O ter e o Ser
Naquele tempo, o tetrarca Herodes ouviu dizer tudo o que Jesus fazia e andava perplexo, porque alguns diziam: «É João Batista que ressuscitou dos mortos». Outros diziam: «E Elias que reapareceu». E outros diziam ainda: «É um dos antigos profetas que ressuscitou». Mas Herodes disse: «A João mandei-o eu decapitar. Mas quem é este homem, de quem oiço dizer tais coisas?». E procurava ver Jesus.
Lc 9, 7-9
A liturgia desta semana ofereceu-nos este vislumbre do rei Herodes, a minha imaginação puxa sempre a imagem do filme a Paixão de Cristo e a expressão “faz-me um milagrezinho!”. O texto desta semana termina com a curiosidade do rei, mas é uma curiosidade vazia, voyeurista talvez, sem consequência. É ver por ver, como quem vê um espetáculo. Ou nem isso, que num espetáculo ainda nos emocionamos, choramos, rimos, algo cá dentro se move. Mas porque é fantasia, a vida continua: foi uma memória bonita, um belo serão e a vida fica na mesma.
Rein Herodes, A Paixão de Cristo, 2004
Impressiona-me sempre esta falta de consequência, do Herodes, mas provavelmente também a minha.
Por estes dias temos discutido o novo plano pastoral, novas indicações para a pastoral do Baptismo e tem vindo ao de cima este sentimento (estranho?) de quem procura o baptismo para ter o baptismo, não tanto para ser baptizado.
E, atenção, não é uma questão de juízo de valor, é o espanto de perceber que no coração de uma grande parte dos “nossos” basta o ter.
Procuram-se os sacramentos para ter o baptismo, ter a primeira comunhão, ou o mais famoso: ter as comunhões todas. E é genuíno! Não é sentido como uma falha, erro ou desleixo, é o que é, lá dizia a dona Justina.
Estamos a trabalhar para que os adultos façam um caminho de dois anos de preparação para o baptimo, para que se integrem primeiro na comunidade, façam parte, é o modelo kerigmático e mistagógico tradicional da Igreja: o contacto com a comunidade suscita a curiosidade, a curiosidade leva a uma proximidade e essa proximidade levará ao deseja de fazer parte e com isso pedir os sacramentos de iniciação.
Mas nós, ingenuamente temos trabalhado com quem quer ter o baptismo, não necessariamente ser baptizado. Uma vez mais: não é juízo de valor em relação a quem vem.
É a mudança nos tempos.
Vivemos de facto um tempo pré-Cristandade. Estamos a descobrir, dolorosa e tardiamente, que a nossa sociedade não é toda ela cristã, a nossa abordagem terá que ser como a dos Apóstolos: primeiro anúncio. focado na pertença, na integração activa, contrariado o passivíssimo do católico não praticante.
As nossas paróquias estão de facto muito empenhadas na manutenção da estrutura tradicional, e o problema não é que seja “má” ou desadequada: é a falta de fome. Damos comida a quem não tem fome; uma refeição completa a quem a entrada sacia. A estrutura tradicional funciona para quem tem fome! Para quem não tem, nada serve, bem podemos nós inventar catequeses e dinâmicas e fazer o pino e piruetas e quase destruir a liturgia, nada serve, nada será suficientemente adequado, quando não há apetite (que a fome só vem ao fim de três dias).
O grande desafio das nossas comunidades será justamente descobrir esta fome (e nós abeiramo-nos da Mesa, se é que me entendem, muito por ser hora de comer, do que por fome a sério); a evangelização dos povos terá de começar por abrir o apetite.
E meus amigos andamos todos de barriga cheia. Não nos falta nada. Não temos que nos deslocar para ter missa, não somos privados de nada, há fartura e com a fartura vem infelizmente a banalização. E este é um risco para quem é da comunidade e de quem não é.
O mundo precisa de fome, mas está embuchado... porque passa o tempo a debicar coisinhas fáceis e gulosas... que enchem e fazem barriga, mas não alimentam.
Não comas isso que estragas o almoço, quem nunca ouviu?
Temos uma longa jornada pela frente. Precisamos que a nossa curiosidade e aproximação a Jesus seja consequente com o que vimos e ouvimos.
Pe. Patrício Oliveira