Que o Natal seja uma ocasião para, olhando o Senhor que se faz estrangeiro no meio de estrangeiros, aprendamos dele a urgência do acolhimento, da obediência à vontade do Pai e da promoção da paz e da justiça.
No Evangelho segundo S. Mateus, Jesus afirma que “nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus” [Mt 7, 21]. Por outras palavras, nem todo aquele que professa o credo de cor, porventura com palavras belas e sábias, está no Reino, vive o Reino, ou compreende a lógica do “Reino dos Céus”.
De facto, o nosso Deus, que no Antigo Testamento é apresentado como o Deus dos Exércitos e Senhor do Universo, escolhe entrar no mundo como sinal de contradição, tal como adianta o velho Simeão, quando Jesus é apresentado no Templo. Deus não se apresenta como rebelde ou revolucionário, mas como alguém que, com a sua mansidão, escolhe confundir os nossos esquemas e alterar os nossos projetos demasiado rígidos e previsíveis.
Deste modo, o Reino de Cristo não é uma questão de gestos exteriores, de práticas rituais, de um determinado jargão ou de uma forma de religiosidade, nem sequer de uma pertença a determinado grupo, casta ou linhagem de sangue. No fundo, tal como Jesus avisa no mesmo Evangelho, “tende cuidado com os falsos profetas, que vêm ter convosco com pele de ovelha, mas que, por dentro, são lobos vorazes! Pelos seus frutos os reconhecereis”. Portanto, não basta um repetido “Senhor, Senhor” estéril, pois como dizíamos, a lógica do Reino é outra e, muitas vezes, nem todo aquele que diz “Senhor, Senhor”, conhece ou vive a lógica deste Reino.
Então, quem poderá entender e conhecer a lógica deste Reino? Ora, o Natal é o tempo litúrgico que a Igreja nos oferece para, de uma forma particular, alargarmos a nossa compreensão da lógica de Deus e do seu Reino. Ou seja, é o tempo favorável para alargarmos o coração, a mente e o horizonte e gerarmos espaço para que Deus possa, de facto, fazer-se carne na nossa vida, na nossa realidade e no nosso entendimento.
O Natal é o tempo favorável para alargarmos o coração, a mente e o horizonte e gerarmos espaço para que Deus possa, de facto, fazer-se carne na nossa vida, na nossa realidade e no nosso entendimento.
Nós, cristãos, vivemos numa tensão entre dois polos, que o Advento e o Natal anunciam: a vinda de Jesus na história e a última vinda do Salvador, na sua glória. Por um lado, esperamos e celebramos a vinda de Deus ao nosso encontro na história, através da pessoa de Jesus, que encarnou, que anunciou o Reino com gestos e com palavras, que morreu e ressuscitou e que, portanto, deixou de estar presente na história, de forma visível e sensível. Por outro lado, continuamos à espera da última vinda de Cristo no fim dos tempos, tal como anunciamos a cada Eucaristia após o ‘mistério da fé’: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte. Proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor, Jesus”. Esperamos pelo tempo em que Cristo virá na sua glória para assumir a história da humanidade, para nos assumir completamente, para assumir toda a realidade. Ora, entre estes dois polos, entre a celebração do passado e a expectativa do que há de vir, somos chamados a habitar o presente como gente já salva, porque o nosso Deus, que há de vir, efetivamente já veio habitar no meio de nós.
Contudo, a questão mantém-se: como habitamos esta tensão entre o já e o ainda não? Como passamos das palavras “Senhor, Senhor” à realidade do Reino? Como podemos construir este Reino de justiça, de paz, de bondade, de amor, um Reino no qual todos são tratados com a dignidade própria de filhas e filhos de Deus e, portanto, como irmãos?
Fixando o olhar em Jesus, caminho, verdade e vida, unindo o nosso coração ao seu coração e procurando segui-lo nas suas obras e gestos, podemos esboçar uma resposta. Na sua carta aos Efésios – que eram gregos, ou seja gentios –, São Paulo assevera-lhes , que “nesse tempo [antes do nascimento de Jesus] estáveis sem Cristo, excluídos da cidadania de Israel, e éreis estrangeiros em relação às alianças da promessa, sem terdes esperança e sem Deus no mundo” (Ef 2, 12). Antes da primeira vinda de Cristo, nós, os que não pertencíamos ao povo eleito, éramos todos estrangeiros e não havia união possível entre a humanidade e a divindade.
Mas em Jesus, Deus faz-se um estrangeiro como nós. Deus vem ao nosso encontro, não como o Senhor dos Exércitos, uma pessoa importante, ou chefe de algum império, mas como estrangeiro, habitando no meio de estrangeiros, longe da sua Pátria que é o Céu.
Mas em Jesus, Deus faz-se um estrangeiro como nós. Deus vem ao nosso encontro, não como o Senhor dos Exércitos, uma pessoa importante, ou chefe de algum império, mas como estrangeiro, habitando no meio de estrangeiros, longe da sua Pátria que é o Céu. Neste sentido, pode compreender-se a reação de Natanael, quando lhe é apresentado o Nazareno como o Messias, como se lê no Evangelho de João: “De Nazaré pode vir algo de bom?” (Jo 1, 46) De facto, de Nazaré pode vir alguma coisa de jeito? Como é que me querem convencer de que este homem é o Messias se ele vem de Nazaré, essa cidade secundária, periférica e um tanto ou quanto impura? Este é o primeiro passo para compreender o Reino: o nosso Deus não veio até nós com visto gold na mão, mas vem da periferia, de uma família simples, com uma genealogia onde coabitam grandes santos e grandes pecadores.
São Paulo diz-nos que, nesse tempo, éramos “excluídos da cidadania de Israel”, mas o Deus que vem das periferias, o Deus que aceita ser estrangeiro, migrante e refugiado (cf. Mt 2, 13-15), abriu-nos as portas da eternidade, conciliando em si aquilo que era inconciliável – a humanidade e a divindade.
Na verdade, toda a vida de Jesus foi marcada por um êxodo constante: de Nazaré para o Egipto, de Cafarnaum para Jerusalém, de uma margem para a outra, de si para o outro, até à dádiva plena da vida na cruz e ressurreição. Por isso, saindo de si próprio e estendendo os braços a todos até à morte de cruz, Ele “fez de uns e de outros um só povo (…) e destruiu o muro da separação, isto é, a inimizade” (Ef 2, 14). Assim, a primeira vinda de Cristo mostra-nos como podemos esperar e preparar a Sua última vinda, no presente. Antes de mais, precisamos de tomar consciência de que “agora, em Cristo Jesus, vós, que outrora estáveis longe (…) já não sois estrangeiros nem imigrantes, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus” (Ef 2, 13.19).
Deste modo, o segundo passo para compreender a lógica do Reino consiste em aceitar que não é preciso conquistar ou merecer a santidade, mas somente acolher a salvação que, por Jesus Cristo, nos foi primeiramente concedida.
Deste modo, o segundo passo para compreender a lógica do Reino consiste em aceitar que não é preciso conquistar ou merecer a santidade, mas somente acolher a salvação que, por Jesus Cristo, nos foi primeiramente concedida. Não está escrito que seremos, mas que “nós [já] somos concidadãos dos santos”! Por isso, somos chamados a viver como tal, já não numa lógica mercantilista daquele que diz “Senhor, Senhor”, pensando assim conquistar o Céu, mas como aquele que põe em prática aquilo que aprendeu do seu mestre. Dito de outro modo, somos chamados a viver como estrangeiros em terra própria, numa atitude humilde de serviço, de acolhimento, de construção da justiça e da paz que só é possível quando a dignidade de cada pessoa é garantida. Em Cristo e por causa de Cristo, já ninguém neste mundo é estrangeiro, imigrante ou hóspede, mas concidadão dos santos e membro da família de Deus. Por conseguinte, um cristão não age para ganhar o Reino, o Céu, ou a santidade, mas procura sempre e em tudo proceder ao estilo de Cristo, para concretizar hoje, nesta terra, o seu Reino.
É por isso que, no momento presente da história que vivemos, precisamos de homens e mulheres que, diante da noite que parece querer falar mais alto às nossas comunidades e à nossa sociedade, se deixem iluminar pela luz que vem de Cristo e, sem medo de ir contra a corrente, escolham viver segundo o estilo do acolhimento, do cuidado, tratando os outros, sejam eles quem forem, da mesma forma como fomos acolhidos, cuidados e tratados por Deus, na Encarnação de Cristo.
“Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no reino dos céus, mas o que faz a vontade do meu Pai que está nos céus” (Mt 7, 21). Se “o amor se deve por mais nas obras do que nas palavras”, como diz Santo Inácio de Loiola nos Exercícios Espirituais (EE 230), fazer a vontade do Pai consiste em viver ao estilo daquele que nos deu a conhecer essa vontade. Portanto, a tensão entre o primeiro Natal e a última vinda de Cristo é o terreno fértil para pormos em prática a Palavra que se manifestou e se nos deu a conhecer. Numa perspetiva cristã, paradoxalmente, não são os muros ou as grandes manifestações de força ou poder que criam sociedades ou identidades sólidas, mas um estilo de vida marcado pelo amor, pelo respeito absoluto pela dignidade humana e pela promoção da justiça e da paz. Estas sim, representam a mais perfeita identidade cristã, mesmo implicando a revelação de uma certa vulnerabilidade.
Concluindo, desejamos que este tempo de Natal seja um momento favorável para passarmos de cristãos que apenas dizem “Senhor, Senhor”, a homens e mulheres que, olhando para o Senhor que se faz estrangeiro no meio de estrangeiros, aprendam do seu coração aberto, a urgência do acolhimento, da obediência à vontade do Pai e da promoção da paz e da justiça, para assim nos edificarmos como pessoas e sociedades sólidas, porque alicerçadas na verdadeira rocha que é Cristo.
António Ferreira da Silva, sj
P. João Manuel Silva, sj

