mais recentemente adquiridos são os primeiros a ser vendidos ou utilizados

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

Próximo
Próximo

Diz tudo, não diz nada, mas acerta sempre