Vocação para quê? Sei lá…

Na próxima semana assinalamos a Semana de Oração pelas Vocações. Pensamos imediatamente nos jovens, vocações ao sacerdócio, essa raça em vias de extinção; nas jovens meninas, que talvez levadas por um desgosto de amor, queiram ingressar numa ordem religiosa.
Sinto sempre que afunilamos a questão, a vários níveis:
Seja na preocupação e no foco da oração = a vocações de especial consagração. 
Seja até dentro da própria “hierarquia”, onde por vezes compartimentalizamos a questão.

Penso sempre num episódio da Teoria do Big Bang, em que são 5 dolares ao Sheldon para comprar um chocolate, não havendo o dito chocolate disponível e perante a oferta de outra guloseima, a resposta não tardou: “mas este dinheiro é para este chocolate!”

A vocação não se reduz à consagração. Normalizou-se a mais comum: casar. E para essa ninguém pergunta se tem vocação! Até se é empurrado socialmente para ela, que o digam as jovens solteiras a chegar aos trinta anos que evitam toda e qualquer festa familiar para não levar com a avó a perguntar: “Então mas e quando é que trazes o namorado?”
Quem é que nunca foi atendido por um médico sem vocação nenhuma para aquilo?! Ou qualquer outro serviço de atendimento ao público…

Devíamos normalizar a questão bem mais alargada e abrangente: “o que é que vossemecê me quer?”
A vocação preenche sempre os anseios mais íntimos e profundos do coração humano.
E talvez a dificuldade comece por aí: o que é que me faz feliz? O que é que me preenche? Não são questões fáceis de responder. E honestamente: nem de colocar e não raras as vezes ficam para depois…
Mais difícil se torna quando a resposta parece ser fora da caixa. A coragem de ser alternativo, contra a corrente, correr o risco de ser olhado de lado, gozado pelos pares. Seja por querer experimentar o seminário, sonhar em vestir hábito religioso ou casar virgem!

Tenho para mim que precisamos de ajudar a crescer para a liberdade, com coragem, inquieta e curiosa. Assumir os riscos, crescer na segurança que não faz mal questionar, experimentar, ir ver! E que não faz mal dizer: afinal não era isto.

Não vos inquieta o quão comum é o encolher de ombros dos mais novos[1] quando se pergunta “o que queres ser quando fores grande?” Ou “do que é que tu gostas?
Não é fácil para ninguém, nem para eles, os novos, nem para os pais. 
Mas a questão não se fica só nos novos. 
Não deveríamos ser todos corajosos e aproveitar estas semanas, para colocar a questão: o que me faz feliz?

Reparem, não é obrigatório que a vocação coincida com uma opção de vida, ou uma profissão. É ótimo quando coincide e quando se torna possível essa união. Mas porque não ser algo mais? Algo extra. Uma dimensão da vida que alimentamos para lá do horário habitual.
E sim, estou a escrever e a ouvir, bem sei, é complicado em várias camadas ao mesmo tempo. 
Mas ao mesmo tempo, também sei que é a luta pela felicidade, pelo propósito ou pelo sentido, como preferirem chamar.
Não será para aqui que devemos caminhar? Não é para isto que gostaríamos de ver crescer os vossos filhos? 

Deus chama, lua do latim vocare, andaremos nós a deixar tocar sem atender?

Rezemos. 

Pe. Patrício Oliveira

ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES

Senhor, Pai e Criador, 
fonte de toda a vida,
acolhe a nossa oração
e ajuda-nos a descobrir o sonho
que tens para cada um de nós.

Senhor Jesus, amigo fiel,
revela-nos os passos
para Te seguirmos 
mais de perto.

Espírito Santo, fogo ardente,
derruba em nós 
os medos e os obstáculos
para vivermos a nossa vocação.

Ave, Maria, nossa Mãe,
acompanha-nos no caminho 
da vocação rumo à santidade.

Nós cremos, Senhor, 
na Tua promessa fiel:
«Eu Estou Contigo» – 
hoje, amanhã e para sempre.
Amen.

[1] Hoje de manhã uma garota de 24 anos teve a lata de se dirigir a mim e a outros como eu: mas eu tenho idade para ser vossa filha...

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

Próximo
Próximo

Ripple Effect