Fome de Sobremesa

Já não me consigo recordar de que família me contou o episódio do filho que desabafou ter fome somente de sobremesa, mas a história já está quase em nível de mito urbano infantil. Ouvi já vários relatos semelhantes, com ligeiras diferenças que rivalizam com a espontaneidade de uma criança, essa história real e verdadeira, que chegada com a família a uma pastelaria olha para a montra e exclama: “gosto disto tudo!”.

Este Domingo ecoa a expressão: “todos comeram e ficaram saciados...” coisa curiosa a fome e a saciedade, não é? Podemos estar cheios, mas a sobremesa sempre cabe, uma colherzinha que seja.

Já para não falar que está muito associada às emoções e às memórias. Perdemos a fome ou comemos desenfreadamente diante de situações limite e difíceis. E aí, cada maluco com a sua mania, mas a ligação está lá.

O cheiro de algo que nos recorda a comida favorita, ou a memória da comida da mãe e, de repente, o estômago dá sinal que está capaz!

Outras vezes temos fome e não sabemos bem de quê. Não apetece nada, nem comer! É só uma sensação, um aperto, uma aflição! Nada nos parece bem, nada satisfaz verdadeiramente.

Mas a multidão do Evangelho... dá quase a sensação que era daquele bolinho da Alice, ou o pão Lembas, dos Elfos de Tolkien no Senhor dos Anéis: uma pequena porção é suficiente para alimentar um homem num dia de caminhada. E ainda assim o Pippin tinha comido quatro, num dos dois pequenos-almoços que os Hobbits comem.

Hoje no ginásio alguém se queixava que ainda não tinha conseguido perder o desejo de gelado! Sugeriram-lhe trocasse por Sorbet do pingo doce. Ao que a memória lhe bateu: “a minha mãe costumava fazer! Mas agora diz que já não tem paciência”.

Sorri, entre dentes, que no ginásio temos de ser falsos sob o risco de nos trazerem mais peso para a série seguinte. Batemos sempre no mesmo: falta de paciência, falta de tempo, falta de disposição, fazer o mais fácil. Mentir à PT para ela não me trocar o alter de 20kg para 25kg. Comprar o gelado do Pingo Doce. Para tudo na vida há uma proposta mais fácil, mais rápida e mais cómoda.

Raramente são melhores. Roubam sempre qualquer coisa de verdadeiro, de genuíno, talvez até transformador.

A multidão passou o dia inteiro a ouvir e deviam estar mesmo cheios de fome. Talvez esperassem o milagre; talvez esperassem que Jesus fizesse como em Caná; talvez estivessem tão absortos na novidade do que ouviam que nem se lembraram que tinham fome e com surpresa saíram de lá de coração e barriga cheios! Que coisa incrível.

É todo um processo. A multidão tinha fome e foi à procura. Fome de quê perguntaríamos nós, estranhando a loucura de ir para o monte atrás de um pregador. Talvez nem eles soubessem.

Talvez seja isso que nos faz falta, sentir fome. Fome a sério, que nos leve a ir à procura, por necessidade e não apenas porque é hora de comer.

E fome de sentido, de propósito. Vontade de não se ficar pelo fast food mais rápido.

Talvez possamos aprender com os italianos que gostam de almoçar sem pressa.

Descobrir a diferença entre comer e tomar uma refeição. Sim, porque não fazemos a versão fast food só para comer no shopping.

A saciedade que o coração deseja, precisa de tempo, paciência, dedicação.

Quem sabe se agora no verão não temos um bocadinho mais de paciência para nós mesmo e para esperar que chegue a nossa vez de receber o pão que sacia?

Pe. Patrício Oliveira

Patrício Oliveira

Padre desde 2011, ao serviço da Paróquia da Marinha desde como Pároco desde 2019.

Próximo
Próximo

O Sting foi burlado