Reparação
É insistente o pedido de reparação no acontecimento de Fátima. O Anjo convida ao sacrifício e à oração «em ato de reparação pelos pecados com que [Deus] é ofendido». Também a Senhora do Rosário desafia ao dom de si «em ato de reparação pelos pecados com que Deus é ofendido». Em junho, as três crianças veem na «luz imensa» que a Senhora lhes comunica um coração, que elas compreendem ser o «Imaculado Coração de Maria, ultrajado pelos pecados da humanidade, que queria reparação». A devoção dos primeiros sábados será, na aparição de julho, indicada como um meio de reparação.
Os pastorinhos, e em particular o Francisco, deixam-se surpreender por esta tristeza de Deus, esse mesmo Deus que os enche de alegria. É a tristeza de quem ama infinitamente e vê aqueles que ele ama perdidos no desamor. Aquele que se sabe amado incondicionalmente por Deus compreende o sofrimento de Deus por todos quantos se perdem do seu abraço com a marca do pecado. E o desejo de consolar a Deus surge como vocação. Como o expressa o Francisco: «Deus está tão triste, por causa de tantos pecados». «Se eu fosse capaz de lhe dar alegria». A reparação não é nada mais nem nada menos do que um ato de amor. Assim o vive o Francisco, o consolador de Deus: não como uma imposição, mas como um ato livre de amor de quem quer alegrar aquele que ama e por quem se sente infinitamente amado. (https://www.fatima.pt/pt/pages/palavra-chave-reparacao)
Os funerais das últimas semanas têm sido particularmente desafiantes, repete-se cada vez mais a total ausência de resposta. um silêncio sepulcral numa igreja meia; povo sentado, sem saber o que fazer ou como estar. Mas estão, dirão alguns.
A saga continua nas missas de sétimo dia. estes dias duas criaturas do Senhor sentadas na última fila em postura de esplanada, olharam para o altar com ar de gozo todo o tempo. Os ares de enfado, de quem nem se benze, de quem está visivelmente contrariado... hoje uma jovem metia dó, parecia estar com uma dor de dentes na fila para ser atendida sem anestesia.
Confesso que me magoa. Fazer um funeral sozinho à frente de 40 pessoas, é algo que não se aprende, nem prepara no seminário.
Uma voz amiga dizia-me, há uns dias, com uma paciência inspirada: “nunca rezaram, talvez nem nunca tivessem quem rezasse por eles, rezas tu.”
Nestes últimos dias de Maio, ainda à luz do 13, das Aparições e da Mensagem de Fátima, deparava-me com o testemunho do Francisco e da Jacinta no que diz respeito à reparação.
O texto acima explica bem. Impressionou-me a simplicidade da ideia: é possível reparar, a “tristeza de Jesus”, o “Coração que está tão ofendido”. O anjo pediu a três crianças que rezassem para reparação, para conversão dos pobres pecadores.
Impressionou-me a coragem e a determinação com que o Francisco e a Jacinta aceitaram e se empenharam nesta missão. Fosse em entregar os seus sofrimentos, fosse a procurar outros que pudessem oferecer.
Ao ponto de Nossa Senhora dizer que não dormissem com a corda.
É pedir muito? É. Mas ao mesmo tempo é pedir aquilo que somos capazes, mesmo que seja pequenino, mas que seja oferecido por reparação.
É ternurento como a Jacinta recusava comida e bebida, para oferecer esse sacrifício, mas recuou, quando percebeu a tristeza da mãe. Crianças!
Diante da ideia de ir para o Céu em breve, a Jacinta pede para ficar mais tempo, para rezar, pelo Papa, pelos pecadores...
Quão extraordinária é a ideia de que é possível reparar o mal feito? Num mundo marcado pela violência, pelo pecado gratuito e fácil. Onde o mal parece reinar sob o domínio do tal que se dizia príncipe deste mundo... O Pai do Céu pede a Maria que nos traga, com voz doce esta certeza: é possível reparar, concertar, refazer!
Não é apenas recondicionar, é refazer, voltar a ligar...
Fui fazer o funeral cheio de coragem, depois de ler acerca disto. Voltei a ter que o fazer sozinho...
Talvez a Jacinta e o Francisco e Lúcia tenham ainda uma especial intercessão por padres do seu concelho.
Pe Patrício Oliveira