A visita de Deus

Conta-nos o Pe. Pedrosa Ferreira num dos seus livros, que um homem santo e piedoso, soube que Deus o iria visitar à sua casa. Ficou preocupado, não porque não apreciasse a visita de Deus mas porque, homem de afazeres como era, nunca tivera grande tempo nem disposição para ter a casa arrumada e preparada para receber hóspede tão insigne. Mas uma visita nunca se recusa, sobretudo se o visitante é Deus, que nem todos têm esse privilégio. E vá de percorrer todos os cantos da casa, a ver o que era preciso limpar, as coisas que estavam a destoar, o que era necessário retocar. Trabalho demasiado para as suas forças e para o tempo de que dispunha. Foi então que teve a ideia de pedir ajuda. Abriu a janela, deixou entrar o sol e gritou para a rua: - Vou ter uma visita importante: quem poderá ajudar-me a limpar a casa?

Como ninguém respondesse ao convite, começou ele sozinho a fazer as limpezas. Ao menos dar um jeito a toda aquela bagunça. Mas pouco depois, finalmente um voluntário apareceu para o ajudar e os dois deitaram mãos à obra. "Ainda há gente boa!" pensou ele, desfazendo-se em agradecimentos a colaborador tão compreensivo. Expôs-lhe o seu programa, dividiram o trabalho pelos dois. Havia o pavimento a lavar, tirar as teias de aranha, limpar o pó, dar uma certa arrumação àqueles trastes que eram a sua mobília. Um trabalho sem fim até porque a casa nunca tinha sido alvo de uma barrela tão a preceito como aquela.

"Isto nunca mais acaba", dizia o homem limpando o suor e cansado de tanto limpar. "Havemos de acabar", respondia calmamente o voluntário.
E lá continuaram as limpezas durante todo o dia.
À noite, deram por concluída a sua taina: a casa lá parecia outra, estava limpa e até perfumada, com o cheiro a coisas novas e asseadas.
Foram então para a cozinha e vá de preparar o jantar, que Deus não devia tardar. Mas agora, tudo bem, não se sentiria envergonhado. A casa continuava pobre, mas ao menos estava limpa e asseada. E o jantar, feito com a colaboração do amigo, também estava caprichado.
Agora Deus pode vir, disse o homem. Esperemos que não demore muito, se não a comida ainda arrefece. 
- Estou já aqui, disse o hóspede. Senta-te e come comigo (Parábolas da outra margem, Pe. adélio Torres Neiva) 

 

É uma belíssima parábola esta do Padre Adélio Torres Neiva.
Senta-te e come Comigo é sem dúvida uma forma muito bonita de falar do desejo de Deus, sentar à mesa, comungar, alimentarmo-nos Dele.
Nós entendemos bem este sentimento. O padre Armindo repetia inúmeras vezes: come aqui um bocado à mesa. É uma porta aberta para entrar na nossa intimidade, no círculo próximo, não é para estranhos aleatórios.
E dos cuidados esses, vossas mercês conhecem bem melhor que eu.
Recordo ainda com vergonha, aquando da visita Pastoral do D. António Marto, houve bricolagem a fazer na capela da Maceirinha, lá andámos no meio das obras e do pó já farruscos, quando chega a missiva: o padre Patrício hoje almoça connosco, avise lá a casa paroquial que só vai jantar!
Tentei recusar educadamente, não estava nada apresentável nem com tempo para uma visita.
Não se preocupe! Mandamos vir um frango, é coisa rápida.
A mesa estava posta com Vista Alegre... e o frango nunca veio, que aquilo mais parecia uma visita de Estado.

O convite de Deus é maior ainda, e estes dias de Quaresma lançam-nos no tempo necessário de nos prepararmos para sermos acolhidos no seu abraço paterno. Não pede muito.
Pede que digamos sim, às mãos sujas que carregamos estende uma bacia de água para nos lavarmos e até nos ajuda a sacudir o pó.
Qual Pai do filho pródigo, até nos oferece roupa nova, que vestimos no baptismo e aprumamos na reconciliação.
E à imagem do que acontece com o homem santo e piedoso Deus caminha connosco e ajuda-nos a fazer o caminho de preparação. É curioso como lança o convite de sentar à mesa, mas lança-se ao nosso encontro, pelo que é na nossa casa que o encontro acontece, na nossa vida.
Estes exercícios quaresmais podem ser bem frutuosos, podemos começar por quer acolher o Senhor, para depressa percebermos que é muito mais agradável viver numa casa arrumada.

É tarefa exigente e assustadora. E é fácil fazer a versão rápida, mudar de sítio, guardar a quinquilharia naquele quarto... exige coragem e determinação: fora com o velho que não trás nada novo, que apenas ocupa espaço. Tirar o pó das coisas preciosas que guardamos, voltar a colocar brilho nos sacramentos, na vida de oração, na devoção e piedade popular.

E teremos tudo orientado para um jantar memorável.

pe. Patrício Oliveira

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

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