De boas intenções está o inferno cheio

Junho é um mês particularmente belo e doce, o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria revelam-se à humanidade sedente de sentido e propósito.

Ainda à luz das aparições de Maio, recordamos a promessa feita à Ir. Lúcia: “O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus[1]”.
Estou seguro de que a promessa se mantém para nós: refúgio e caminho que conduz até Deus. 
Toca-me profundamente a ideia de pedir a reparação e o desagravo.

– Sacrificai-vos pelos pecadores e dizei muitas vezes e em especial quando fizerdes alguns sacrifícios: "Ó Jesus, é por Vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria"[2].

Começou com a aparição do Anjo: 
“– Que fazeis? Orai! Orai muito! Os Corações de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios.
– Como nos havemos de sacrificar? – perguntei.
– De tudo que puderdes, oferecei um sacrifício em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores.”[3]

“– Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o Preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os Sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-vos a conversão dos pobres pecadores.[4]

A primeira aparição de Nossa Senhora abre com o mesmo pedido: 
“Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?”
“– Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios por os pecadores, que vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas.[5]

Em Pontevedra continua a insistência:

“– Olha, minha filha, o Meu Coração cercado de espinhos, que os homens ingratos a todos os momentos Me cravam, com blasfémias e ingratidões. Tu, ao menos, vê de Me consolar e diz que todos aqueles que durante cinco meses, ao primeiro sábado, se confessarem, receberem a Sagrada Comunhão, rezarem o Terço e me fizerem 15 minutos de companhia, meditando nos 15 Mistérios do Rosário com fim de Me desagravar, Eu prometo assistir-lhes, na hora da morte, com todas as graças necessárias para a salvação dessas almas.[6]»

Partilho ainda a aparição do Menino Jesus, que Ele me perdoe, mas é caricata e me parece bem humorada da parte dele, não obstante a seriedade do assunto.

Excerto das Memórias da Irmã Lúcia, que refere a segunda aparição de Pontevedra.

"No dia 15-2-1926, voltando eu lá [a deitar um apanhador de lixo fora do quintal], como é costume, encontrei ali uma criança que me parecia ser a mesma [que já encontrara uma vez antes] e perguntei-lhe então:
– Tens pedido o Menino Jesus à Mãe do Céu?
A Criança volta-se para mim e diz:
– E tu tens espalhado, pelo mundo, aquilo que a Mãe do Céu te pediu?
E, nisto, transforma-se num Menino resplandecente. Conhecendo, então, que era Jesus, disse:
– Meu Jesus! Vós bem sabeis o que o meu confessor me disse na carta que Vos li. Dizia que era preciso que aquela visão se repetisse, que houvesse factos para que fosse acreditada, e a Madre Superiora, só, a espalhar este facto, nada podia.
– É verdade que a Madre Superiora só, nada pode; mas, com a Minha graça, pode tudo. E basta que o teu Confessor te dê licença, e a tua Superiora o diga, para que seja acreditado, até sem se saber a quem foi revelado.
– Mas o meu Confessor dizia na carta que esta devoção não fazia falta no mundo, porque já havia muitas almas que Vos recebiam, aos primeiros sábados, em honra de Nossa Senhora e dos 15 Mistérios do Rosário.
– É verdade, minha filha, que muitas almas os começam, mas poucas os acabam; e as que os terminam, é com o fim de receberem as graças que aí estão prometidas; e Me agradam mais as que fizerem os cinco com fervor e com o fim de desagravar o Coração da tua Mãe do Céu, que os que fizerem os 15, tíbios e indiferentes…
{– Meu Jesus! Muitas almas têm dificuldade em se confessar ao sábado. Se Vós permitísseis que a confissão de oito dias fosse válida?
– Sim. Pode ser de muito mais dias ainda, contanto que estejam em graça no primeiro sábado, quando Me receberem; e que nessa confissão anterior tenham feito a intenção de com ela desagravar o Sagrado Coração de Maria.
– Meu Jesus! E as que se esquecerem de formar essa intenção?
– Podem-na formar logo na outra confissão seguinte, aproveitando a primeira ocasião que tiverem de se confessar.}"

Isto para chegar à questão da intenção.

O que Nossa Senhora e O Nosso Senhor pedem, é tão simples quanto um coração que os ame. Amor. Sem medida, sem contrapartida. Olhos posto ao alto de quem reconhece que Ele morreu por nós e porque nos ama. 
E foi preciso vir a Mãe pedir que não ofendamos mais... 
Sinto sempre que o pedido foi pesado para os Pastorinhos, quase que uma missão de nível militar.

Este relato do diálogo com o Menino Jesus iluminou o meu coração. Provoca-me um ódio de estimação a ideia de um Deus contabilista, custa-me horrores a expressão que usamos facilmente: ganhar o Céu. Céu não se ganha! Foi oferta, é dom gratuito do Amor de Deus que nos Ama perdidamente.

E só quer que o amemos de volta, para podermos voltar para onde Ele nos quer, como qualquer Pai: junto de si, livres das armadilhas do tentador, que só O quer ofender.

É de facto uma guerra. Que a avaliar pelos noticiários estamos a perder. 
Mas ao mesmo tempo, parece simples de vencer.

Que este mês, nos traga um amor redobrado. Sacrifícios, entregas, pegar nas nossas dores e acrescentemos: "Ó Jesus, é por Vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria”.

E se de repente o nosso foco fosse desagravar o Sagrado Coração... e com isso, deixar-me moldar e transformar?

Confessar-me, rezar pelas intenções do Papa, oferecer os sacrifícios da vida no dia a dia como gesto amoroso que oferecemos a Deus. não para ganhar, antes apenas para dizer: obrigado meu Senhor e Meu Deus...

Pe. Patrício Oliveira


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[1] Aparição de Junho em Fátima

[2] Aparição de Julho em Fátima

[3] Segunda aparição do Anjo

[4] Terceira aparição do Anjo

[5] Aparição de Agosto

[6] Aparição de 10 de Dezembro de 1925 em Pontevedra


FOTO: Escultura “Visão de Nossa Senhora e do Menino Jesus em Pontevedra”, de Matilde Olivera, com uma imagem do Menino Jesus, do século XVIII, no contexto da exposição temporária “Refúgio e Caminho”, que comemora o centenário das aparições de Nossa Senhora de Fátima em Pontevedra.

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

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