À falta de luz, a luz dos cristãos
Quando a tempestade Kristin varreu Portugal, deixando milhares de lares às escuras e comunidades isoladas, algo notável aconteceu nas sombras do caos. Enquanto as linhas elétricas caíam e ainda estão no chão, outra rede — invisível mas profundamente enraizada — activou-se com eficiência assinalável. Não falamos de infraestruturas, mas de pessoas. Cristãos e não-cristãos, crentes declarados e humanistas silenciosos, todos movidos por um impulso que transcende o mero civismo: o encontro genuíno com o outro que precisa. Se a tempestade expôs a fragilidade das nossas redes materiais, revelou também a resiliência de uma rede humana forjada, quer reconheçamos ou não, numa matriz cultural profundamente cristã.
A resposta institucional da Igreja foi visível e eficaz. A Cáritas mobilizou equipas, distribuiu bens essenciais, ofereceu abrigo. Paróquias associaram-se a centros de coordenação com uma presença organizada importante e que deve ser reconhecida. Conferências vicentinas e grupos de acção social juntaram-se para fazer a sua parte. Mas é redutor circunscrever essa presença apenas às instituições eclesiais. Por esse país fora, incontáveis gestos aconteceram longe dos holofotes: o vizinho que partilhou o gerador, a família que acolheu desconhecidos, o comerciante que manteve a loja aberta sem pensar no lucro. Muitos foram protagonizados por católicos, conscientes da resposta ao mandato de Cristo de serem sal da terra e luz do mundo. Outros, porém, foram realizados por pessoas sem qualquer filiação religiosa explícita, algumas até declaradamente agnósticas.
Como explicar esta convergência? A resposta, embora possa incomodar tanto crentes triunfalistas como antirreligiosos militantes, é historicamente verificável: a consciência social que permeia a cultura portuguesa, mesmo nas suas expressões mais seculares, foi moldada por séculos de cristianismo. Os valores da dignidade humana universal, da solidariedade comunitária, do cuidado pelos vulneráveis, têm raízes. Quando alguém que nunca entrou numa igreja decide ajudar desconhecidos afectados pela tempestade, está a agir a partir de um substrato ético que o cristianismo depositou na consciência colectiva. Esta afirmação não é triunfalismo religioso; é simplesmente história cultural. E há que dizê-lo sem medo, mesmo num contexto que tende a desdenhar qualquer manifestação de fé ou afeição religiosa.
Há, é certo, uma dimensão específica na acção cristã consciente — a que brota da oração, da experiência sacramental, do encontro pessoal com Cristo. Esta dimensão confere ao gesto caritativo uma profundidade particular: reconhecer no outro a imagem de Deus. Contudo, seria presunçoso afirmar que apenas os gestos explicitamente religiosos têm valor. O próprio Cristo reconheceu que muitos que nem o conhecem acabam por cumprir a vontade do Pai na prática, e isso é hoje confirmado pela miríade de samaritanos que andam ocupados a fazer o bem que outros não quiseram fazer. Os dias da tempestade mostraram ambas as realidades: cristãos a viverem naturalmente a sua fé, e pessoas sem essa identificação a revelarem, nos seus actos, os frutos de uma árvore cujas raízes desconhecem.
Importa ainda sublinhar o carácter discreto desta rede solidária. A maioria dos gestos permanece anónima. Não aparecem nos noticiários (que, quando escrevo, se moveram para paragens onde o espectáculo da informação se sobrepõe ao sofrimento que continua e se agrava nas áreas afectadas pela Kristin). Acontecem simplesmente porque, no momento da necessidade, alguém decidiu que não podia ficar indiferente. Esta discrição é a forma mais pura de empatia cristã — aquela que não busca reconhecimento. É a mão esquerda que ignora o que a direita faz.
A secularização não erradicou os fundamentos éticos do cristianismo — apenas os tornou menos conscientes. E as tragédias revelam o melhor da humanidade quando apelam a valores profundos de fraternidade e serviço. Nenhuma ideologia contemporânea — nem o individualismo neoliberal, nem o materialismo consumista — consegue gerar, sozinha, o tipo de resposta solidária que observámos.
A proposta é dupla. Aos cristãos: que a luz seja permanente, não apenas reactiva; que o serviço seja estilo de vida; e que o façam com a alegria de quem participa em algo maior. À sociedade: que reconheça, sem preconceitos ideológicos, as raízes dos valores que preza; que não se envergonhe de nomear as fontes da sua compaixão. À falta de luz eléctrica, a tempestade Kristin mostrou-nos onde residem os verdadeiros candelabros: na capacidade humana de ser, para o outro, presença que aquece, orienta e conforta. Essa luz não se apaga com o vento.
Paulo Adriano