Grande reportagem Renascença

Esta reportagem foi lançada na terça-feira, dia de folga.

Era dia de Assembleia do clero. Recebi mensagem às 08h44:

- “Sei que estás de folga e não é para falamos disto hoje. Mas é só uma ideia para depois te explicar melhor e para não me esquecer.”

Às 22h00 recebi sms de uma noiva com dúvidas, um casal simpático que tinha recebido na véspera depois da missa em horário pós laboral.

Ficou surpresa, não sabia que era dia de folga. Não estranhou a hora tardia, disse-me com genuína surpresa: “Os padres estão sempre disponíveis!”

Há poucas semanas vários paroquianos, assíduos, ficaram muito surpresos com a minha indisponibilidade para reunir após a missa das 17h no sábado, não sabiam que havia missa no Pilado.

Partilho convosco, é uma leitura interessante.


Burnout nos padres. "Cheguei a ter ataques de pânico no altar a celebrar missa"

Multiplicidade de tarefas exige sacerdotes multitasking. Entre missas, confissões, casamentos, batizados e funerais, às vezes fazem tudo no mesmo dia. Sem folgas, nem férias. Há quem tenha seis e mais paróquias a cargo e acumule com a gestão de centros sociais, dê aulas ou seja capelão em prisões e hospitais. Para chegar a tudo comprometem a saúde física e mental. Nesta reportagem ouvimos quem chegou ao limite da exaustão e quem receia adoecer, conselhos terapêuticos e propostas concretas para "não normalizar" o cansaço extremo como "consequência inevitável da vocação".

Ângela Roque (texto) , Rodrigo Machado (ilustração) , Diogo Casinha (sonorização)

A privação de sono é um dos sinais de alerta de burnout, mas Daniel Gomes de Almeida, de 42 anos, atual pároco de Belas, demorou a perceber que precisava de ajuda médica. "Dormia pouco. Muitas reuniões à noite, adormecia só às 2h da manhã e às 5h já estava acordado, muitas vezes às 4h. Começava a pensar, a pensar, escrevia para não me esquecer. Desde 2022 que andei assim", conta.

A folga à segunda-feira "não chegava para recuperar". E nem sempre a gozava, para conseguir chegar a tudo, já que além da paróquia também acompanha presos e doentes. "Sou capelão na Carregueira e nas Casas de Saúde da Idanha e de Belas, das Irmãs Hospitaleiras, na área da saúde mental e em paliativos. Um trabalho de equipa, espiritualmente belíssimo, mas emocionalmente exigente", reconhece.

Em 2024, dois momentos de desorientação ao volante fizeram soar os alarmes. "Fui a uma boda de casamento e perdi-me, não sabia onde estava. Quando peguei no carro não sabia onde é que era o norte e o sul, estava desorientado". Quando ligou à médica de família, na manhã seguinte, voltou a sentir-se no lodo. "Estava em alta voz, e no meio da condução perdi-me outra vez. Fiquei assustado".

Apesar de todos os sinais foi resistindo a parar e a tomar a medicação, que entretanto lhe foi prescrita. "Pensei: 'Sou forte, vou dar a volta, não preciso disto para nada.' E não tomei".

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O cansaço foi aumentando e nem sempre quem estava à volta lhe deu o apoio certo. "Há uma mentalidade dos padres mais velhos de que nós somos fortes, não damos parte fraca e temos muito tempo para descansar. Mas não é bem assim. Isto não mata, mas mói", sublinha.

Em 2025 teve de travar a fundo. "O psiquiatra disse: 'O senhor está com esgotamento, com burnout. Vai de baixa imediatamente um mês, depois logo se vê.' Estive fora três meses, e continuo a ser seguido por ele e por uma psicóloga da Casa de Saúde das Irmãs Hospitaleiras".

Recentemente, em abril, sofreu uma recaída. "Com a Semana Santa, uma peregrinação a pé a Fátima e uma situação especial nos paliativos, piorei.Acompanhar uma mãe a quem morre um filho é duríssimo. Ressenti-me".

Já percebeu que fica sempre pior na primavera e quando tem de ajudar alguém com esclerose lateral amiotrófica (ELA), por se recordar da experiência traumatizante que teve no primeiro ano de sacerdócio, em que acompanhou até à morte um colega sacerdote. Também sabe que recuperar não é imediato. "Isto não é como partir uma perna, a cabeça não é assim. O burnout é psicológico, emocional e físico".

Continua com apoio em psiquiatria e psicologia, hoje mais consciente daquilo que o conduziu até este ponto, e confiante na recuperação. "Um sinal positivo: já tenho bom humor, isso é bom! É o efeito da medicação".

"Há uma mentalidade dos padres mais velhos de que nós somos fortes, não damos parte fraca e temos muito tempo para descansar. Mas não é bem assim. Isto não mata, mas mói", afirma o padre Daniel Gomes de Almeida. Foto: DR

Ataques de pânico. "Sete missas ao fim de semana, era piloto automático, não havia alegria"

Miguel Lopes Neto, pároco de Tavira, no Algarve, também se deixou ir até ao limite. "Cheguei a ter ataques de ansiedade e de pânico no altar, a celebrar missa", conta.

2020 foi um ano decisivo no agravamento de sintomas. "Estávamos em pandemia e foram uns amigos que viram o meu desgaste. Comecei a ter dificuldade em dormir, o que era novo na minha vida. Muita ansiedade, irritabilidade. Não me sentia feliz no que estava a fazer".

Aos afazeres na paróquia — "muito conservadora", e onde não soube gerir alguns conflitos — juntava a responsabilidade de gestão do centro social paroquial, que sentia não ter capacidade para assumir. "Cheguei a dizer ao meu bispo: 'Posso ser um bom gestor de empresas ou um bom padre, as duas coisas ao mesmo tempo não consigo fazer' ".

Sem dormir e sem respeitar o dia de folga, o cansaço foi-se acumulando. "Uma verdadeira bola de neve de tristeza, amargura, depressão." Quando finalmente pediu ajuda, o psiquiatra prescreveu-lhe férias compulsivas. A paragem fez-lhe bem, mas quando voltou "andava permanentemente triste".

"As celebrações eram quase mecânicas. Sete missas ao fim de semana, era piloto automático, não havia alegria. Era um peso", confidencia.

"Ter de me agarrar ao altar com tonturas e ataques de pânico! Não desejo o que passei a ninguém, a nenhum colega meu! Mas aconteceu várias vezes, várias vezes."


Padre Miguel Lopes Neto

Em 2022, conseguiu deixar de ser presidente da direção do lar e tomou decisões importantes em termos de saúde: a compulsão alimentar tinha-o arrastado para um estado de obesidade que tornava urgente uma cirurgia bariátrica. Avançou. "Recorda-se de mim com 140 kg! Já tinha problemas nas articulações, estava com o colesterol altíssimo."

A psicóloga acompanha-o desde essa altura e tem sido fundamental para conseguir controlar os ataques de ansiedade. "Ter de me agarrar ao altar com tonturas e ataques de pânico! Não desejo o que passei a ninguém, a nenhum colega meu!Mas aconteceu várias vezes, várias vezes."

Na Páscoa de 2023 pediu ao bispo um período sabático, para descansar e terminar a tese de doutoramento sobre a literacia digital e uso das redes sociais pelo clero português — que apresentou recentemente, em abril, na Universidade de Huelva, em Espanha. "Foi muito importante para mim. Recuperei alegria em fazer o que gosto, que é estudar, investigar". Continua a ser o responsável pela comunicação na diocese do Algarve, e dedicou-se mais à Pastoral do Turismo da Igreja, que coordena a nível nacional.

Revisitando o percurso da doença, diz que o apoio da família e dos amigos foi fundamental. "A minha mãe é uma pessoa de Igreja e um dia, à saída da missa, disse-me: 'Filho, se não és feliz em ser padre toma outro rumo na tua vida. Queremos a tua felicidade.' Isso foi muito importante”, conta. Ainda mais quando outros duvidaram. "'Mas os padres também precisam de férias? Não fazem nada, só celebram missas!' Quantas vezes eu ouvi isto".

Abandonar o sacerdócio nunca esteve em causa porque, no seu caso, “não se trata de falta de fé, nem de falta de oração".

Burnout. "Todos temos tendência a roubar inconscientemente a humanidade do padre"

O burnout, ou síndrome de exaustão profissional, começou por ser identificado nos anos 70 do século XX em pessoas que trabalhavam na área da saúde, mas é hoje transversal a várias áreas de atividade. Também no sacerdócio há tendência para "exagerar" e "perder a consciência do equilíbrio", independentemente de se viver sozinho ou em comunidade, diz à Renascença Margarida Cordo, para quem uma das coisas mais complexas na vida dos padres "é o tema dos limites, ou a ausência deles".

Psicóloga clínica, há mais de 20 anos que acompanha — com avaliações, psicoterapia e formação — muitos futuros padres, tanto no seminário de Caparide, como no dos Olivais, no Patriarcado de Lisboa, a quem costuma falar “dos S (ésses) dos sacerdotes: solidão, silêncio e saudade". Lembra que "o sacerdote é padre, e antes de ser padre é homem", mas há uma exigência de perfeição "como se tivesse de ser, e fosse, um ser diferente".

"Todos temos tendência a roubar inconscientemente a humanidade do padre,que tem de cumprir, fazer bem feito, ser perfeito. E na lógica da plena disponibilidade, de ter de estar sempre ali, não só para quando é preciso, como para quando as pessoas entendem que é preciso", refere.

"Há uma altura em que este desespero atinge um limite, que efetivamente pode chegar ao suicídio. Em Portugal não se fala muito disto, mas temos esta noção do perigo".


Margarida Cordo, psicóloga

"As fragilidades têm de ser consentidas, a saúde tem de ser cuidada, a necessidade de descanso tem de ser reconhecida", diz a psicóloga, que alerta para o perigo de não se dar a devida atenção ao burnout. "Estes curto-circuitos humanos dão muito trabalho, consoante são identificados e assumidos, em vez de negados, e consoante há capacidade de pedir ajuda. Se for tardiamente trabalhado, e se houver esta insistência de negação, pode deixar sequelas muito graves", adverte.

Os casos mais severos e não tratados podem ter desfechos dramáticos. "Há uma altura em que este desespero atinge um limite, que pode chegar ao suicídio.Em Portugal não se fala muito disto, mas temos esta noção do perigo". E há pessoas que "não recuperam, embora a maioria retire aprendizagens do que lhe aconteceu. 'Tinha-me perdido de mim, mas voltei a ser eu mesmo' — já ouvi esta expressão, e foi de um sacerdote", partilha.

Sinal óbvio de que algo não está bem são os vícios, como o alcoolismo, que também afeta alguns padres. "São claramente uma válvula de escape".

"Somos portugueses e fazemos muita coisa à volta da mesa e de brindes, mas há condutas que são atentados contra o bem-estar da pessoa: padre, ou não, alguém que tende sistematicamente para compensações — come em excesso, bebe em excesso, gasta em excesso, desequilibradamente, fuma demais, este tipo de coisas —, isso revela sofreguidão. 'Preciso de me compensar'. Compensar do quê? De frustrações, de cansaços, de desânimos. A montante há comportamentos que já chamam a atenção para o facto de algo não estar bem com essa pessoa. E não é especificamente com os padres, é com todos".

Daí a necessidade de as comunidades, de os próprios sacerdotes, amigos e familiares estarem alerta. "Todos precisamos de relações profundas, sabe? E é uma responsabilidade de todos darmos atenção uns aos outros".

Ilustração: Rodrigo Machado/Renascença

Pressão do desempenho. "Por dentro, sentem um cansaço que ninguém vê"

O padre João Torres tem a seu cargo três paróquias — São Miguel de Guizande, São Tiago de Priscos e São Bartolomeu de Tadim, em Braga. Coordena a assistência religiosa aos estabelecimentos prisionais de Braga e Guimarães, e é um dos impulsionadores do famoso Presépio de Priscos, em que os reclusos colaboram. Partilha com frequência no Facebook textos em que reflete sobre a fragilidade humana, a que os sacerdotes não são imunes, com casos limite que não se podem ignorar.

"Quando o silêncio de um padre se torna demasiado pesado. Este ano já tive notícia de cinco. Cinco sacerdotes que morreram por suicídio", escreveu em março na sua página do Facebook, quando se soube que mais um sacerdote tinha posto termo à vida, dessa vez em Espanha.

No texto fala dos que "por dentro, sentem um cansaço que ninguém vê", padres que aprendem "a carregar as dores dos outros", mas a quem ninguém pergunta quem carrega as suas. E elogia a decisão "corajosa" do arcebispo de Saragoça, Carlos Escribano, que então decidira suspender as visitas pastorais, para "dedicar um ano inteiro ao cuidado dos sacerdotes da sua diocese".

"Quando algum recluso quer contar todos os pormenores, eu digo muitas vezes: 'Não precisa de estar a especificar.' Mas eles dizem: 'Tenho de contar tudo! Deus tem de saber aquilo que eu fiz. O juiz pode não saber, o meu advogado também não, mas o padre tem de saber, para poder contar a Deus.'"
Padre João Torres

À Renascença, o padre João fala do cansaço que por vezes também sente. "Eu já escrevi em exaustão. Um cansaço interior, tantas vezes acumulado, que nasce do contacto prolongado com histórias humanas intensas. Escrever é dar forma ao que pesa por dentro, é quase um gesto de organização interior".

Em contexto de confissão há dramas que não consegue esquecer. "Ficam a mergulhar dentro de nós. Quando algum recluso quer contar todos os pormenores... eu digo muitas vezes: 'Não precisa de estar a especificar.' Mas eles dizem: 'Tenho de contar tudo! Deus tem de saber aquilo que eu fiz. O Juíz pode não saber, o meu advogado também não, mas o padre tem de saber, para poder contar a Deus.' Só que há coisas que são horríveis e que ficam dentro de nós. Somos humanos!".

Este é, para si, um dos momentos de maior desgaste. "Muitas vezes não é físico, é sobretudo emocional e espiritual. Acolher em confissão dramas humanos intensos pode ser devastador".

Não considera que os sacerdotes sejam mais frágeis hoje do que eram antes, mas “estão mais expostos, mais solicitados e menos protegidos, no plano humano". Alguns vivem "completamente sozinhos” e com excesso de responsabilidades. "Vive-se numa lógica de multitarefa pastoral: paróquias acumuladas, exigências administrativas, acompanhamento de várias comunidades, uma presença constante em celebrações, em instituições sociais, IPSS. Isto gera uma sobrecarga contínua, sem tempos reais de recuperação, a que se junta a falta de descanso".

Fala ainda da "pressão de imagem e disponibilidade" que se exige ao padre. Deve estar "sempre acessível, sempre estável, sempre sereno, sempre forte, quando o sacerdote tem de poder dizer, sem culpa: 'Não é possível, não posso.' Isto não é falta de generosidade, é maturidade humana".

O padre João Torres não considera que os sacerdotes sejam mais frágeis hoje do que eram antes, mas “estão mais expostos, mais solicitados e menos protegidos, no plano humano". Foto: DR

"Nós temos de ser cabeça, não temos de ser cabeça, mãos e pés"

Ricardo Sousa Franco, de 50 anos, completa em setembro próximo 25 de sacerdócio. Natural de Mafra, sempre foi padre na zona Oeste de Lisboa: primeiro em Torres Vedras, depois nas Caldas da Rainha. Tem atualmente a cargo seis paróquias do concelho da Lourinhã, com apoio de dois vigários. "Devo ser quem tem mais paróquias no Patriarcado de Lisboa", diz à Renascença, enquanto nos encaminha pelos claustros do convento de Santo António, no centro da vila.

Conta que por estas paróquias passam os padres recém-ordenados, numa espécie de "estágio". Ali acumula as funções de presidente do jornal regional Alvorada — que pertence à paróquia — e do Centro Social Paroquial da Lourinhã, que em breve vai ser extinto para se juntar à Misericórdia local. É também responsável pelo Centro Social Paroquial de Reguengo Grande, que tem uma direção "toda composta por leigos".

Na pandemia tentou fazer uma pós-graduação, mas acabou por não entregar a tese. "Este é o meu foco, procuro ser pastor. É aqui que tenho de estar e estou feliz", garante.

"Precisávamos de parar, olhar para o terreno, ver como é que podemos, com as mesmas pessoas, fazer mais, sem exigir mais das pessoas. É um desafio que a Igreja terá de assumir."

Padre Ricardo Sousa Franco

Nunca se sentiu num limite de cansaço, embora quase nunca goze a folga semanal. "A segunda é o dia de descanso de nós os três, e dou-lhes precedência." Tenta equilibrar durante a semana, numa região em que a natureza — campo e praia — está sempre no horizonte e ajuda a tranquilizar o espírito. "Sou nascido e criado aqui. Gosto do campo, de ver mar, isso ajuda-me. Quando às vezes tenho de ir a Lisboa, venho cansadíssimo. Quem aguenta estar ali um dia inteiro?".

Com a idade foi criando estratégias de prevenção: tem de ter espaço para a oração pessoal, só faz atendimentos com marcação na agenda, e já não abdica das férias, que não tirou durante 10 anos seguidos. “Cheguei a vir de propósito fazer um funeral. Estava a 400 quilómetros e vim! Não sei se hoje não faria a mesma coisa, mas já não tenho a mesma resistência física. E se antes pensava 'nada acontece sem mim', hoje já não tenho essa ilusão. Não abdico de descansar".

Não esconde que a administração das paróquias lhe causa grande desgaste. "Eu abomino papéis, e tenho de lidar com eles todos os dias. Mas abomino!" Por essa razão, e porque "o número de padres não estica", diz que é urgente dividir trabalho e capacitar os leigos para assumirem responsabilidades.

"Nós temos de ser cabeça, mas não temos de ser cabeça, mãos e pés, ser tudo! Temos de ter capacidade de delegar e procurar, dentro da comunidade, a quem podemos confiar tarefas. Aqui ainda estamos longe de chegar aí. Tenho pessoas muito generosas, mas também são muito ocupadas", refere.

Num "ano bom", em que Lisboa vai ordenar nove novos padres, defende que se deve reorganizar a pastoral territorial e a distribuição de sacerdotes. "Eu pergunto: estes padres novos, não seriam — vou usar uma palavra feia, mas compreensível — mais 'rentáveis' num outro esquema pastoral? Precisávamos de parar, olhar para o terreno, ver como é que podemos, com as mesmas pessoas, fazer mais, sem exigir mais das pessoas. É um desafio que a Igreja terá de assumir".

"De manhã estamos num funeral, à tarde a dar aulas, ao final do dia num casamento”

João Basto tem de 29 anos. É sacerdote em Viana do Castelo, na paróquia de Senhor do Socorro. Formador no Seminário Menor, é igualmente responsável pelo Secretariado Diocesano da Comunicação Social e diretor do jornal Notícias de Viana. Garante que a questão do burnout interessa, e muito, aos jovens padres. "É dos temas que está mais na ordem do dia, nas conversas do clero. Até nas publicações que muitos fazem nas redes sociais, sempre que se sabe que alguém está com um problema ao nível da saúde mental".

Entre os fatores de risco identifica, desde logo, a dificuldade dos padres em separar a vida pessoal da vida "profissional". "Não temos essa fronteira bem definida, porque a nossa vocação é uma vocação de 24 horas". Na sua opinião falta preparação mais realista para a vida ativa.

"Nós não podemos ter relações preferenciais, mas temos de ter relações significativas, que implicam proximidade efetiva."
Padre João Basto

"Quando temos 23, 24 ou 25 anos e somos ordenados, somos rapazes cheios de sonhos, tendencialmente de bom coração. Muitos de nós deixámos outros caminhos, até outra vida universitária, para seguir para o seminário e nos dedicarmos a um 'full-time job'. Isso implica muitas vezes um corte de relações. Quando somos enviados para realidades onde nunca estivemos, e claramente mais isolados, é um choque muito grande", reconhece.

Em muitos casos a carga de responsabilidades é excessiva, logo de início. "Assumir muitas paróquias e instituições sociais obriga a ter um papel de patrão, com o que isso implica: chegar ao final do mês e pagar salários, ou chegar ao final do ano e ter de despedir pessoas. E responder a inspeções sucessivas, às vezes kafkianas, da Segurança Social. As pessoas não foram formadas para isso", alerta.

Para a ansiedade contribui também a multiplicidade de tarefas que têm de desempenhar. "De manhã podemos estar a fazer um funeral, à tarde a dar aulas, ao final do dia celebrar uma missa, ou ir a uma festa, fazer um casamento ou batizar, tudo no mesmo dia! Isso exige energia e equilíbrio emocional".

Admite que serem celibatários acaba por levantar barreiras sociais a relações de simples amizade, tão necessárias para uma vida equilibrada. "Nós não podemos ter relações preferenciais, mas temos de ter relações significativas, que implicam proximidade efetiva". O que nem sempre é bem visto.

Padre há apenas seis anos, já percebeu que é fácil entrar em exaustão, e que isso "não se resolve simplesmente com a oração".

"É uma parte muito importante do nosso equilíbrio, mas há coisas que não se resolvem só a rezar mais." E nem sempre há sensibilidade para os padres pedirem ajuda psicológica, porque a saúde mental nos padres "ainda é um estigma e um tabu".

uma questão ligada à masculinidade — o homem não pede ajuda por si próprio, e o padre também é afetado por essa circunstância. E ainda se pensa que aquele que pede ajuda é fraco, e até se questiona se está a ser fiel ao ministério", argumenta João Basto.

Ainda assim, diz que nos seminários já alguma coisa mudou. "Não conheço nenhum seminário que não tenha disponível esse acompanhamento, e sessões comunitárias e de grupo com psicólogos, de maneira obrigatória". No caso de Viana, "temos dois formadores e sete seminaristas, há um acompanhamento muito pessoal e próximo", e é garantido apoio psicológico a quem precisa.


"O sacerdote é um homem. Chamado a uma missão, mas é um homem"

D. José Miguel Barata Pereira, atual bispo da Guarda, foi durante largos anos o reitor do Seminário Maior de Cristo Rei dos Olivais, em Lisboa. Confirma que "a ansiedade e a dificuldade em lidar com a pressão do desempenho são comuns" entre os jovens candidatos ao sacerdócio, que “trazem as inquietações, desafios, capacidades, medos e inseguranças próprias deste tempo". Mas garante que há cada vez maior preocupação com a saúde mental ao nível da formação, e que se assegura "acompanhamento humano e psicoafetivo e encaminhamento para psicoterapia", quando é necessário.

Entre os "fatores de risco" de burnout nos padres aponta o "escrutínio permanente", porque mesmo que o sacerdote já não tenha o "estatuto social" de outros tempos, há hoje mais avaliação e cobrança. "Vejam-se as exigências a respeito da homilia dos padres: o tempo que demoram, se tocam em determinados assuntos, se têm eloquência e capacidade".

Alerta, ainda, para a "funcionalização do sacerdócio", visto como uma função de liderança. "É bom que não seja visto como uma sacralização excessiva, que o põe num pedestal", mas também não pode ser considerado um simples "funcionário". "O sacerdote é um homem. Chamado a uma missão, mas é um homem, e uma das coisas em que temos algum cuidado na formação é a valorização da vulnerabilidade: saber aceitar as fragilidades, que não tem de acertar sempre, que pode ter dúvidas".

Como bispo na Guarda, também se tem esforçado por isso. "Este foi um ano para aprender a ser bispo, com o povo. Houve pessoas para quem isso foi marcante, não estavam à espera que eu dissesse isso. Mas é importante sermos capazes de dizer, como padres, que não temos de saber tudo, nem ter solução para tudo. A Igreja, mesmo tendo a força de Deus e a luz do Espírito Santo, muitas vezes tem de ir à procura, ouvir, saber escutar, discernir. Isso é muito importante na formação dos padres e dos leigos, para que os leigos também aceitem isso em relação aos padres".

O olhar de uma leiga. "Quando o peso é partilhado fica mais leve"

Sofia Marques é a coordenadora Provincial do Serviço de Proteção e Cuidado da Companhia de Jesus em Portugal. Criado para a prevenção em todas as áreas ligadas à violência — não só os abusos sexuais de menores —, apoia os sacerdotes e quem trabalha nas obras dos jesuítas. Diz que o burnout também é uma preocupação.

"Como em todo o lado, o tema está presente, não estamos imunes", refere, defendendo que é preciso evitar a exaustão, que pode ser destrutiva. "Quando se chega a essa condição de saúde já exige uma intervenção mais cuidada, especializada e clínica".

"Estamos a falar do burnout dos padres, mas dentro da Igreja há burnout das religiosas, de quem trabalha nas instituições, na área social. É uma reflexão que deve ser feita pelas comunidades", porque "é um estado limite comum aos cuidadores, com este perfil particular: quem dá muito, e se dá praticamente até ao fim, tem dificuldade extrema em dizer que não".

"Temos de ser capazes de ouvir este grito, porque o burnout é um grito do corpo. Mesmo quando não verbalizamos um pedido de ajuda, tantas vezes o nosso corpo faz isso por nós", sublinha ainda Sofia Marques, que considera fundamental os leigos estarem mais atentos aos seus padres. "Temos de perceber a que é que a Igreja nos convida e chama, porque a missão é uma missão partilhada. Deus não nos envia sozinhos e o tema da colaboração dos leigos é muito importante a este nível"-

"Tal como dizemos muitas vezes aos nossos filhos que eles não ajudam, em Igreja nós, leigos, não podemos ajudar apenas quando nos pedem. Temos de fazer menos cerimónia e dizer: 'Estamos aqui, a que é que é que sou chamada?' Encontrar um modo de partilhar a missão, de colaborar. Porque quando este peso é partilhado, fica mais leve", conclui Sofia Marques.

"Tal como dizemos muitas vezes aos nossos filhos que eles não ajudam, em Igreja nós, leigos, não podemos ajudar apenas quando nos pedem. Temos de fazer menos cerimónia e dizer: 'Estamos aqui, a que é que é que sou chamada?'", defende Sofia Marques. Foto: Reuters

"Algum jovem vai querer a ter a nossa vida?"

Para o padre João Torres "ainda há dificuldade em reconhecer a gravidade estrutural do desgaste e da sobrecarga dos sacerdotes. E não basta boa vontade ou sensibilização. É preciso tomar medidas concretas, com coragem pastoral e realismo humano". Entre as que sugere está a obrigatoriedade de um dia de descanso semanal real, "protegido de exigências pastorais", e menos celebrações semanais — "há sacerdotes que ao fim de semana celebram nove Eucaristias".

Defende, ainda, um mês de férias, que "pode ser repartido ao longo do ano, mas efetivamente respeitado"; garantia de um retiro anual de, pelo menos, uma semana; ter um horário definido para atendimento; e "repensar a acumulação de funções", para que não excedam o que é "razoavelmente humano".

"Não podemos é continuar como se estivesse tudo bem. Não se pode normalizar o cansaço extremo, como se fosse uma consequência inevitável da vocação". Afinal, pergunta, "que exemplo se está a dar a quem pense ser padre? Algum jovem, minimamente responsável, vai querer ter a nossa vida? Quanto mais sereno, mais alegre, mais feliz eu estiver no ministério, mais gente se vai sentir atraída para seguir este caminho".

Padre há seis anos, João Basto concorda que "é preciso repensar os cursos formativos", para tornar "o choque [com a vida ativa] menos impactante, e procurar medidas e formas eficazes de acompanhar o clero". Mas, alerta para outro aspeto: é preciso incentivar o que cada um gosta de fazer.

"Seria importante valorizar os talentos e não exigir o mesmo a todos, porque há pessoas que têm dons específicos. Da mesma maneira que um hobby às vezes ajuda a quebrar o ritmo profissional, deve ser natural que ao clero seja concedido que possa desenvolver as suas aptidões. Porque às vezes vivemos numa camisa de forças", lamenta.

"Se começar a ter sintomas — estar num estado de alerta constante, não conseguir descansar — deve fazer a si mesmo estas perguntas: quantas vezes por semana, por mês, te levantas e sentes que o dia é um obstáculo intransponível? Qual foi a última vez que sentiste alegria genuína? Sentes que precisas de esconder a tua exaustão, porque tens vergonha de a mostrar?"

Margarida Cordo, psicóloga

"Se queremos dar os nossos dons à Igreja somos vistos como carreiristas, ou como pessoas que se querem exibir. Eu quero ser padre sendo eu mesmo. Porque o Senhor se me chama, chama naquilo que eu sou, com os meus defeitos e com aquilo que eu posso dar. Mas, se essa dádiva de mim próprio ao ministério está permanentemente sob esta vigilância, é difícil que as pessoas sintam que possam ser elas próprias", continua.

Como formador no Seminário Menor de Viana, percebe que a atual geração "tem menos defesas", porque também tem "menos poder de encaixe". "É difícil um professor hoje dizer a um aluno que ele está errado, ou ter uma abordagem mais divertida, porque há um certo puritanismo que começou a entrar na sala de aula. Expressões que há 10, 15 anos eram normais, hoje passaram a ser alvo de uma espécie de política de cancelamento". O que, na sua opinião, também faz com que a imunidade às contrariedades seja "cada vez menor".

Depois, é preciso saber lidar com a injustiça das generalizações, que acontece sempre que há notícias a envolver algum padre, como aconteceu com os abusos de menores. "A crise dos abusos foi importante para reconhecer falhas graves e estruturais na Igreja, mas teve um efeito perverso, que é o medo de ser associado a esse escândalo, que é uma ferida para a Igreja. Pode levar a que nos fechemos", diz João Basto.

Bispo da Guarda desde março de 2025, D. José Miguel Barata Pereira percebeu "desde a primeira hora" que tinha de dar mais atenção aos padres da diocese. "É um presbitério generoso e que tem muito trabalho. Não é só haver muitas paróquias, são dispersas, isoladas. O esforço de os padres não faltarem a ninguém é um desafio permanente", diz à Renascença.

Fala, por isso, no desafio de repensar a reconfiguração da organização pastoral e das paróquias, "como é que devemos capacitar outra forma de presença que não seja sair do território. Porque, quando todas as outras instituições já saíram, a Igreja é muitas vezes a única que permanece nas aldeias". É preciso encontrar "formas de cooperação, para que outros agentes, com os padres, possam ter condições de estar presentes, sem ser uma corrida que só desgasta".

Numa Igreja que se quer sinodal, qualquer mudança implica envolvimento dos leigos. Mas é preciso superar a "lógica do consumidor para a lógica do cuidador". Muitos permanecem na primeira, "querem a presença do sacerdote na sua terra, senão não vão até ao lado participar na atividade".

Na Lourinhã, o padre Ricardo Franco subscreve a necessidade de mais atenção e ajuda dos leigos. "É muito fácil exigir coisas aos padres", que “não são super-homens".

O povo de Deus, diz, "precisa de aprender a amar os seus padres, cuidar deles, protegê-los e defendê-los".

Conhecendo de perto casos de sacerdotes com burnout na diocese de Lisboa, diz que é preciso falar mais no assunto, aprender a detetar fatores de risco e sinais de alarme, e perceber que estas situações levam tempo a curar. "Às vezes parece-me que se quer resolver as coisas muito depressa. Se alguém entra numa situação destas, de desgaste rápido, stress, burnout, pára dois ou três meses e pensa que já está bem. Ora, daquilo que conheço e ouço falar, é preciso muito mais tempo para recuperar. Acho que faz falta cuidarmos mais uns dos outros".

"É preciso escutar os padres, tentar perceber as capacidades que cada um tem, porque às vezes não conseguimos fazer aquilo que nos pedem", sublinha o padre Miguel Lopes Neto. Foto: Gonçalo Costa/Renascença

"Pedir ajuda não é sinal de fraqueza"

A quem possa sentir que está a atingir o limite, a psicóloga Margarida Cordo deixa um conselho prático. "Se começar a ter sintomas — estar num estado de alerta constante, não conseguir descansar — deve fazer a si mesmo estas perguntas:quantas vezes por semana, por mês, te levantas e sentes que o dia é um obstáculo intransponível? Qual foi a última vez que sentiste alegria genuína? Sentes que precisas de esconder a tua exaustão, porque tens vergonha de a mostrar? Estas são perguntas que vale a pena a pessoa fazer, em contexto de ajuda profissional ou em contexto de conversa com verdadeiros amigos, e antes de pedir ajuda", defende a psicóloga.

Aos padres já em exaustão pede que “não sintam culpa por não serem super-homens, não tenham vergonha da fragilidade e não tenham medo de pedir ajuda".

O padre João Torres aconselha que ninguém se isole. "Recuperar gestos concretos de cuidado: exercício físico, dormir melhor, ter uma oração mais estruturada, caminhar, ouvir música, estar com outros de forma leve, ler algo sem o peso pastoral, respirar outro tempo, outros espaços. São coisas simples, mas que ajudam a recentrar a própria vida. E, sobretudo, não carregar sozinho o que não foi feito para ser carregado sozinho. Nenhuma vida devia chegar ao ponto de silêncio absoluto e solidão total".

"O melhor conselho de posso deixar a todos é aquela frase do padre Vasco Pinto Magalhães, jesuíta: 'Só avança quem descansa.' E um antigo formador também me dizia que 'descansar também é trabalhar'. É vencer a tentação de ter uma agenda sempre cheia, porque a qualidade da missão acontece quando verdadeiramente descansamos".

Padre Daniel Gomes de Almeida

Ainda em recuperação, mas no ativo, o padre Daniel Gomes de Almeida vai gerindo o que consegue e não consegue fazer, já com algumas estratégias de autodefesa. Diz que viver sozinho "está fora de questão", vive em comunidade. E aprendeu as vantagens de silenciar o telemóvel. "Quando estou a atender alguém, ou preciso de descansar à noite, fica no modo avião. Não temos de estar 24 horas disponíveis, dia e noite! A noite é para descansar, e se Jesus descansou, nós não somos mais do que Deus".

Sabe que falar das dificuldades por que tem passado ainda é um assunto tabu para muitos, e que “há estigma" em relação a quem tem de pedir ajuda. Mas reconhece que só acompanhamento espiritual, nestas situações, "não chega".

"Nós somos três coisas: corpo, mente e espírito. Se uma não está bem, as outras também se vão ressentir. Por isso, sou acompanhado espiritualmente, mas também tenho uma psicóloga e um psiquiatra. E as três dimensões complementam-se", afirma.

Para o padre Daniel, a prioridade pastoral da Igreja "devem ser as pessoas, não as coisas". Acredita que a experiência que tem vivido o vai ajudar a ser um padre "mais atento", a si e "aos outros", e a ser "um ferido curador de feridos".

"O melhor conselho de posso deixar a todos é aquela frase do padre Vasco Pinto Magalhães, jesuíta: 'Só avança quem descansa.' E um antigo formador também me dizia que 'descansar também é trabalhar'. É vencer a tentação de ter uma agenda sempre cheia, porque a qualidade da missão acontece quando verdadeiramente descansamos".

O padre Miguel Lopes Neto ainda não sabe se e quando voltará à paróquia de Tavira. Na sua ausência, a coordenação pastoral tem estado a ser feita pelo bispo emérito de São Tomé e Príncipe, D. Manuel António dos Santos. Apresentada a tese, em Huelva, vai continuar, por enquanto, a viver em Espanha, sem que isso prejudique as outras funções que exerce na Igreja em Portugal, como a Pastoral do Turismo. Agradece, por isso, a abertura que o bispo do Algarve, D. Manuel Quintas, sempre teve. "Nunca me cobrou nada".

"É preciso escutar os padres, tentar perceber as capacidades que cada um tem, porque às vezes não conseguimos fazer aquilo que nos pedem. Mas, nós também temos culpa, porque em muitos casos também pensamos que somos super-heróis e conseguimos fazer tudo, ou que que é falta de fé ou de oração". No seu caso nunca foi.

Ainda a fazer terapia, sabe que não voltará a ser a pessoa que era. "O burnout vai estar sempre lá, e é preciso estar a tento aos sinais de alerta." Diz, por isso, a quem possa estar a passar pelo mesmo, que não tenha vergonha nem medo de pedir ajuda. "Não é sinal de fraqueza, é sinal de força".

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

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