Ripple Effect
ripple Effect[1]
A notícia da morte do Padre José Luís caiu como um estrondo. Estivemos todos juntos na Quinta-Feira Santa e lá estava ele sorridente e bem-disposto como sempre. Provoca sempre um ambiente duro entre os padres. A perda de alguém é sempre dura, disso, vocês percebem bem; aqui acrescenta-se o peso do vazio que sentimos na sala onde nos paramentamos antes da celebração, começa a haver espaço a mais.
Conheço-o desde que me lembro, começou em Seiça, paróquia vizinha da minha Caxarias, de onde de resto, fomos desmembrados. E de facto tenho memórias das primeiras confissões serem com ele. E podia jurar a pés juntos que nunca envelheceu, aquela cara é mesma desde sempre.
Na vigararia de Ourém a pastoral Juvenil era organizada a nível vicarial, ao meu tempo de adolescente, era ele que tinha o pelouro. O padre Zé Luís, o Luís Miguel e o Paquim. Já na altura faziam a Oração Shemá, que rodava mensalmente pelas paróquias.
O primeiro a que fui, foi ali na Ribeira do Fárrio. (13 kms de pinhal! E lá íamos nós encher a igreja. Qual longe qual carapuça!)
A viagem na quinta-feira foi uma viagem pela avenida da memória... foi tudo tão estranho. Há muito que por ali não passava. Era tudo familiar e ao mesmo tempo diferente e distante. Cheguei de túnica e estola na mão, como lá cheguei com 14 anos: sem saber bem onde estava e para o que ia.
Recordo com carinho aquele Shemá. Nunca tinha participado em nada parecido, senti-me num sonho. O ambiente a meia luz, as velas de chá pelo chão, mantas para nos sentarmos. Senti-me a entrar numa dimensão paralela e juraria que não me sabia acordado ou a sonhar.
Foi a mesma sensação que tive ao chegar para o funeral.
Só que agora, o miúdo curioso, transformou-se num padre que se despedia daquela cara familiar, que, de confessor e animador, passou a colega.
E não, não eramos agora próximos. Os padres andam, cada qual, a segurar a sua ponta. Quando nos cruzamos grande festa sim senhor, mas siga para bingo que há muito a fazer.
Dou por mim a pensar em tudo isto, na minha história, no percurso que me levou a estar de pé de estola na mão na mesma porta. Enquanto estava ali a meio abalado, passou o Luís Miguel, com a mesma cara que eu. Imediatamente se saiu com:
- “Também vieste a muitos Shemás, não foi?”
Respondi que tinha sido ali o meu primeiro.
“ah! Deve ter sido um em que apareci a fazer de Moisés!”
(Prometo que um dia partilho estas memórias, este Luís Miguel quase nos matou a todos de susto no Resouro!)
Dei por mim a pensar no impacto que provocamos na vida uns dos outros. Parte do meu tempo é passado a massacrar-me pelo quanto fica por fazer, pelo quanto nos falta ainda. E sei que muitos “agentes de pastoral” sentem o mesmo. São horas de preparação, que depois batem contra uma parede de indiferença de miúdos que “não gostam de nada, nem acham graça a nada” e parece que não lhes fica nada. muitos desistem, outros entram em modo automático “tanto faz, é para picar ponto”. Estaremos todos enganados?
O padre Zé Luís nunca falou comigo de seminário ou vocações e, no entanto, eis-me aqui.
Quem sabe não seria tudo diferente se para nós fosse claro que todos os momentos, pequeninos que sejam, importam, marcam, acrescentam à vida dos outros?
“Uma borboleta bate as asas em Portugal e pode gerar uma tempestade do outro lado do Atlântico”, imagem o impacto que tem uma vida dedicada, feliz, cuidada com propósito, com consciência. Focados em ser discípulos missionários, gente apaixonada por Cristo, desejosa de ser mais, de ser Santa!
Não nos deixeis cair em tentação, nem no desânimo.
Pe. Patrício Oliveira
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[1] O Ripple Effect é a propagação incremental de estímulos ou consequências através de um sistema, onde uma perturbação local se expande e gera impactos em escalas muito maiores do que o evento original.