voltar para casa...

Venho no ar, a meia dúzia de metros dentro de uma lata de salsichas a tentar rever toda a semana. O tempo é curioso, temos meses de preparação e espectativa e entusiasmo, chega num instante e passa num ápice. Mas ao mesmo tempo parece que a semana demorou imenso tempo. Uma pessoa quase tem vergonha de assumir que está cansado e até quer que as palestras sejam curtinhas, para voltar para casa, onde nos espera o sentimento de tristeza porque passou depressa demais e nem deu para aproveitar. Somos uns tolos.

Mas sim, vamos voltar para casa com todas as camadas de significado que a expressão tem.

Os dias da conferência são intensos, é uma experiência de Fé, no mínimo, bonita. São 5000 pessoas, é muita história, muita circunstância, muito background. Anglicanos, Católicos, Batistas, Metodistas, etc. e tal. Acho que só não se juntam as seitas!

Tudo canta, tudo reza junto e apesar da diversidade ninguém estranha. Curiosamente acho que todos se sentem mais ou menos em casa ali. Importa só o Amor, a Jesus, ao Pai, à Igreja e de modo especial uma enorme Paixão de partilhar isto que nos move: a alegria de ser amado, perdoado e chamado por Deus na pessoa do Filho.

Este ano acrescentei dois dias sobre a renovação Paroquial. Também aqui é diferente, embora o contexto seja católico, é uma realidade cultural, pastoral distinta. Mas querem todos o mesmo: voltar a casa.

Um bispo dizia-nos que por vezes olhamos os Atos dos Apóstolos e a Igreja Primitiva carinhosamente a baby church (igreja bebé referindo-se à igreja primitiva) como sendo a época dourada da Igreja, ao ponto de parecer que só naquele tempo é que era! Mas não é verdade. São modelo para nós, escola, permitem-nos aprender critérios, opções que são fundantes e que temos de trazer para a nossa realidade, tempo e circunstância.

Fiéis à Doutrina, ao Credo e à Fé, precisamos ajustar a linguagem, a forma como falamos, partilhamos, anunciamos e continuamos o envio missionário.

É inevitável não vir com um coração cheio de sonhos. De ver comunidades assim entusiasmadas, que não apenas por preceito, mas amor a Cristo que é O Nosso Senhor. Comunidades apaixonadas, focadas na missão. Afinal, não foi isso que Ele nos pediu? Como não desejar ser de outra forma?

Penso nas vezes que sentimos “comichão”, desconforto, por vezes até um certo descontentamento, sem saber bem com o quê! Voltar a casa, ao entusiamo inicial de uma comunidade que põe tudo em comum, que se sente responsável e que não pode calar o grito que sente vir do coração. Ou estamos tão habituados ao normal, ao mínimo, que o resto já interessa pouco?

A chave será de facto voltar a casa, onde faz sentido, onde a presença de Cristo Jesus é forte, quase palpável. O caminho parece longo, demasiado longo às vezes. Implicará aceitar que se andou perdido, ou até na direção errada e que se impõe pedir ajuda.

Estamos às portas da Assembleia Vicarial e certamente não será coincidência. Pediu-se uma opinião (louvado seja Deus que bem sabemos que são grátis e ainda assim há quem prefira colocar-se de fora, é mais confortável apontar dedos do que caminhos) e a ideia é justamente arrumar a casa, voltar às origens. Avaliar e aproveitar o que tem corrido bem para potenciar e melhorar; e ao mesmo tempo a coragem de mudar o que está a gerar insatisfação: a coragem de cortar com o que está a mais.

São tempos desafiantes. A viagem tem sempre esta ambiguidade: entusiasma, mas também nos tira do nosso conforto e das seguranças.

Mas ser feliz, encontrar a Jesus Cristo Nosso Senhor e Senhor do Universo, abrir o coração ao Paráclito, vai dar sempre muito trabalho, vai obrigar a grande coragem.

Mas no fim, no fim será confortável, quentinho, acolhedor, porque é casa.

Pe. Patrício Oliveira

 

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

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