A voz do Bom Pastor

“...e as ovelhas conhecem a sua voz”

É um Domingo bem-querido este que se aproxima, a Páscoa está bem viva e presente na nossa memória, estamos ainda em Festa. Continuamos a fazer sentido da Ressurreição, a reler a vida de Jesus à luz deste facto e observamos como os discípulos se transformam, convertendo-se naquilo que Jesus sabia que eles seriam. Em tudo isto vamos descobrindo o que diz Jesus de si.

Este Domingo assume um discurso direto: “Eu sou a porta das ovelhas”. Acho sempre curiosa a reação “eles não compreenderam”, para nós o texto é tão familiar, presente e bonito, como podem eles não entender?!

Jesus é o bom pastor, o porteiro (lembram-se que o Papa Francisco chegou a ser porteiro em Buenos Aires?) reconhece-O e deixa-o entrar no aprisco, palavra que usamos apenas uma vez por ano. É o Bom pastor, caminha à frente e ao mesmo tempo é a Porta.

Simples. O que é que eles não compreenderam?!

Que se pode ser pastor e porta? Física quântica avançada, um objeto em dois estados ao mesmo tempo; o gato do Schrödinger, que está vivo e morto ao mesmo tempo.

Já ouvir a voz... há tanto ruído. Jesus tenta separar-se das ofertas falsas ao mesmo tempo que se apresenta como a única porta, a única opção, A opção, A solução, O Caminho para quem quer vida e vida em abundância.

Gostava que hoje fosse mais fácil, não é. Os falsos profetas são tão estapafúrdios que se distinguem bem. Mas a voz... há tanto ruído.

Não é apenas estarmos num belo prado, protegidos pelo aprisco e sair para ir à vida apenas com O nosso Pastor.

Vivemos num mundo bem diferente da parábola. Talvez mais urbano, mais agitado, as fronteiras do aprisco são diferentes e de facto nós vivemos no meio de um mar de ovelhas e rebanhos e pastores.

A parábola é muito completa, as ovelhas conseguem mesmo distinguir “aquela” voz. Ao fim do dia, ao regressar do pasto, sabem onde devem ficar.

Como? Talvez seja esse o segredo do nosso sucesso espiritual. Tempo. Muito tempo passado juntos, horas de caminho, Ele à frente e nós atrás.

A Palavra, os sacramentos, a Adoração ao Santíssimo, a Eucaristia como estilo de vida.

Li estes dias que a Missa devia ser a desculpa para faltarmos a tudo o resto.

Nem me façam lembrar dos que que a querem o mais rápido possível...

Passar tempo. Ouvir! Ler a palavra, ficar em silêncio para escutar.

Parece-me sempre tão pobre a nossa maneira infantil de fugir ao silêncio: metemos uns textos, umas músicas, puxamos do terço.

Fazemos de tudo para não nos ouvirmos! Porque é isso que acontece.

Mas para chegar ao patamar de ouvir A Voz do Bom Pastor, precisamos forçar o patamar do ruído interior e ir mais além.

E aí sim, aí torna-se familiar, clara, segura, protetora, guia.

Mesmo na confusão, no ruído do corre-corre do dia-a-dia.

Coragem e boa sorte!

Pe. Patrício Oliveira

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

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