Para sempre – Forever - Kairós
Esta semana foi dia de ensaio dos Extrema Unção, há uma voz nova.
Estamos a fazer um processo chamado ecdise, dos 7 intrumentistas, 4 têm menos de 30 anos, 5 se contarmos o roadie!
No meio do já considerável repertório disponível, saltou à vista uma das antigas, chama-se Forever, de uma norte americana chamada Kari Jobe.
O vídeo que me chegou na altura, há 11 anos, era incrível. A música enche o ouvido, o teatro, o cenário, as guitarras, os instrumentos, violinos... e aquela gente toda ali em harmonia e afinados.
Ardia-me o coração de inveja, era para mim uma novidade que a música pudesse ter tanto de bonito como de profundo e nos elevasse a Deus em oração.
Para quem lutava para não desafinar muito tudo aquilo era utópico.
Neste ensaio, carreguei o vídeo na televisão para mostrar a música. Silêncio. Não é, de todo, apenas da minha cabeça, tudo ali está bem feito, ensaiado, pensado e trabalhado ao mais pequenino pormenor.
À minha frente, de lado para mim, só vê um corpo franzino, pendurado naquela enorme cabeleira onde esconde também a Voluta do violoncelo, agarrou-se com uma segurança e confiança que sabe Deus de onde lhe vem; ao lado, vejo-me obrigado a olhar para cima, porque a Ângela há anos que faz questão de mostrar ao mundo que tem bem mais de meio metro a mais, já estava a cantar e discutir vozes de peito, de garganta e falsetes; perdida no sofá escondida atrás do sorriso, que não se sabe ser confiança ou vergonha, a Matilde lá ia como se tivesse nascido para aquilo. O Diego gosta mais disto que de chocolate e quase tanto como gosta do chimarrão dele.
Os outros juntam-se logo, o Amândio pergunta “que música é essa” ri-se e 10 minutos de pois parece que foi ele quem a escreveu. E a Leonor senta-se na bateria, depois de sussurrar uma boa noite e toca. Toca como se fosse fácil. A Margarida desta vez não vem e ainda bem, porque nos faz a todos ficar mal no que diz respeito a tocar, fica de folga que fica muito bem.
Foi aí que me bateu o pensamento: a oração foi ouvida, a prece escutada e respondida.
Veio quando estávamos prontos, capazes de abraçar o dom.
Com direito a violoncelo e tudo. Fiz contas de cabeça: a Inês tinha 3 anos, a Leonor 2, a Matilde 9, a Ângela uns 11 e o Diego vivia a 8957 kms de distância. Nenhum dos que Deus precisava para me alegrar o dia estavam disponíveis, precisavam de algum tempo. E eu também precisava.
Nem me tinha apercebido que tinha passado tanto tempo. Boa parte dele só com o Amândio e a paciência dele de segurar as pontas todas.
Agora afinamos, tocamos com in ears, as guitarras são iguais. Aconteceu no kairós, no tempo de Deus, quando Ele sabia ser oportuno.
Hoje cantamos e louvamos para sempre o amor de Deus que cuida, nutre e faz crescer.
Enche-me o coração a ver o brilho nos olhos, o silencio que fica no fim, o gosto de fazer porque é missão. Aconchega-me o coração saber que o futuro é risonho, ao contrário do anunciado pelos profetas da desgraça.
Não foi fácil. E não foi sempre bonito. E ainda é desafiante. Mas terça-feira, Deus permitiu-me ver uma ponta do plano que Ele tem para mim, para eles e para vocês.
Já não é só entusiasmo de ver e executar uma música bonita.
É a certeza que criando espaço, investindo tempo, cuidado de Evangelizar, de insistir no Kerigma, abre-se espaço para a acção de Deus. Abre-se espaço para o Seu Amor, a sua Graça (e até a Sua Misericórdia).
Fica a certeza de que com o tempo, a paciência e a persistência necessária, tudo isto pode ser expandido, multiplicado a todas as dimensões da paróquia. As tradicionais e as que ainda não nos lembrámos.
Sempre que batizo um menino penso o mesmo: ainda vai a tempo de ser meu colega de profissão.
Não há muito tempo um acólito dizia-me que queria falar comigo. Saiu-me, depressa de mais, um: queres que te leve ao seminário? Não pestanejou “já pensei no assunto”, mas não é isso.
“Ainda”, pensei eu!
Pedimos muita vez paciência a Deus, sobretudo para com os outros, hoje peço paciência para com Ele, para que possa agir.
Já pensaram na quantidade coisas absolutamente incríveis que Ele tem à nossa espera e que pode estar só à espera que Lhe dêmos atenção devidas, libertemos as mãos para receber, ou tenhamos a maturidade necessária?