Domingo III Quaresma

A Sede que nos Conduz ao Abraço de Deus

O Evangelho de hoje leva-nos junto ao Poço de Jacob. Jesus, fatigado da caminhada, senta-Se à beira do poço ao meio-dia, na hora em que o sol está mais forte e o calor é intenso. Surge então uma mulher da Samaria carregando a sua bilha. Por que razão vai buscar água à hora de maior calor, quando todas as outras o faziam ao fresco da manhã? O texto sugere-nos uma resposta silenciosa: ir a esta hora era a sua estratégia para evitar encontros e julgamentos. Com uma situação irregular, ela era a "marginalizada" da aldeia, alguém que preferia o peso do sol ao peso do olhar dos outros.

Ao falar com ela, Jesus deita por terra as convenções e o “sempre foi assim”, quebrando as barreiras do preconceito religioso e do julgamento moral. Ele não começa o diálogo apontando os erros daquela mulher, mas por lhe pedir: «Dá-Me de beber». Ao pedir água, Jesus revela a Sua própria sede de nos encontrar e de que tenhamos parte com Ele. A Samaritana, mesmo carregada pelo peso do passado, é vista pelo Senhor com um olhar que ultrapassa os erros e vê a nossa essência. Jesus pede de beber porque tem sede da nossa vida; Ele não quer a água do nosso balde, mas quer que descubramos que o Seu amor é a única fonte que nos devolve a identidade de filhos de Deus.

Jesus usa a água, o elemento mais básico, para nos falar de algo mais profundo. A água do poço representa as nossas buscas quotidianas e as tentativas de preencher o vazio do coração em poços que secam depressa. É aqui que aquela mulher, que foi ao poço como num dia normal, descobre algo muito maior: que só Deus pode saciar a sede mais profunda do coração. Jesus oferece-lhe a “água viva”, a vida nova que traz paz e sentido. Esta água é o próprio Espírito Santo, uma presença interna que transforma o nosso deserto interior numa nascente.

Jesus mostra-nos que o encontro com Deus não depende de rituais perfeitos, mas da nossa verdade interior. Adorar em espírito e em verdade é um convite à sinceridade connosco próprios e com o Pai. Devemos apresentarmo-nos diante de Deus sem máscaras, com as nossas feridas e a nossa sede. Deus não espera que sejamos "perfeitos" para O adorar; Ele quer que sejamos verdadeiros no caminho para O encontrar. É nesse gesto de entrega, no meio da nossa própria sede, que a transformação começa.

Quando Jesus revela quem é, o coração daquela mulher transborda e ela «deixou a bilha» junto ao poço. Aquele objeto, símbolo da sua rotina pesada e do seu isolamento, tornou-se subitamente desnecessário. Carregamos muitas vezes 'bilhas' de velhos hábitos que insistimos em encher todos os dias. Que possamos ter a facilidade de abandonar o que nos aflige e o que nos mantém encurralados; ao deixar a bilha, ela não perdeu, ganhou a leveza necessária para continuar. Enquanto as nossas mãos estiverem ocupadas a segurar as bilhas da autossuficiência, não estarão livres para receber o Dom de Deus. Liberta, ela corre para anunciar a todos: «Vinde ver».

Enquanto a mulher corre para a cidade, Jesus ensina aos discípulos que a vida não se sustenta apenas pelo que consumimos, mas pelo propósito pelo qual vivemos: «O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que Me enviou». Ver a Samaritana transformada foi, para Jesus, mais restaurador do que qualquer refeição.

 Jesus convida-nos a "erguer os olhos" e a perceber que os campos já estão loiros para a ceifa. Os campos loiros são as pessoas que cruzam o nosso caminho todos os dias e que estão sedentas de sentir o amor de Deus.

Jesus recorda-nos também que ninguém faz a obra de Deus sozinho: «Um é o que semeia e outro o que ceifa». Na nossa paróquia, beneficiamos hoje do trabalho de quem veio antes de nós e preparamos o terreno para os que virão.

Na missão da Igreja não há lugares de destaque, mas um esforço comum onde a alegria é de todos.

Para participarmos nesta missão, Jesus faz-nos um convite essencial: o de sermos verdadeiros. Pede-nos que reconheçamos a nossa sede e que tenhamos a coragem de largar os hábitos que nos impedem de viver plenamente a alegria de sermos Seus filhos.

Que a nossa paróquia seja este lugar de encontro, onde ninguém se sinta julgado, mas todos se sintam amados por Deus.

Que a nossa vida não seja apenas um recipiente que acumula graças, mas que nos tornemos, verdadeiramente, uma nascente para o próximo, transbordando a esperança que recebemos naquele encontro silencioso à beira do poço.

 

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

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