Errare é o Mano

No segundo livro de Samuel[1] há uma expressão que me faz sorrir sempre: “No ano seguinte, na época em que os reis saem para a guerra”. Outras versões, identificam a época como sendo a primavera, certamente porque ninguém quer ter que levar roupa de inverno para combate.

Recordo com frequência a citação, de modo especial agora: a época em que os padres saem a confessar com mais intensidade. É um tempo oportuno e certamente também de combate. Combate espiritual, contra o pecado e a tentação e contra nós próprios.

Para o padre são dias longos, densos, por vezes pesados. A ronda pelos quartos da UCC não foi de todo uma visita rápida. Usasse eu Tricórnio e tirá-lo-ia às enfermeiras e auxiliares e técnicos que ali trabalham diariamente. Mas isso é para outro dia.

Nestes dias, de escuta e paciência, em que o tempo deixa de ser urgente, ocorrem-me recorrentemente duas memórias que me provocam pensamentos que me incomodam e que hoje tentarei exorcizar.

A primeira é a história de um menino a quem os pais, depois de lhe explicarem que vai ser irmão mais velho, lhe pedem para escolher o nome do bebé. Errare, gritou o menino. Porque Errare é o mano!

A segunda é um dito de um antigo professor do seminário “Reino de Deus em geral”.

Sinto sempre culpa ao ouvir confissões, porque sinto que, como vosso pároco, tenho a obrigação e imperativo moral de vos instruir. O mesmo quando vejo pessoas a comungar mal. Se é na mão que preferem: é com as duas mãos! Não agarram no ar; não agarram com os dedos em pinça; não agarram com um mão e a outra pendurada como se fosse um frete! Duas mãos estendidas, na horizontal, para O Senhor não escorregar! Se preferem comungar na boca, abrem e deitam a língua de fora ao ministro, seja o extra-ordinário, ou eu, que sou o ordinário, para colocarmos a partícula na língua. Não me façam boca de mealheiro, não mordisquem O Senhor com o lábios, que depois parecem um cachorrinho a quem foi atirado um biscoito e é preciso manobrar para engolir. E mãos lavadas também era bem, se não for pedir muito.

Custa-me, embora entenda, o carácter genérico com que nos confessamos. O esforço tremendo para normalizar o pecado, a começar a falar no plural – é confessar os meus pecados, não é os nossos; o relativizar, a tentação pela comparação: “há sempre piores” “somos todos pecadores” “errar é humano”, seja a que me tira do sério: começar por elencar as virtudes. Nem eu, nem colega algum, precisa ser convencido do vosso fundo bom e de que são boas pessoas, eu sei!

Confessar-se e assumir-se pecador não é equivalente a dizer-se má pessoa.

“os meus pecados são: olhe rezo o terço todo os dias, faço as minhas orações, não estou de mal com ninguém, falo com toda a gente, menos com quem não me fala...”

Confessar virtudes? Ou revela desconhecimento ou é pecado da vaidade. 

É duro confessar-se sim e dói, mas salva!

Sinto que nos foi impingido este sentimento de falha, de sermos pecadores, de termos que nos confessar. Mas lutamos por perceber o que é pecado, porque de algum modo sentimos que pecar é ser má pessoa e nós não somos más pessoas.
E falta tanto a noção de que não somos perfeitos. Sim, porque não ter pecados significa ser perfeito. Mas isso sabemos que não somos! Mas não conseguimos perceber porquê.

Será que nos tentamos enganar a nós mesmos, para não vermos a realidade que nem sempre é bonita? Mas como corrigir, como crescer, como melhorar, sem assumir e identificar o que está mal?

O que acontece depois é simples: ou abandonamos a prática sacramental e comungamos com a mesma naturalidade com que eu ataco o pote dos biscoitos de canela, o que faz com que se sinta um certo calor nos calos dos pés, vindo vocês sabem bem de onde; ou então é a confissão genérica: Pensamento, palavras, atos e omissões. Aquelas mentiritas do dia-a-dia, coisas normais. Ferve-me o sangue, vocês não imaginam. Se fosse normal não era pecado!!

Que pensamentos? Que palavras? Que ato é que eu fiz que era pecado? Que coisa errada, sabendo eu que era errada, que desejei fazer e fiz?
A quem feri? Já lhe pedi perdão? Estou mesmo arrependido, ou venho confessar porque me disseram que é suposto fazê-lo?

Se não identifico, se não especifico, como é que vou mudar e fazer propósito de emenda?
Onde é que falhámos na educação do povo para ser tão normal dizer que não se fez nada de mal, nunca!?

Deus Nosso Senhor não morreu por uma boa parte de nós, Ele morreu para perdoar os pecados, mas eu não os tenho!

Nunca saímos da cepa torta assim! Ficamos a moer o sentimento de culpa, genérica claro está, incapazes de encontrar uma saída e aqui ficamos a marinar em banho-maria. O resultado? Um afastamento cada vez maior de Deus e do seu amor por nós.

O exame de consciência é duro. O objectivo maior da nossa vida é a santidade, falta muito a todos nós! E não faz de nós más pessoas, apenas frágeis, fracos. A história da salvaão é sobre isto mesmo: salvar-nos de nós mesmos e ajudar-nos a ser aquilo que Deus sonha para nós!

Errar não é humano, é o contrário! Errar, pecar, afasta-nos de nós, rouba a nossa humanidade, separa-nos dos outros e de Deus. ficamos isolados, sós, à mercê do tentador.

Precisamos ser honestos, verdadeiros, vulneráveis. Primeiro connosco, trazer luz às sombras que escondemos. Perceber o que nos afasta de sermos santos! Ah, mas Senhor Padre, eu não sou, nem quero ser! Comece por aí: peça, em oração, o desejo de ser santo. E se não for capaz, peça ao menos o desejo de desejar ser santo. Só depois disso podemos avançar, só depois O Bom Deus Pai pode trabalhar em si.

E depois ser vulnerável diante do ministro ordenado: padre pequei: respondi mal a fulano; sou assaltado com pensamentos de inveja, orgulho, ira... o que for.

Partilhe o que o magoa, o que dói. E receba a graça da misericórdia. 
Não se justifique, não arranje desculpas, não é um tribunal, o padre amanhã não se lembra de nada. 
Só nos enganamos a nós mesmos, meus caros e estimados paroquianos.

É duro sim, mas é tão bonito.
A ferida que o pecado provoca em nós, que nos rouba a paz e a alegria e a força de viver, só pode ser curada ali, no sacramento do Perdão, um coração que se expõe ferido, para ser cheio do amor misericordioso.

Se não começarmos por aqui, andamos só a perder tempo.

Pe. Patrício Oliveira

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[1] 2 Sam 11, 1

Partilho, como o ano passado, creio eu,  vários links de apoio ao exame de consciência.

https://blog.cancaonova.com/walkbyfaith/2023/03/02/qual-e-importancia-de-um-bom-exame-de-consciencia/

https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/vida-de-oracao/como-fazer-um-bom-exame-de-consciencia/

https://www.upaeminium.pt/partilha/liturgia/confissoes-exame-consciencia.pdf

https://opusdei.org/pt-pt/article/exame-de-consciencia-para-a-confissao-adultos/

https://opusdei.org/pt-pt/article/exame-de-consciencia-para-a-confissao-jovens/


Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

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