Fé light
Bruto, é a forma de descrever Jesus no Evangelho deste Domingo. A referência aos cachorrinhos é, diríamos nós: hardcore. Ali no mesmo campeonato das senhoras, da terra do padre Jorge, que se insultam chamando-se “poupadas”.
Impressiona-me particularmente a força da mulher. A sua capacidade de resistir a tudo, ao ambiente, à cultura que lhe gritava que não fizesse aquilo, os discípulos e o próprio Jesus, que aproveitou aquela coragem para ensinar os seus discípulos uma importante lição.
Ela persevera, resiste. Aquele Jesus pode salvar a sua filha, Ele fará a diferença. Vale a pena ir contra tudo, se for isso o necessário para chegar a Ele. Há aqui um desejo profundo. Quero acreditar que seja mais do que apenas a cura, o “milagrezinho”.
Penso no desejo de conversão. No desejo de mudar. Uma mudança profunda, transformadora.
Porque é isso que Jesus oferece. Todo aquele diálogo parece ser uma forma de lhe perguntar: queres mesmo? Percebes o que estás a pedir? É para irmos até ao fim!
A ideia tem sido recorrente, a liturgia, o ambiente...
Dou por mim a pensar cada vez mais: mas queremos mesmo Deus? queremos o Pão que Ele oferece? Queremos mesmo fazer o caminho que Ele propõe? Ou queremos só a versão light?
Por estes dias um casal jovem procurou o cartório para agendar casamento. Nenhum deles praticante. “A gente sempre procura Deus nas aflições!” “Então e casar é para ti uma aflição?”
Confesso que às vezes chego a ter remorsos. “Ah, mas é preciso acolher, abrir as portas, para Todos! Todos! Todos!”
Mas não é abrir para tudo, tudo, tudo.
Tenho medo que em nome de acolher, continuemos a dar uma versão light, ligeira, do Evangelho.
Não nos andamos a convencer que depois “os frutos dependem de Deus! a gente abre porta.”
Quais frutos? Miúdos que se arrastam 10 anos numa catequese, contrariados, para não mais voltar? Uma dificuldade crescente em ter voluntários, gente comprometida.
Um tom ligeiro, bem-disposto, acolhedor, não tem de ser menos sério e comprometido. Não tem de ser e não pode!
Encontramos as pessoas onde estão, mas não sei se as conseguimos elevar para onde este Jesus chama, de forma tão provocadora.
Penso se temos mesmo fome, fome a sério, de Deus, de sentido, de caminho.
Receio bem que as paróquias, precisem de descobrir como dar este salto qualitativo, de embarcar no ritmo, na profundidade que o Evangelho propõe. Só aí sacia, só aí cura, verdadeiramente.
Não temos de ter medo do inferno, mas não podemos faltar à missa e achar que é normal.
Não podemos perder esta sensibilidade do pecado, nem da busca da misericórdia.
Confessar-se ao menos uma vez ao ano, é pouco!
Tem de nos doer as nossas falhas; temos de ficar incomodados; Não podemos normalizar o mínimo, o fácil, o medíocre...
Precisamos de mais.
É de salvar as nossas Almas que estamos a falar.
Pe. Patrício Oliveira